André Sant’Anna/ acervo pessoal
André Sant’Anna/ acervo pessoal

Sérgio Sant’Anna, que completaria 80 anos neste sábado, abriu caminhos para a literatura brasileira

Autor recriou o conto brasileiro ao experimentar variedade de formas e encontrou possibilidades narrativas que influencia gerações de escritores; Sérgio morreu em 2020, vítima da covid-19

Luiz Henrique Gomes, Especial para o Estadão

30 de outubro de 2021 | 10h00

Inventiva. Rebelde. Inquietante. Ao longo de 50 anos, essas palavras foram utilizadas repetidamente para descrever a obra de Sérgio Sant’Anna. Uma obra incontornável na história da literatura brasileira, que influenciou e influencia gerações de escritores e que foi produzida de maneira obstinada, como se a energia criativa do Sérgio fosse inesgotável - e, no fim da vida, houvesse se tornado a sua própria energia vital. Nascido no Rio de Janeiro no dia 30 de outubro de 1941, Sérgio Sant’Anna completaria 80 anos neste sábado.



O escritor faleceu aos 78 anos, no dia 10 de maio de 2020, vítima da covid-19. Deixou 20 livros publicados (de contos, em sua maior parte, mas não resumida a estes) que o colocaram ainda em vida no panteão dos grandes escritores brasileiros, seja pela experimentação formal, pela precisão da escrita ou pela franqueza com que narrava. Sérgio ocupa este lugar não só pelos méritos do passado, mas por ter se mantido contemporâneo, inventivo e rigoroso com a qualidade do que escrevia até o fim. “Essa obra é o seu legado e representa a história de um pensamento, de um artista que acreditava na arte”, disse o filho do autor, André Sant’Anna, também escritor.

Por isso, não é coincidência e nem surpresa que o último conto finalizado do autor (A Dama de Branco, publicado recentemente pela Companhia das Letras) seja ambientado durante a pandemia de coronavírus. A mesma pandemia que, poucas semanas depois do conto ser finalizado, o vitimou. “Às vezes, penso que a dama de branco é a própria morte”, escreveu, consciente da gravidade do que se anunciava e que mais tarde viria a matar 600 mil brasileiros.

O autor estreou em 1969 com o livro de contos O Sobrevivente, mas foi a partir do seu segundo livro, Notas de Manfredo Rangel, Repórter (1973), que ele apresentou a capacidade de unir uma variedade de temas, formas e estilos que o firmaram como um dos melhores e mais originais escritores da sua geração, ao lado de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. A partir daí, a experimentação se tornou uma marca inseparável, e Sérgio, um dos principais responsáveis pela mudança do conto brasileiro.



O repertório dos seus livros vão de poesia a romance policial, passando por teatro, artes plásticas, música clássica, ensaio, memória. Sérgio tinha a capacidade de escrever uma narrativa longa no formato de uma carta e, no conto seguinte, de uma entrevista. Em A Tragédia Brasileira (1984), apresentou um romance com elementos de teatro e classificou como “romance-teatro”. “A maior obsessão dele era não se repetir”, afirmou o escritor Gustavo Pacheco, que organizou o livro O conto não existe” (Cepe Editora), coletânea de entrevistas e ensaios de Sérgio ao longo da carreira.

Essa inquietação é um dos maiores legados do carioca para a literatura. Enquanto a geração dele estava à sombra de Clarice Lispector e Guimarães Rosa - dois escritores de primeira grandeza que fizeram a linguagem evoluir, mas que começam e terminam em si mesmos -, quem o sucedeu herdou os caminhos e as possibilidades narrativas encontradas na experimentação da sua obra. A liberdade criadora de Sérgio tornou crível, por exemplo, narrar uma história de futebol a partir do olhar de uma trave.

Os escritores influenciados por ele também tiveram a sorte de contar com a sua generosidade. Sérgio era atencioso com quem o procurava para pedir uma opinião ou mostrar algo que escreveu. “Ele se interessava pelo que as pessoas estavam escrevendo e estava aberto para a troca”, comentou a escritora Alice Sant’Anna, que o editou na Companhia das Letras a partir de 2017. Para outro editor seu, André Conti, trabalhar com o carioca era um barato pelas conversas bem humoradas e interesse em ouvir o outro.

Nos últimos anos, o autor estava com a saúde debilitada e recluso, mas continuou escrevendo sem parar. O filho, André Sant’Anna, conta que a rotina do pai se resumia a escrever e a assistir futebol, uma paixão que o acompanhou a vida inteira. Sérgio precisava ser lembrado das refeições para não perder a hora trancado no quarto.

Nesse tempo, a Companhia das Letras também começou a relançar seus primeiros livros. Sérgio começou a revisar o que havia escrito no início da carreira e, apesar do seu rigor característico, reconheceu a qualidade do que estava ali. “Ele começou a reler algumas coisas dele e a dizer: ‘é, até que isso aqui é bom’”, disse André. Sim, Sérgio, para a sorte de todos aqueles que o lêem, é muito bom.



 

TRÊS PERGUNTAS PARA ANDRÉ SANT'ANNA

 

Qual o legado que Sérgio Sant’Anna deixa para a literatura brasileira?

Eu diria que o grande legado que ele deixa é a qualidade do trabalho dele, de uma grande literatura. Eu acho que o principal é a capacidade dele de ir se transformando. É a história de um pensamento, de um artista. Você consegue ver um momento mais experimental, outro mais clássico. Ele é um cara que dedicou a vida inteira à literatura, escrevendo. Tudo que ele fez na vida foi em função da literatura.

 

Ele também sempre falava que escrever o deixava angustiado, mas não conseguia parar. Pelo contrário, escrevia o tempo todo. Como se dava essa relação com a escrita no dia-a-dia?

Em 1979, eu tinha 14 anos, lembro dele chegar para mim e falar: “parei de escrever”. Disse que tinha desistido, que não seria mais escritor. Seis meses depois, sai um livro inédito dele. Ele sempre falava que a literatura tem dois momentos bons: quando você tem a ideia do livro e quando o editor diz que está pronto. Mesmo assim, uma semana depois dos livros dele serem lançados, ele já começava com o mesmo discurso de que pararia de escrever. Nos últimos anos, ele até se surpreendeu quando reviu as primeiras coisas que havia publicado, para enviar para a Companhia das Letras, e viu que tinha muitas coisas boas.

 

O Sérgio sempre foi considerado um experimentalista, um anarquista dentro das formas literárias. Escreveu de muitas formas e sempre estava buscando novas. Você considera que ele via a literatura como algo inesgotável?

Uma coisa que ele me disse mesmo, logo quando eu era garoto, é que muitas vezes a criatividade e a invenção nasce daquilo que você não sabe fazer. Então, para conseguir fazer uma coisa que você não sabe a princípio, é preciso inventar. Ele falava que ele não considerava que escrevia bem na adolescência. A partir dessa dificuldade, ele acabou descobrindo uma maneira própria de escrever.

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