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Ignácio de Loyola Brandão
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Sherazade vence a morte

Por causa dela, faz semanas que nada sei da CPI da covid, não ouço rádio, não leio jornal

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 03h00

Eu era criança e ficava feliz quando meus pais me levavam à casa de Maria do Carmo Mendonça, parente cujo grau jamais consegui decifrar. A família dela tinha posses, uma casa boa, geladeira. Ter geladeira era indício de bem situado. Nada disso me importava, Maria do Carmo era dona de dois tesouros: a coleção completa da revista Tico-Tico e a coleção completa da Biblioteca Infantil Melhoramentos, mais de cem volumes. Havia um acordo entre ela e meu pai. Ela me emprestava um exemplar por vez da Biblioteca Infantil ou de O Tico-Tico. Cada vez que eu devolvia, ela examinava com lupa se não havia manchas de dedos sujos, nada rasgado, perfeito estado de conservação. Assim, aprendi a cuidar de livros. 

Um dia, a parente abriu o jogo. Pode levar este livro aqui, mas esconda. Leia sem que ninguém veja. Tem muita coisa inapropriada. Uma vizinha, a Odete Malkomes, me explicou que inapropriado era algo proibido, sacanagem (eu lá sabia o que isso queria dizer?), pecaminoso, contra a lei de Deus. Bastou, escondi o livro no galinheiro, debaixo de um telhadinho que protegia as galinhas da chuva. Mil e Uma Noites, chamava-se este livro. Que li num repente. Mas onde estava a tal sacanagem? Não entendi e conversei com Odete, que era boa gente. E ela: “Pois não viu que Sherazade conta uma história por noite ao sultão, depois o sultão come a moça?”. 

Na verdade, eu não tinha entendido isso. O que queria dizer comia? Foi meu primo-irmão José de Anchieta, que tinha nome de santo, mas conhecia tudo que era safadeza, que me explicou o significado de “comer”. 

Dali em diante, e por décadas, reli As Mil e Uma Noites fantasiando tudo, a cabeça agitada, meu sonho era ser sultão. Lá pelos 16 anos soube que as edições de As Mil e Uma Noites eram todas expurgadas. Limpas, puras. O que havia de safadeza e indecência tinha sido eliminado por um tradutor de nome Galante, que, ao transportar do árabe para o francês, transformou o livro em cândidas histórias. Somente depois dos 70 anos descobri que um sujeito de nome imponente, Mamede Mustafa Jarouche, se meteu a buscar os originais de As Mil e Uma Noites em tudo que era país árabe, se enfiando em empreitada gigantesca. Traduzir as histórias de Sherazade como eram originalmente em toda sua sensualidade, lascívia, carnalidade. Ou seja, sua libidinagem. Assim ressurgiu em português, sem cortes, censuras, carolices, uma das mais lindas obras da literatura mundial. Pura poesia. Um livro que é também sobre o poder das mulheres

Nova edição, agora da Biblioteca Azul da Globo. Por causa de Sherazade faz semanas que nada sei da CPI da Covid, das sacanagens de Pazuello e do Queiroga e da Precisa, e do Marcony e dos que se meteram nesse trambique enorme, criminoso. Não tenho seguido esse rolo que envolve a morte de brasileiros. Negociatas que custaram vidas por causa de dinheiro. “Money money, money makes the world go around, the world go around”, como cantaram Liza Minelli e Joel Grey no filme Cabaret, de Bob Fosse. Não me ligo no noticiário. Não ouço rádio. Não leio jornal. Para não me contaminar. Sigo Sherazade. Delicio-me a cada noite. 

Que astuta, esta mulher. Acaba uma noite, vem outra e as coisas se misturam, amor, poesia, sensualidade, esperteza, safadeza, humor, lirismo se imbricam. Que poder narrativo. E vou para a próxima, e leio e releio, e me encanto, e me esvazio das infâmias e dos rebaixamentos e das ignobilidades e vilipêndios e abjeções e opróbrios vomitados a cada momento nessa CPI da infâmia. Me enojo a cada resposta, e fica pior quando amparados pela lei, nada dizem, se culpando mais. Quanto mais silêncio, mais culpa parecem ter essas testemunhas. Tenho me entregue à Sherazade, atravessando suas 662 páginas com alegria, sorvendo-as sensualmente, lubricamente (epa), afetuosamente, porque aqui é tudo amor, literatura, fantasia, delírio, delícia, tesão, e a morte é vencida a cada dia, vencida por contos e recontos e relatos sem fim. A vida valendo ser vivida.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'

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