José Haro
José Haro

'Sete Minutos Depois da Meia-Noite' é uma delicada fábula sobre dor e luto

Livro mostra a história de Conor, garoto que começa a conversar com uma árvore ao ver sua vida desmoronar

Matheus Mans, O Estado de S.Paulo

02 Março 2017 | 20h29

A vida é repleta de monstros: o da vergonha, da frustração, da solidão. Eles crescem ou somem, simplesmente, de acordo com o momento. Uma dessas criaturas, porém, permanece assombrando: o monstro da verdade. O medo de dizer o que pensa e o que sente cresce conforme aprendemos a viver e a conviver em sociedade, tomando conta dos sentimentos. E é este medo - e este monstro - que é tema central de Sete Minutos Depois da Meia-Noite, livro de Patrick Ness lançado em 2011 e recentemente reeditado no Brasil.

Mistura das fábulas de Esopo com os contos dos irmãos Grimm, Sete Minutos Depois da Meia-Noite mostra a difícil vida de Conor, um garoto que sofre bullying no colégio enquanto a mãe tenta se curar de um grave câncer. Relutante em aceitar a difícil situação, ele tenta desesperadamente fugir da realidade. Afinal, Conor não quer viver com o pai, que abandonou a família, nem com a avó, de temperamento explosivo e que não possui tanta afeição com o menino.

É neste período que o garoto, como num sonho, começa a se comunicar com a árvore que fica nos fundos de seu quintal. Anteriormente um pacato teixo, ela se transforma num monstro gigantesco e que, diariamente, acorda o garoto sete minutos após a meia-noite para contar uma história sem os típicos finais moralizantes dos contos de fadas. São histórias duras, frias e cruéis, que espelham o que o garoto está sentindo. E é neste ponto que está o coração da trama de Ness, que cria um monstro aterrorizante, mas necessário, fazendo com que Conor enfrente a verdade e a dor em sua vida.

“Toda criança quer ter alguém em sua vida para dizer que não há nada de errado em pensar algumas coisas”, diz o britânico Patrick Ness, em entrevista ao Estado. “Mas, o grande momento do livro, para mim, é quando Conor pergunta ao monstro se ele vai ficar junto com ele em um momento crucial de sua vida, que se aproxima cada vez mais. Isso é tudo o que sempre queremos saber, para que a gente não se sinta sozinho.”

Publicado no inverno de 2011 e reeditado agora no Brasil por conta do lançamento do filme, o livro não foi fácil de ser escrito. A história, carregada de metáforas e de acontecimentos perturbadores, é densa e pode causar os mais diversos sentimentos em quem lê. “Se eu não sentisse emoção ao escrever o livro, seria arrogância pedir para um leitor sentir emoção”, diz Ness. “Tenho que ter certeza de que a história é real para mim para que tenha alguma chance de ser real para o leitor.”

E a intenção de Ness deu certo. Ler Sete Minutos Depois da Meia-Noite é compartilhar da dor de Conor. É sentir o puro e simples medo da verdade, se enxergando em situações que não queremos nos deparar. Tudo escrito do modo mais delicado possível, é claro, já que é um livro infantil. “Pessoas de todas as idades estão lendo o livro”, conta Ness. “Os adultos acham a leitura mais difícil do que crianças. Afinal, eles têm mais histórias de vida para se identificar.” Perguntado se ele não precisa de um monstro em sua vida, Ness é enfático. “E quem não precisa? Afinal, é por isso que criamos histórias.”

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