Everton Amaro
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Sesi-SP Editora deixa de publicar livros 'literários'

Editora vai focar na produção de livros didáticos e paradidáticos

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

25 de maio de 2022 | 08h30

A Sesi-SP Editora não vai mais publicar obras de interesse geral e vai focar apenas em livros didáticos e paradidáticos para as suas próprias escolas. A informação, que circulava na editora desde que a produção diminuiu para então ser congelada e desde que a questão foi levada a reuniões do conselho, foi confirmada agora ao Estadão pela assessoria de imprensa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Nesse período, foi encomendada uma nota técnica interna para justificar, perante o conselho, a decisão de não publicar mais livros de interesse geral. Wilson Risolia, secretário da Educação do Rio de Janeiro, entre 2010 e 2014, nas gestões Sérgio Cabral Filho e Luiz Fernando Pezão, e que chegou à Fiesp com a nova diretoria, no começo do ano, para cuidar de projetos ligados à educação, estava nesta reunião e teria dito que a editora era malgerida, que o estoque era grande e que ela devia se concentrar na publicação de livros didáticos. 

O Sesi é uma entidade sem fins lucrativos.

Risolia então teria pedido a aprovação dos presentes para consolidar esta mudança. Houve outra reunião mais recentemente, em maio, quando o assunto voltou à mesa. Nas duas ocasiões, André Sturm, cineasta, ex-secretário municipal de Cultura e membro do conselho, teria questionado a proposta e pedido mais informações para avaliar melhor, e os ânimos teriam se acirrado.

Procurado pelo Estadão, André Sturm confirmou que se posicionou contra o fim da Sesi-SP Editora em duas reuniões do conselho.

A Editora Sesi-SP tinha, até agora, quatro linhas: os didáticos para o Sesi e Senai, obras de interesse geral, histórias em quadrinhos e livros institucionais. As obras de interesse geral, que incluem os infantis e juvenis, e as HQs renderam, nos últimos anos, muitos prêmios à editora, entre os quais 11 Jabutis desde 2014, 12 prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), mais de 50 selos Altamente Recomendável da FNLIJ e seis selos Cátedra 10 Unesco.

Um desses livros superpremiados é Se Eu Abrir Esta Porta Agora, de Alexandre Rampazzo. Com o fim do contrato de 5 anos e sem interlocução lá dentro, o autor decidiu, recentemente, tirar o livro da editora. Daniel Kondo, que lançou em março No Cangote do Saci, um dos últimos títulos da casa, pediu o distrato de Monstros no Cinema, outro livro que recebeu muitos prêmios. São obras importantes, literárias, que não se encaixam no catálogo de uma editora de livros didáticos. 

Otimismo e pessimismo

Em 2021, a editora contratou alguns profissionais e o clima era de otimismo. Houve uma reestruturação para que muitos editores se dedicassem aos didáticos. Ao mesmo tempo, foi fortalecido o núcleo dedicado a livros de mercado, de literatura - aqueles que são vendidos em livrarias e feiras de livro e que ganham os prêmios.

A Sesi-SP é herdeira, também, de muitos livros do catálogo da Cosac Naify, doados por Charles Cosac no encerramento da editora. E, no momento, conta com muitos direitos adquiridos e livros prontos à espera de impressão. 

“As demandas do Sesi-SP e do Senai-SP em livros didáticos e paradidáticos respondem por 91% de toda a produção de Sesi-SP Editora e Senai-SP Editora. Com a revisão de conteúdos, decorrente da implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a produção deverá crescer ainda mais. Neste contexto, houve a decisão, aprovada em Conselho Regional, de focalizar nas demandas das duas entidades”, diz a nota ao Estadão.

Segundo a assessoria da Fiesp, o Sesi-SP tem uma rede de 142 escolas e 97 mil alunos dos quatro anos até o Ensino Médio. Já o Senai-SP oferece cursos de curta e de longa duração e, também de acordo com a entidade, soma quase um milhão de matrículas por ano. Portanto, toda a produção será de “livros didáticos e paradidáticos a serviço da educação”.

Questionados sobre o que acontece agora com estoque e equipe, disseram que eles serão “geridos de forma habitual”. “Os estoques serão utilizados na atualização das bibliotecas das unidades, vendas e doações pertinentes ao trabalho social da indústria de São Paulo”, diz a nota.

Nas últimas semanas, houve demissões e saídas de funcionários, e alguns profissionais foram realocados. Oficialmente, não foram informados das mudanças editoriais.

A participação da Bienal do Livro de São Paulo, entre os dias 2 e 10 de julho, está confirmada.

Obras gerais e didáticos

Divulgada na última semana, a Pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial mostrou que os livros do segmento de obras gerais apresentaram, pelo terceiro ano seguido, um aumento nas vendas e crescimento real de 3%, enquanto os didáticos encolheram 14%. Ter suas próprias escolas, deixa o Sesi de fora dessa crise, mas esta pesquisa e os levantamentos mensais feitos pelo mercado editorial reafirmam a redescoberta da leitura e a procura por livros de interesse geral, sobretudo depois da pandemia.

 

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