Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

Salman Rushdie fala sobre seu novo livro

Escritor também abordou fatwa, ficção e fantasia

Entrevista com

Salman Rushdie

Alexandra Alter - NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

12 Setembro 2015 | 03h00

Salman Rushdie já era um adolescente quando soube que seu último nome fora inventado e não herdado. “Meu avô não se chamava Rushdie”, disse ele. “Meu pai inventou o nome. E fez uma escolha muito boa pois tinha a ver com seu interesse na filosofia de Ibn Rushd.”

Mais tarde, o escritor passou a compartilhar a obsessão do seu pai pela obra de Rushd, filósofo do século 12, conhecido no ocidente como Averrois. Agora ele o transformou no personagem central do seu novo livro Two Years Eight Months and Twenty-Eight Nights (Dois anos, oito meses e 28 noites).

O romance tem início na Espanha no século 12, onde o filósofo apaixona-se por uma bela mulher chamada Dunia que, na realidade, é um gênio disfarçado. Mas então a história dá um salto para Nova York num futuro próximo, quando descendentes distantes de Ibn Rush e Dunia descobrem que possuem poderes especiais, como lançar raios com a ponta dos dedos ou transformar galhos de árvore em ouro - alguns dos superpoderes são pequenos transtornos: um jardineiro chamado Geronimo flutua no ar.

Nos capítulos finais, os seres sobrenaturais participam de uma guerra épica contra gênios poderosos pelo futuro da humanidade, o que leva a um clímax com muito ação, que se desenvolve em lugares que poderiam ter sido descritos por Kafka em um filme de super-herói de grande sucesso. 

Durante recente entrevista no escritório do seu editor em Manhattan, Rushdie falou sobre seu amor pela ficção científica, suas séries de TV fracassadas, sobre o fato de estar na lista da Al-Qaeda e a sua disputa com o escritor Peter Carey. Abaixo trechos da entrevista.

O romance traz alguns temas que o senhor já explorou no passado, como o conflito entre fé religiosa e razão, mas, estilisticamente, ele parece mais solto, misturando filosofia medieval e mitologia islâmica com um universo de ficção científica similar aos quadrinhos da Marvel Comics. O que o inspirou a criar esses personagens de super-heróis e uma trama de fantasia no estilo Guerra dos Mundos?

A ficção científica está onde comecei, realmente. Quando criança, eu era viciado em ficção científica. Foi um dos meus primeiros interesses como escritor - apenas demorei muito tempo para me envolver de novo com esse assunto. Foi também uma reação contra escrever minha biografia. Passei dois ou três anos tentando, com bastante empenho, relatar a verdade e, no final, estava farto de tanta verdade.

Qual foi a ideia que deu nascimento a esta história?

Eu tinha Geronimo, o jardineiro, e o seu desprendimento da terra. O que me fez desejar escrever foi a ideia de que ele ficaria somente um centímetro e meio planando sobre o chão. Voar nos céus, isso não é interessante, mas ficar um centímetro e meio acima do chão é uma grande violação da lei da gravidade. E mais engraçado.

Um dos fios condutores da narrativa refere-se a um secular debate filosófico entre razão e fé, que o senhor retrata vivamente semeando o caos no mundo provocado por gênios, derrubando as leis da física. Por que a fantasia se tornou um bom veículo para ilustrar essas ideias abstratas?

Na minha mente, era uma relação com a ideia que eu tinha de um mundo onde as regras são quebradas, onde o mundo está mudando tão rápido em todas as direções que deixa muitas pessoas perplexas. Na verdade, você não sabe mais quais são as regras e tem a sensação de que talvez haja outras pessoas muito mais jovens que sabem quais são as regras e assim ganham bilhões inventando, o que? O Snapchat? Que diabo é isto? E, aparentemente, vale bilhões. Os romances valem, se você tem sorte, uma soma de seis dígitos.

O senhor é um ateu confesso, mas, na sua ficção, parece que tem uma queda pela mitologia e pelas religiões politeístas.

Ideias me interessam e as religiões são um manancial onde, há milhares de anos, as ideias são sutilmente incorporadas. Toda literatura começou como literatura sagrada.

Seu romance é uma espécie de homenagem ao mito de Sherazade, que todas as noites contava histórias para retardar sua execução, e o título é um refrão baseado nas Mil e Uma Noites. Surpreende-me que o senhor tenha sofrido o inverso da história de Sherazade depois de ser alvo de uma execução por seu livro Versos Satânicos.

