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Samanta Schweblin revela a face mais inquietante da tecnologia

No romance ‘Kentukis’, autora renova noção de voyeurismo e limite de intimidade

Entrevista com

Samanta Schweblin

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 15h29

O preço é salgado, mas a utilidade é irresistível – por 279 dólares, consumidores de diversos pontos do mundo podem adquirir a febre do momento: kentukis, espécie de animal de estimação eletrônico que permite o acesso remoto à privacidade de seus proprietários. A ideia, entre sedutora e assustadora, é o que move o romance Kentukis, da argentina Samanta Schweblin e lançado pela nova editora Fósforo. 



Aos 43 anos, Samanta é elogiada por seu estilo inquietante de escrita, o que a torna uma herdeira da literatura de realismo fantástico, ou seja, continuadora de uma linhagem construída por nomes como Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar. Se a comparação impõe um destino pesado, Samanta livra-se dele (ou mesmo se apossa, com firmeza) em romances como Kentukis.

O livro é, ao mesmo tempo, engenhoso e engraçado. Presentes nas vitrines de praticamente todas as grandes cidades, os kentukis são como bichos de pelúcia cujo formato fica a critério do comprador, de dragão a coelho. O que é comum a todos é a presença de uma câmera acoplada atrás dos olhos, mas o controle não está nas mãos do comprador e sim de uma outra pessoa que, anônima, manipula o bichinho por meio de um tablet. O acordo é tácito: quem compra um kentuki aceita ser observado e cria, inevitavelmente, uma conexão com outra pessoa completamente desconhecida.

Trata-se de uma nova forma de voyerismo, pois o manipulador de um kentuki tem a permissão de entrar na casa de outra pessoa e circular livremente pelos cômodos, presenciando cenas muitas vezes de extremada intimidade. As diferentes formas de uso e suas consequências inspiram um catálogo de histórias privadas no qual se constrói o romance que Samanta exibe a extensão de permitir à tecnologia condicionar as relações humanas.

Afinal, se os “mestres” acreditam ter “controle” sobre os bichinhos, eles são, ao mesmo tempo, escravos do olhar daqueles que os habitam. Durante vários momentos, o leitor se tranquiliza por crer estar diante de um romance distópico ou, mais confortável, de ficção científica. A escrita vertiginosa de Samanta, porém, provoca a incômoda sensação de estar diante de um abismo. O afeto se revela tão importante como a infâmia nesse poderoso retrato do inquietante lado da tecnologia, aquele que descortina a fragilidade humana. Sobre o assunto, Samanta Schweblin respondeu ao Estadão, por e-mail, às seguintes questões.


 

Nossa crescente dependência das mídias sociais foi sua maior inspiração para 'Kentukis'?

Era o ruído de fundo, algo que me incomodava e cujas consequências não podia prever. Nunca pensei que teria interesse em escrever sobre o problema da tecnologia, mas assim que a ideia do kentuki passou pela minha cabeça, não consegui parar de pensar nisso. Agora, à distância, percebo que o dispositivo do kentuki é apenas uma desculpa. É um livro sobre o desejo, o medo, o preconceito, como é hoje ser cidadão deste mundo globalizado e cada vez mais fechado e opressor. Onde, às vezes, se não entendemos as regras, pode ser muito fácil cruzar os limites entre vítimas e vitimizadores.


 

O romance não tem detalhes técnicos no texto. Dessa forma, foi difícil escrever sobre tecnologia e mídia social?

Foi um desafio premeditado. Algo muito estranho vem acontecendo na literatura contemporânea há muito tempo: vivemos uma vida hipertecnologizada e a abraçamos com total naturalidade. Ninguém mais se surpreende com quase nada. Ninguém diz “olha que maravilhoso, isso parece o futuro”. Mas se a mesma coisa é escrita nas entrelinhas de um romance contemporâneo, então é classificada como ficção científica. Uma poesia em que os personagens trocam mensagens é poesia de alta tecnologia e assim por diante. É um ruído fascinante, então por que o aceitamos na vida real mas não nas nossas ficções? Não há nada no romance Kentukis que ainda não exista em nosso mundo, e eu queria deixar todos os detalhes técnicos de fora para ajudar nessa leitura realista, embora às vezes seja chamada de distópico, de ficção científica. Acho essa resposta dos leitores fascinante. É como se a realidade se movesse tão rápido que podemos absorvê-la em nossas rotinas, mas ainda não podemos pensar nela como nossa.


 

O kentuki é utilizado por idosos que procuram companhia e por crianças que carecem da atenção dos pais: a tecnologia é a solução para a solidão?

