ALEJANDRA LÓPEZ/DIVULGAÇÃO
ALEJANDRA LÓPEZ/DIVULGAÇÃO

Samanta Schweblin faz sua estreia no romance

‘Distância de Resgate’ consagra a escritora argentina, herdeira da escrita realista e fantástica de Borges e Cortázar

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2016 | 06h00

Em uma pequena cidade do interior da Argentina, duas amigas, Amanda e Carla, e seus respectivos filhos, Nina e David, precisam lidar com uma contaminação por pesticidas. O veneno, no entanto, não é apenas uma ameaça física: a relação entre mães e filhos também é marcada por um mal que contamina e corrói por dentro.

Com esse ponto de partida, a jovem escritora argentina Samanta Schweblin, de 37 anos, estreou no romance com 'Distância de Resgate', lançado agora aqui pela Record. Contista renomada – ganhou prêmios pelos livros de contos 'El Núcleo del Distúrbio' (2002) e 'Pássaros na Boca' (2012), lançado pela Benvirá –, Samanta consolida no romance um estilo inquietante, em que elementos perturbadores desafiam o leitor. “As certezas e a serenidade ficam de lado”, afirmou, certa vez, o crítico de um jornal em Buenos Aires, onde Samanta é considerada a “herdeira da literatura de realismo fantástico”, ou seja, continuadora de uma linhagem construída por nomes como Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar.

Se a comparação impõe um destino pesado, Samanta livra-se dele (ou mesmo se apossa, com firmeza) em 'Distância de Resgate'. Em forma de relato, a trama se desenvolve a partir de dois narradores, Amanda e David, que se alternam. Juntos em circunstâncias obscuras, eles criam um relacionamento aparentemente doentio, que envolve tanto tradição familiar como o sobrenatural, a partir da migração de almas. Amanda tenta se lembrar dos acontecimentos dos últimos dias e, para isso, é incentivada por David, que a obriga a dizer todos os detalhes. “Isto não é importante” e “estamos procurando o ponto exato” são frases repetidas por ele a todo instante. Por e-mail, Samanta respondeu as seguintes questões.

Você é conhecida como autora de contos, mas quando se deu conta de que a história aqui exigiu o espaço de um romance?

Em seus primeiros esboços, 'Distância de Resgate' era um conto para o qual era impossível encontrar um final. Estava desconcertada porque embora soubesse perfeitamente o que trataria, quem seriam os personagens e tudo o que sucederia, apesar de tudo isso o conto não cumpria a função. Havia algo que não me convencia e que não me permitia avançar. Era a minha cabeça de contista: demorou para entender que não era uma história que poderia contar em dez, quinze páginas, como estava acostumada. Era uma narrativa muito introspectiva, que precisava avançar pouco a pouco, cada passo dado com segurança, imaginando-se a si mesma e perguntando repetidamente o que já havia sido respondido; precisava de 130 páginas mais das que já estava acostumada a trabalhar.

Os diálogos têm uma extrema força, especialmente quando David praticamente obriga Amanda a encontrar uma verdade. Como foi construir esses diálogos?

A voz de David, que conduz a história de ponta a ponta, foi também minha própria guia quando escrevi o romance. Cada vez que tinha dúvidas, ou me desviava, David estava ali, perguntando: o que é o importante? É uma pergunta que Amanda respondia em sua própria narrativa, o romance respondia à medida que avançava, mas eu continuava me perguntando, o que vale a pena contar ou não? O que é realmente “o importante” no momento de contar uma história? Sempre gostei do diálogo numa narrativa. Escutar os personagens falarem. Sinto que, por meio de sua voz, vou muito mais longe do que poderia ir como narradora, existe uma autenticidade, uma espontaneidade e até uma verdade no modo de falar de um personagem que me parecem absolutamente detonadores, quando escrevo e quando leio.

Os campos e os bosques são bons espaços para criar tensão. Por que decidiu que a história se passaria no campo argentino? 

Bem, tem a questão do glifosato, herbicida com o qual Amanda e Nina têm um acidente, algo sobre o qual nunca se fala, apenas se insinua, porque não é um tema central no romance. Mas para mim é importante, como cidadã, colocar também este tema em xeque. Falar um pouco de algo no qual nunca se tocou na literatura: os horrores que as pessoas estão vivendo hoje nos campos argentinos, com as novas políticas de plantação de transgênicos, as vaporizações do solo e uso de herbicidas como o glifosato. As pessoas que não conhecem o assunto acreditam que alguns temas que desenvolvo no romance, como as centenas de deformações em crianças, os milhares de abortos espontâneos e as mortes em menos de 48 horas são invenções para alimentar a ficção. Mas é uma realidade em grande parte da zona rural argentina atualmente.

Acredita que a literatura está levando em conta a realidade atual, tão complexa e acelerada?

Claro. Por isto estou tão maravilhada com este novo pequeno boom de romances curtos. Há pouco, resolvi contar os dez últimos livros que realmente me comoveram e descobri que a grande maioria são romances curtos. Não é que sejam todos uma maravilha, são apenas tendências. Mas é notável como esta geração, em sua linha mais literária, tem optado por textos mais curtos e contundentes. Há uma demanda nova da parte do leitor, que deseja qualidade, mas também urgência, uma tensão muito mais forte e exigente. 

Sua forma de tratar o lado menos conhecido da realidade faz lembrar a obra da cineasta argentina Lucrecia Martel.

Não a conheço pessoalmente embora aprecie muito a sua obra. Creio que existe algo nestas latitudes muito peculiar da literatura fantástica na região do Rio da Prata. Que não é o fantástico dos monstros e fantasmas, mas sim o de uma realidade que assombra. Uma realidade atenta ao “anormal”, a tudo que é possível suceder, mas não ocorre normalmente. Um espaço interessantíssimo nessa linha tênue que separa o possível do impossível, o conhecido do desconhecido.

Mais conteúdo sobre:
Samanta Schweblin

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.