Walter Craveiro
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Sérgio Sant'Anna na Flip 2018: 'fico chocado com pessoas pedindo a volta da ditadura'

Escritor lutou contra a ditadura militar brasileira e falou sobre o assunto em sua mesa na programação principal da Festa em Paraty, dividida com o estreante Gustavo Pacheco

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2018 | 21h39

ENVIADO ESPECIAL / PARATY - Em um conto do livro Confissões de Ralfo, de 1975, Sérgio Sant'Anna narra uma cena num dos porões de tortura da ditadura militar brasileira. Enquanto os militares torturavam um cidadão, faziam-lhe perguntas absurdas como "quem descobriu o Brasil" e "qual a receita de roscas doce". "Eu tive medo que eles lessem o livro e fizessem o mesmo comigo", riu o escritor, prestes a completar 50 anos de carreira, na mesa da programação principal da Festa Literária Internacional de Paraty nesta quinta-feira, 26.

"Fico chateado com gente pedindo a volta da ditadura. A maior parte das pessoas que estão aí pedindo não viveram aquilo. Foi barra muito pesada. O que se vive no Brasil hoje perto daquilo não é nada. Embora haja muita coisa condenável, naquela época era uma impotência total. Os jornais eram censurados. Quem advoga ditadura, se for com honestidade, está cometendo um tremendo equívoco", disse o autor, para palmas do público.

Ele dividiu a mesa com o estreante Gustavo Pacheco, diplomata, autor de Alguns Humanos, lançado ao mesmo tempo no Brasil e em Portugal pela editora Tinta-da-China. O livro tem 11 contos que trabalham relações de consciência animal-humanos, pesquisa histórica e uma imaginação aparentemente selvagem.

"Benjamin dizia que todo documento de cultura é um documento de barbárie. As histórias procuram chamar atenção para o quanto a cultura está entremeada de barbárie, não só no passado. Histórias absurdas estão ao nosso redor hoje. Um distanciamento de narrativa, como tento fazer, talvez provoque um choque maior do que o tom jornalístico, de relato. Procurei apontar e dar dicas desse paralelo", explicou.

Para ele, sua trajetória profissional, viajando e vivendo por vários países diferentes, e tendo contato com literaturas diversas, o ajudou a construir sua voz narrativa, que tem recebido críticas positivas no Brasil e em Portugal.

Antes, Sant'Anna disse se sentir "assustado" ao completar 50 anos de carreira. "Evidentemente a morte se torna presente. Apareceu a necessidade de escrever textos autobiográficos, eu queria recuperar momentos da minha vida. Por exemplo, passei uma temporada em Iowa City, em 1970, convivi com 30 escritores de países diferentes. Os EUA viviam um momento efervescente. Sexo, drogas e rock n' roll, havia um alto astral, apesar do bode da guerra do Vietnã. Fora isso, queria fixar as vivências de infância, em Botafogo, a minha paixão pelo Fluminense. Foi um acerto de contas com a minha vida. É um privilégio. É como se eu tivesse vivido duas vezes."

Foram cinco livros inéditos nos últimos sete anos, e agora Sant'Anna disse estar "lentificando" o próprio processo. "Quero ter alguma qualidade de vida também", disse para a plateia, antes de concluir, para aplausos entusiasmados: "Eu gosto também de não fazer nada".

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