Pode ser uma solução, por que não? Moro a 12 mil quilômetros de distância da minha família e, se eu sentir falta deles posso, ligar e bater um papo. Não é o mesmo que se ver fisicamente, mas considero um encontro real, com suas vantagens e desvantagens.


 

Por outro lado, um kentuki salvou a vida de uma adolescente que havia sido sequestrada. Ou seja, também tem um aspecto positivo, não?

É que não devemos pensar na tecnologia como algo positivo ou negativo. A tecnologia sempre esteve conosco, foi também a invenção do machado e da roda, e depende de nós para que a usamos. Acho que, no caso das redes sociais e de todos esses novos dispositivos de comunicação, o problema é que avançam tão rápido que é difícil entendermos seus limites no tempo. E quero dizer todos os tipos de limites: éticos, legais, privacidade, educação...


 

Em que medida a tecnologia condiciona as relações humanas?

Bem, é uma ferramenta e, como qualquer ferramenta, pode ser útil para certas coisas e, para outras, exibir uma grande limitação ou mesmo um impedimento. Suponho que seja perigoso quando a tecnologia substitui completamente os relacionamentos face a face, tanto no trabalho, no ensino e pessoalmente. Mas, às vezes, também permite conexões que, de outra forma, seriam impossíveis. Acredito que a pandemia esticou esses limites, para melhor e para pior: aprendemos de que forma essas conexões nos são úteis e o que perdemos quando nos comunicamos por meio delas. O importante agora é perceber o impacto que esses novos costumes têm sobre nós, e reelegê-los ou abandoná-los com a consciência de que agora começamos a voltar a uma certa normalidade. Não por hábito, mas escolhendo novamente.


 

De onde surgiu o nome “kentuki”?

Surgiu espontaneamente durante o primeiro rascunho, só busquei algum nome estranho e familiar ao mesmo tempo, sem dar muita importância, porque queria ir em frente com a ideia que estava se formando na minha cabeça, não queria ser distraída. Quando percebi que o texto era sério, resolvi encontrar um nome definitivo. E fiz uma lista das coisas que gostaria que aquele nome implicasse. Queria uma marca que soasse estrangeira, mas também popular, barata. Yankee, mas também japonês ou chinês. A uma marca que já ouvimos noutro local, embora não nos lembremos de onde. Fiz uma pesquisa no Google com a palavra “kentukis” e saiu um cavalo russo com vários prêmios, uma refeição tradicional japonesa, uma cidade ucraniana e uma australiana. Surgiram personagens e clubes e até informações em línguas que não conheço. E então pensei que “kentukis” era perfeito, era exatamente isso e nada disso. Era pura confusão e uma sensação de familiaridade.


 

Um kentuki é fascinante porque permite navegar sem ser uma pessoa, percorrer os cômodos da casa de uma pessoa que está fora. Por que preferimos espionar os outros?

Voyeurismo nos fascina. Talvez tenha a ver com a ideia de que, se você espiar o outro quando ele não sabe que está sendo visto, então ele não pode agir, não pode te enganar, você o vê como ele é, você o enxerga na mais verdade absoluta. E há algo em ver a verdade mais absoluta do outro que nos ajuda a pensar sobre a nossa, sobre quem realmente somos, sobre como somos para nós mesmos.


 

A propósito, até onde é possível olhar sem violar a privacidade de outras pessoas?

Acho que ainda estamos aprendendo. A literatura é útil para fazer este exercício sem violar ninguém. Existe outra tecnologia tão eficaz para isso quanto a literatura? Imagine: mergulhar em um espaço onde você pode enfrentar seus piores medos, olhá-los bem de perto e perguntar a si mesmo as perguntas importantes – como eu poderia sobreviver a isso? Como? Ensaiar essas emoções, testar-se, provar-se, colocar-se no lugar de outra pessoa e entender o quão longe é possível ir com ela. E depois voltar para a vida real, para a sua vida, sem uma única ferida, mas com todas aquelas novas informações existenciais sobre você. Essa é uma tecnologia espetacular!


 

Por fim, que perguntas você pretendia responder com o romance? Algo sobre identidade?

Entre muitas outras coisas, queria me perguntar sobre a solidão que às vezes nos reserva a tecnologia e sobre todos os limites que nós mesmos quebramos quando não entendemos totalmente como ela funciona. Queria que os leitores tivessem empatia com os personagens a ponto de pensar que, em situações semelhantes, eles teriam tomado as mesmas decisões. Para mostrar a eles, mas principalmente a mim, quantas vezes pensamos que somos os mocinhos, mas na realidade estamos fazendo um dano irreparável. O quanto podemos romper e nos lastimar ao jogar com tecnologias que parecem familiares para nós – como mídia social e todos os nossos dispositivos de comunicação “inofensivos” –, mas que, na verdade, não sabemos de nada.

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