Santiago Nazarian volta ao romance adulto

'Biofobia' acompanha personagem que se isola numa casa de campo, onde tem de lidar com seus medos e suas incertezas

André de Leones, Especial para O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2014 | 19h44

Quando a “possibilidade de um mundo adestrado e hipócrita e civilizado já não faz mais sentido”, o protagonista de Biofobia, novo romance de Santiago Nazarian, é devorado pela natureza e por si mesmo. Na verdade, para o roqueiro André, descrito pelo próprio autor como um loser, é como se aquela possibilidade nunca tivesse existido.

Após o suicídio da mãe, uma escritora premiada que “se escondia” em seu “refúgio, para escrever, já na terceira idade, na última curva, longe da cidade”, numa espécie de “surto bucólico”, André se isola na casa de campo que ela construíra. O lugar está cada vez mais vazio. A empregada e o advogado se vão, o cachorro some. A irmã do personagem vai até lá com amigas e parentes para que todos peguem o que quiserem, móveis, eletrodomésticos, discos, roupas, livros, e depois vai embora. Um casal de amigos aparece. Uma ex-namorada. Todos vêm e vão.

Anestesiado (ou talvez morbidamente animado) pelo álcool e, depois, pela cocaína, André parece alijado das pessoas e absorvido pela natureza, a qual ele sente mais e mais ameaçadora: “A casa cercada. Animais por todos os lados, acordados, à espreita. Serpentes nas árvores, morcegos no ar, escorpiões no solo, nas folhas, lacraias e jacarés. Se tentasse sair de lá, a onça, o cachorro-do-mato o devorariam”. Todas essas ameaças parecem espelhar o estado de espírito do personagem. São como projeções. A suposta violência da natureza seria a violência de André contra si mesmo.

Ele é uma espécie de roqueiro abastardado pelo próprio rock n’roll, um músico sem música, ou cuja “música não faria mais parte de momento algum da vida de ninguém”, alguém que chegou a alcançar um sucesso relativo para, depois, ser abraçado pelo pior ostracismo, dos que quase chegaram lá. Quando o sucesso deixa de ser uma miragem para se tornar uma alucinação, a realidade pode se esfarelar com uma velocidade brutal. De repente, “sua música era algo que só tocava dentro de sua própria cabeça”.

Não é possível falar sobre os desdobramentos alucinatórios, por assim dizer, de Biofobia, sem incorrer em spoilers, crime que preferimos não cometer (por mais que o romance não nos pareça um thriller – coisa que a orelha apregoa). O livro exibe alguma ambiguidade e procura estabelecer um chão para diversos níveis de leitura, mas a construção é precária, mal alicerçada. A gratuidade de seu tom pode ser verificada no humor autorreferente, cuja imaturidade salta aos olhos: para acender uma lareira, os personagens queimam, dentre outros, exemplares da Granta: Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros, da qual Nazarian foi preterido, e do romance Feriado de Mim Mesmo, assinado pelo próprio.

É um jogo cuja animalidade permanece acorrentada aos pés de uma contraposição maniqueísta. Afinal, explicita-se um alcance conceitual limitado acerca tanto de uma coisa (homem) quanto da outra (natureza). A dicotomia é óbvia e mal explorada. O horror não se cumpre. O romance se anula.

ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DO ROMANCE ‘TERRA DE CASAS VAZIAS’ (ROCCO), ENTRE OUTROS

BIOFOBIA

Autor: Santiago Nazarian

Editora: Record (240 págs., R$ 30)

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