Sérgio Augusto, Claudius e Cássio Loredano fizeram discussão divertida sobre Millôr

Vasta obra do Guru do Méier tem rendido boas conversas na Flip; mesa desta sexta-feira relembrou suas peripécias na imprensa

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2014 | 16h37

PARATY - Homenageado da Flip deste ano, Millôr Fernandes se espalha pela cidade de Paraty - morto em 2012, o escritor, tradutor, dramaturgo e desenhista é homenageado na Praça da Matriz, onde enormes reproduções de letras lembram a virtuosidade de seu traço, e também na Casa da Cultura, que abriga preciosidades como alguns originais de seus mais de 8 mil desenhos e ilustrações, além de vídeos com entrevistas (sua participação na primeira edição da Flip, em 2003, continua notável) e um presente para o visitante: Daily Millôr, jornalzinho editado diariamente pelo humorista Reinaldo, que utiliza frases do homenageado para comentar eventos do dia, comprovando a perenidade de seu olhar crítico.

Frases parecem ser o grande legado de Millôr Fernandes. São elas, embaladas por deliciosas lembranças, que norteiam mesas comemorativas da programação oficial - foi assim na noite de abertura, quarta-feira, 30, e também na manhã de sexta-feira, 1º, quando os desenhistas/cartunistas Claudius e Loredano, ao lado do colunista do Estado Sérgio Augusto, divertiram a plateia com o debate intitulado “O Guru do Méier”.

“Millôr parecia um relógio, pois trabalhava sem parar”, contou Sérgio Augusto, que teve o primeiro contato com seu trabalho ao se fascinar com as duas páginas semanais assinadas por Millôr na revista O Cruzeiro, durante a década de 1940. Era a famosa seção Pif Paf, que contava com os desenhos de Péricles. “Como era jovem, eu não entendia tudo, mas eu acreditava que uma equipe era responsável por aquelas páginas, tamanha a quantidade de assuntos”, comenta. “O repertório de Millôr era vastíssimo.”

Foi naquela época, segundo Augusto, que Millôr teria publicado a primeira de sua infinita coleção de frases perspicazes, que o tornaria o principal frasista brasileiro: foi em 1944 e já indicava o valor de seu raciocínio: “Meu bem é o nome de solteiro do marido”.

“Seu raciocínio era rápido e, muitas vezes, surpreendente”, comentou Cássio Loredano, atual curador o acervo artístico de Millôr, hoje em posse do Instituto Moreira Salles. “Certa vez, quando um sujeito lhe pediu que escrevesse alguma bobagem no livro que acabara de comprar, Millôr não pensou duas vezes: pegou a caneta, abriu a página e disse: ‘Muito bem, pode ditar’.”

Segundo Loredano, dono de um dos mais finos traços da atual caricatura brasileira, o humor de Millôr se destacava justamente por ser universal. “Não era típico judeu como o de Woody Allen, mas irreverente na sua origem carioca. Ele não queria mudar o mundo, apenas divertir”, justifica Loredano, que organiza para setembro a primeira exposição a partir do material arquivado no IMS.

O gaúcho Claudius também descobriu os múltiplos talentos de Millôr por meio da Pif Paf, quando lia ainda criança. “Com 16 anos, fui trabalhar em O Cruzeiro e, quando passei a cuidar da seção de tintas, iniciei uma amizade com Millôr, que sempre trazia o trabalho pronto de casa: pastas recheadas de desenhos”, lembra.

Tanto Claudius como Sérgio Augusto se recordaram da transformação da seção Pif Paf em revista. “Numa sexta-feira, dia em que sempre trazia seu trabalho, Millôr chegou com os originais de A Verdadeira História do Paraíso. Todo mundo se divertiu, mas, depois de publicado, causou revolta dos leitores carolas. A direção da revista decidiu se retratar com a publicação de um editorial contra o Millôr que, indignado, foi demitido e processou a revista”, contou Augusto.

Millôr lançou a revista Pif Paf em abril de 1964, um mês depois de instaurada a ditadura militar no governo. Reuniu alguns dos maiores nomes do humor de então, como Stanislaw Ponte Preta, Ziraldo, Jaguar e o próprio Claudius, entre outros. Mesmo sem apresentar propostas políticas ou ideológicas, a revista foi perseguida pelo serviço de informação do exército e fechou depois do oitavo número.

A experiência foi decisiva para que outro grupo se inspirasse e fundasse o Pasquim, do qual logo se tornou um dos principais colaboradores. “Ele gostava de tratar de temas perigosos, mesmo quando disfarçava com seu olhar cínico”, observou Loredano que, auxiliado por Sérgio Augusto, lembrou de dois momentos que se tornaram clássicos da censura. O primeiro envolveu a ex-primeira dama dos EUA, Jackeline Kennedy, então já Onassis: “Recebemos, na redação, algumas fotos de Jackie na praia, sem sutiã. Foi o bastante para Millôr escrever a legenda: ‘Nasceu de bunda pra lua e aprendeu a usá-la’”, divertiu-se Augusto.

Em outro momento, Millôr limitou-se a informar mas, mesmo assim, provocou a desconfiança da censura. Foi quando noticiou, para a TV Tupi, o retorno da mulher do presidente Juscelino Kubitschek, depois de seis meses na Europa: “Dona Sara voltou e foi condecorada com a ordem do trabalho”. “Era verídico, mas a censura não perdoou.”

“No Pasquim, Millôr ajudou a mostrar como a imprensa podia se despir do terno e da gravata para conquistar a cumplicidade seu público”, observou Claudius. “E um de seus principais legados foi se posicionar como um vigilante da gestão da coisa pública”, completou Loredano. “Era como o ganso do Capitólio, denunciando os erros dos poderosos.”

FRASES

"Millôr só não foi preso pela ditadura militar porque o camburão que foi buscá-lo já estava cheio”

Jaguar - Cartunista

"Com seu trabalho genial, Millôr desconsertava até os censores”

Hugo Sukman - Mediador da mesa desta sexta-feira

"Com o Pasquim, a imprensa tirou o paletó e gravata e estabeleceu uma inédita cumplicidade com o leitor”

Claudius - Cartunista

"O humor dele era universal. Não judeu como o de Woody Allen, mas irreverente na sua origem carioca”

Loredano - Caricaturista

"Millôr cultuava a palavra precisa. Ao traduzir Shakespeare, ele reduziu as expressões ao máximo”

Sérgio Augusto - Jornalista

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