Cena do telefilme "Sartre: A Era das Paixões", de Claude Goretta, lançado pela Versátil Hoime Vídeo FOTO DIVULGAÇÃO
Cena do telefilme "Sartre: A Era das Paixões", de Claude Goretta, lançado pela Versátil Hoime Vídeo FOTO DIVULGAÇÃO

Jean-Paul Sartre é tema de telefilme e livro inédito no Brasil

Docudrama sobre filósofo francês trata de seu engajamento político e ensaio aborda a questão da subjetividade; veja trailer

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 03h00

Embora trate fundamentalmente da relação do filósofo francês com a política, o telefilme Sartre: a Era das Paixões, de Claude Goretta, dedica parte de sua longa duração às aventuras amorosas dele e sua companheira Simone de Beauvoir, com quem dividiu algumas amantes, em geral suas alunas. A produção, de 2006, vem acompanhada do histórico documentário realizado por Alexandre Astruc, Sartre por Ele Mesmo (1976) no box duplo Sartre no Cinema, que a Versátil Home Vídeo acaba de lançar. Trata-se de um item de colecionador, caixa com duas obras que, reunidas, traçam um perfil equilibrado do agitado pensador existencialista.

O veterano Goretta, diretor do delicado Um Amor Tão Frágil (La Dentellière, 1977), foi a escolha certa para dirigir o telefilme sobre Sartre, que já começa com um assunto espinhoso, o envolvimento do filósofo com os revolucionários argelinos que lutaram pela independência do país, então colônia francesa. Goretta, crítico, não poupa as contradições que cercam o discurso anticolonialista do filósofo em favor do Exército da Frente de Libertação Nacional (FLN) da Argélia.

Sartre considerava o racismo e tortura como resultados naturais da violência colonial e fez vista grossa aos atentados da FLN na França, o que fica claro no episódio que envolve um dos seus mais brilhantes discípulos e assistentes, Frédéric (interpretado por Frédéric Gorny), que acolhe em casa um terrorista argelino. O jovem estudante acaba involuntariamente envolvido num assassinato. Quando vai cobrar do mestre, recebe como resposta de Sartre que ele esperava, sim, uma reação dos argelinos à altura do processo de fascização do segundo governo gaullista.

Esse não é o único episódio da ação política de Sartre visto com olhar crítico por Goretta, que parece simpatizar mais com a literatura e menos com o discurso engajado do filósofo. Seu envolvimento com o projeto de filmar a vida do escritor entre 1958 – o ponto alto de sua filosofia – e 1964 – quando recusou o Nobel – se deu principalmente pela influência do pensamento existencialista sobre sua geração (Goretta nasceu em 1929 e começou a filmar em 1957, no auge do movimento).

Simone de Beauvoir, ao que parece, teve uma importância maior na formação do diretor. Quase sempre, a autora de O Segundo Sexo, interpretada pela atriz Anne Alvaro, surge como o grilo falante de Pinóquio, a consciência de Sartre, quando seu priapismo o impede de pensar nas consequências de seus atos. O ator Denis Podalydès, no papel do filósofo, prova que não é apenas uma instituição da Comédie Française, mas um intérprete entregue à caracterização, especialmente quando Sartre é empurrado contra a parede para explicar a tensão criada entre existencialismo e marxismo criada por sua filosofia.

Um momento engraçado que ilustra as contradições do filósofo é o de sua visita a Cuba, em 1960, na aurora da revolução castrista. Simone de Beauvoir fica constrangida por se hospedar numa suíte luxuosa de Havana enquanto Sartre não vê nada de errado em consumir bebidas caras no hotel, quando o povo corre atrás dos alimentos básicos. Mais uma vez, Goretta parece nutrir mais simpatia por Simone de Beauvoir.

Já no documentário de Alexandre Astruc, ela é personagem secundário, embora faça perguntas incômodas ao companheiro – a única capaz disso, num time de entrevistadores que inclui André Gorz, Jacques – Laurent Bost e François Périer, entre outros.

O documentário, longo, não é para todos. É dirigido especialmente aos iniciados no pensamento existencialista do filósofo que, sentado em seu apartamento de Montparnasse, em 1972, se submete ao autoexame, ainda que se sinta desconfortável nessa posição – ele é interpelado algumas vezes pela companheira Simone e obrigado a um exercício revisionista mais rigoroso do que se propôs. Ainda assim, um encontro histórico entre existencialistas.

Palestra de filósofo na Itália, em 1961, provocou Lukács

Inédito no Brasil, o livro O Que É a Subjetividade? (Editora Nova Fronteira, 160 págs., R$ 39,90) trata do tema no âmbito da filosofia marxista. A convite do Instituto Gramsci de Roma, em 1961, o filósofo Jean-Paul Sartre tenta responder a uma pergunta que o inquieta desde a juventude. Mas, nessa tentativa, acaba esbarrando em ícones do marxismo, como Lukács, dando uma resposta atravessada ao seu livro Existencialismo ou Marxismo (1948). 

Lukács denunciava o nascente existencialismo sartriano como uma arma ideológica da burguesia, preferindo ignorar que o filósofo francês não defendia a liberdade total do indivíduo, mas o compromisso com suas responsabilidades políticas – justamente por ser livre, o homem é responsável, defendia o pensador.

Para não comprar briga com os comunistas italianos, já que estava queimado entre os comunistas franceses desde 1956, por condenar a intervenção soviética na Hungria, Sartre, de modo inteligente, desloca a questão para o terreno literário, primeira analisando a questão do subjetivismo em A Cartuxa de Parma, de Stendhal, depois discutindo com seus pares outros autores, como Flaubert (Madame Bovary). / A.G.F.

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