Sentimentos opostos norteiam novo romance

Bairro de personagens de 'NW' une ruas agitadas e becos sombrios

Entrevista com

Zadie Smith

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2014 | 02h00

Desde sua estreia na literatura, em 1999, com Dentes Brancos, a inglesa Zadie Smith deixa seus leitores com respiração suspensa até a chegada de um novo livro. Foi assim com O Caçador de Autógrafos (2006) e Sobre a Beleza (2007) e agora se repete com NW, também lançado pela Companhia das Letras.

Filha de mãe jamaicana e pai inglês, Zadie solidifica, a cada lançamento, a admiração da crítica especializada. "Uma escritora extraordinariamente talentosa, com uma voz que é, ao mesmo tempo, despojada e erudita, espirituosa e filosófica", decretou, anos atrás, Michiko Kakutani, resenhista do The New York Times. E os afagos não são momentâneos tampouco exagerados - Zadie se dispõe, a cada novo título, a mostrar como o mundo funciona.

Em NW, ela volta seu olhar a Londres, mais especificamente ao bairro de Kilburn, que fica na região de NW, local de encontro de culturas diversas. São quatro personagens (Nathan, Natalie, Leah e Felix), todos nascidos naquela área pobre da cidade. Em sua primeira parte, o livro centra o foco em Leah, mulher que gosta do marido, ama seu cão e despreza sua melhor amiga, Natalie, advogada que, exceção entre todos, conseguiu subir na vida.

Se Leah se debate contra a maternidade exigida pelo marido, Natalie é obrigada a enfrentar a derrocada de sua vida. Entre elas, convivem um aspirante a cineasta que não concretiza seus planos, Felix, e um rapaz preso a um destino infeliz desde o tempo de escola, Nathan. Ao redor deles, uma arquitetura que sufoca em vez de acolher e que Zadie descreve em detalhes sufocantes. Sobre o livro, ela falou por telefone com o Estado.

Você disse, em outra entrevista, que considera NW estilisticamente diferente de suas obras anteriores. Em que sentido?

Tem um tom diferente dos demais, envolve mais problemas femininos (como maternidade) e emocionalmente é mais forte. Mas, sabe, quando escrevo, não penso que estou produzindo algo diferente. Naquele momento, você está dentro da própria consciência e não percebe alguma abordagem diferente. Mas, pensando no que você perguntou, o engraçado é que, quando leio algum trecho de algo que estou escrevendo, as pessoas dizem que aquela narrativa soa de forma muito semelhante ao que já escrevi antes. Não sei se estou evoluindo ou não como escritora, o que realmente me interessa é não escrever a mesma coisa.

Aliás, em seus romances anteriores, os personagens masculinos têm uma presença mais forte, mas, em NW, são as mulheres as protagonistas.

Sim, acho que não havia dado tanta expressividade para as personagens femininas antes. Eu queria escrever sobre amizade e como isso me influenciava. Foi uma experiência um tanto amarga para mim, normalmente sou mais animada na escrita. Sabe, quando era adolescente, não tinha muitas amigas porque eu me via como uma garota estranha por não me sentir atraente. Eu não me ficava à vontade com as meninas. Mais madura, conheci mulheres mais velhas e mudei minha opinião - o que pode ser notado nesse livro.

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O que é determinante (no romance) é como se organiza nosso mundo. Se as pessoas, de certa forma, naturalmente merecem o que têm
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E é verdade que você considera o romance um exemplo de 'problem play', ou seja, aquele tipo de peça que privilegia o realismo?

Se há algo que eu gosto em ‘peças-problema’ é que neste caso há uma ambivalência, pois há mais tragédia que comédia. Há um mistério. E a resposta para este mistério está muito mais nas mãos do leitor, depende de sua sensibilidade. É assim que acontece no livro. A questão aqui é que há um sentido de que as pessoas têm o que elas merecem. E esta foi de fato toda a motivação do livro. Não é sobre o que é ou não verdade, mas, sim, sobre como o leitor se sente sobre esta pergunta. O que é determinante é como se organiza nosso mundo. Se as pessoas, de certa forma, naturalmente merecem o que têm. Se você acredita nisso, você organiza seus pensamentos de uma forma. Se não acredita, organiza de outra. Eu queria deixar esta questão aberta para o leitor.

Você apresenta Londres como São Paulo, ou seja, uma aglomeração de diversas comunidades muito distintas entre si.

Acho que quando há grandes bairros, pessoas se sentem inseguras. Há um certo padrão que mostra que quanto mais ricas as pessoas se tornam, mais alertas e ansiosas elas se tornam também. Elas se sentem mais ameaçadas pelo mundo exterior. O tipo de ‘comunidade do portão’ (ou das grades) que há nos EUA, eu tenho certeza que também existe no Brasil. Você não encontra isso na Suíça. O tipo de consequência que há é uma grande sensação de medo e ansiedade. E o desejo de que as pessoas mantenham o que elas têm com elas mesmas. E as comunidades se tornam cada vez mais fechadas e limitadas. Ou só às pessoas a quem você está ligado, da sua comunidade. Fica tudo muito limitado.

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Para mim, interessa observar como as pessoas se organizam socialmente como uma família.
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Como foi criar esses personagens tão distintos? Você se inspirou em pessoas que conheceu?

Na minha vida, é difícil viver dentro de uma bolha, pois sempre me encontro com muitas pessoas de diferentes partes do mundo. Mas estou envolvida em justaposições, porque mantenho uma rotina praticamente estática em Londres e, quando viajo, descubro novas formas de vida.

A paternidade também é um detalhe importante no romance. Qual a importância para você?

Talvez por conta das minhas origens. Para mim, interessa observar como as pessoas se organizam socialmente como uma família. Tenho amigos que, mesmo vivendo uma situação financeira complicada, decidiram ter filhos. Isso me inspira a recriar essas histórias, que me intrigam. Mas preciso dizer que iniciei a escrita desse livro cinco anos antes de nascer meu filho, ou seja, não tinha ainda enfrentado a experiência da maternidade. O mesmo aconteceu quando escrevi Sobre a Beleza.

Você considera a ficção o meio mais honesto de escrita?

Não (risos). Não me interessa passar algum tipo de mensagem com minha escrita. Acredito que a melhor coisa que um escritor tem a fazer é criar uma história que agarre a atenção do leitor e o mantenha viciado em sua narrativa, além de também fazê-lo pensar. Mas não acredito que essa seja a melhor forma de passar alguma mensagem.

NW

Autora: Zadie Smith

Tradução: Sara Grünhagen

Editora: Companhia das Letras (336 págs.,R$ 52; R$ 42 o e-book)

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