Sim, o anti-Sherazade. Minha vida é o que é e claramente ela afeta o que penso. Sherazade é uma das grandes figuras cujo escritor é anônimo. Ninguém tem ideia de quem a criou, de modo que é fácil pensar que ela se criou. Mas ali está ela, uma das personagens imortais da literatura, e como você não se apaixona por alguém que procura humanizar pessoas primitivas contando histórias?

Soube que o senhor assiste a Game of Thrones.

Gosto da garota com os dragões e também do anão, e quero que eles vençam. 

O senhor foi muito contundente apoiando a decisão do Pen American Center de prestar uma homenagem ao jornal satírico francês Charlie Hebdo este ano, algo que alguns escritores, incluindo Peter Carey e Francine Prose, se opuseram, alegando que a revista perpetuava ideias de intolerância. O senhor ficou surpreso ao se ver do outro lado de uma disputa ideológica com colegas?

Não conseguia acreditar. Ainda não consigo. Tantos escritores, velhos amigos meus. Foi de fato um choque. Agora, naturalmente, o dano que perdura é no caso de algumas destas amizades. Não tenho visto alguns deles e nenhum entrou em contato comigo. Senti que foi uma injustiça, aquelas pessoas serem executadas por criarem caricaturas. Se você está em uma organização que prima pela liberdade de expressão, como pode não estar do lado deles? Quando Carey disse ao The New York Times que ela via aquilo como liberdade de expressão, pensei, “o que?”.

O senhor não vive mais recluso há anos, depois de se ocultar por muito tempo por causa de uma fatwa (condenação à morte lançada contra ele pelo aiatolá Khomeini em 1989, por considerar blasfemo o livro Os Versos Satânicos), mas recebeu ameaças de outros grupos extremistas recentemente. Em 2013, uma revista da Al-Qaeda, Inspire, colocou-o em sua lista negra, ao lado de outros intelectuais que consideram hostis ao Islã.

Muitas revistas me colocaram em listas negras. Acho que corro mais risco no caso da N+1 (revista literária) que da Al-Qaeda.

Os EUA estão às vésperas de suspender as sanções contra o Irã e normalizar as relações diplomáticas. Sendo uma pessoa condenada a uma sentença de morte pelos líderes religiosos do país, como o senhor se sente com relação a tudo isto?

Para dizer a verdade, realmente não sei o que pensar. Estou confuso. De um lado, a última década, mais ou menos, nos mostrou que a guerra não funcionou, então talvez seja melhor tentar a paz. O outro argumento é que estamos falando sobre o Irã, e essas pessoas não são confiáveis. Estou num terreno estranho em que não sei bem o que pensar. Sou um romancista. Felizmente não tenho de governar o mundo.

O senhor tem usado o Twitter para se relacionar com seus fãs e ocasionalmente responder a críticos. O que o atrai neste caso?

Minha percepção no caso do Twitter oscila muito. Há longos períodos em que não me incomodo. Gosto porque me traz informação. E, naturalmente, é útil para poder informar as pessoas que você publicou um livro, quando milhões o estão seguindo. Então você vê Neil Gaiman e começa a se sentir envergonhado de ter apenas um milhão. E depois entra em contato com intelectuais realmente grandes no Twitter, mas também tem Justin Bieber e Kim Kardashian e aí você se sente um verme. Há ocasiões em que concordo com a opinião de Jonathan Franzen de que devemos ficar longe do Twitter.

O senhor se uniu a outros artistas em vários projetos, incluindo uma escultura com Anish Kapoor e uma balada com a banda U2. O que o leva a trabalhar com artistas de outras mídias?

Não procuro essas colaborações. Foi um momento interessante logo depois que o U2 e eu compusemos uma música. Quando ficou público que a banda e eu tínhamos composto em colaboraçã0, durou cinco minutos para todas as bandas pop britânicas imaginarem, ‘oh, Salman Rushdie, devíamos compor uma música com ele’.

Então devemos esperar um álbum do One Direction com Salman Rushdie.

Estou aberto às ofertas. Falem com meu agente, como dizem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

TWO YEARS EIGHT MONTHS AND TWENTY EIGHT NIGHTS: A NOVEL

Autor: Salman Rushdie

Editora: Random House (304 págs.; US$ 15,40; US$ 14,99 e-book)

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