Reprodução
Reprodução

Sai nova edição de 'O Supermacho', livro de Alfred Jarry

Escritor esclarece a união entre poesia e revolta, o que revela a essência obscura da paixão

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2017 | 04h00

Em 1985, a editora Brasiliense lançou uma tradução que Paulo Leminski adorou ter feito, de O Supermacho - Romance Moderno, obra publicada originalmente em 1902 pelo francês Alfred Jarry (1873-1907) e considerada um dos precursores das vanguardas do século 20. Fã incondicional do autor, Leminski fez o que pode para divulgar o livro. Na época, obteve grande sucesso, ajudado pelo sucesso da montagem teatral do mais conhecido trabalho de Jarry, a peça Ubu Rei (1896). Passado o tempo, O Supermacho tornou-se encontrável apenas em sebos até que a jovem editora Ubu, em mais um marcante lançamento, devolve às livrarias a versão criada por Leminski, agora com posfácios do filósofo Giorgio Agamben e da crítica literária Annie Le Brun, além de ilustrações de Andrés Sandoval, que utiliza uma coleção de carimbos antigos para produzir imagens compostas de corações e engrenagens.

“A escritura de Jarry é de alta imprevisibilidade”, avisa Leminski em uma nota em que apresenta o francês ao público brasileiro. De fato, se Jarry utilizou a arte cênica para representar, em Ubu, a fantasia, o grotesco e o mau gosto que lhe inspiraram os sofrimentos causados pela prepotência que enfrentou quando aluno, em Supermacho ele trata da superação dos limites humanos na relação entre homem e máquina para destacar a sexualidade, que ocupa o lugar central do enredo.

A trama se passa em setembro de 1920, oito anos à frente de quando o livro foi publicado. Em meio a um encontro de notáveis, o anfitrião, André Marcueil, dispara a frase que abre o romance e estremece a todos: “Fazer amor é um ato sem importância, já que se pode repeti-lo indefinidamente”. É o suficiente para ele refletir sobre a capacidade da força humana, aplicando-a tanto aos limites da resistência física em geral como, principalmente, às próprias possibilidades sexuais.

Desfeito o silêncio inicial, o grupo passa a discutir sobre as possibilidades reais de o homem fazer amor repetidamente, de forma libidinosa e irresponsável, assumindo a posição de um “supermacho”. Como cada comensal tem sua própria profissão, as opiniões refletem seu conhecimento particular: o químico palpita sobre os limites do corpo, se bem alimentado; o construtor de aviões lembra que é possível criar mecanismos que ajudem o ser humano no esforço; o doutor cita os enganos do álcool na aventura.

A discussão torna-se acalorada e cada vez mais liberada. Divertidos diálogos trazem citações literárias em que personagens quase se acabaram de tanto fazer amor, como em As Mil e Uma Noites. 

Como em uma boa roda de conversas, o enredo do livro não é linear - divagações, trocas de opiniões, casos nem sempre verdadeiros se entrecruzam indistintamente, oferecendo um tresloucado painel onde o improvável serve tanto de diversão como de reflexão. E é, no fundo, nesse imaginário ambíguo - ora rígido, ora terno - que reside a grande força do romance, no qual tudo pode ser interpretado de múltiplas e variadas formas.

Como foi escrita no início do século passado, quando a sociedade tanto se fortaleceu com os avanços científicos como ironicamente se tornou cada vez mais submetida a eles, a obra questiona tal mecanização humana e o que isso implicava nas reflexões da época sobre o amor e o desejo, onde se ouvem ecos do super-homem de Nietzsche.

 

A comparação é lembrada pelo filósofo italiano Giorgio Agamben, no posfácio, que foi publicado na primeira edição da obra em seu país, em 1967. Seu argumento retoma o Super-homem de Nietzsche para comparar o modo como Jarry apresenta a questão do homem diante de seus limites, uma questão filosófica por excelência. “Jarry é, antes de tudo, essa experiência da divindade do riso, do homem que, no riso, transcende a si mesmo numa infinita e mortal proximidade com o divino”, escreveu.

Ao avançar na trama, o leitor logo percebe que André Marcueil não é o único a se gabar pela superação dos limites sexuais - uma mulher, Ellen Elson, acredita ser possível acompanhá-lo. Esta personagem coloca a mulher à altura do supermacho e a afasta de um papel passivo. A crítica literária Annie Le Brun, que assina outro posfácio, fala do encontro desse par: “Jarry não hesita em fazer do amor, sob todas as formas, o mais escandaloso tema de revolta”.

Finalmente, os convidados decidem organizar uma alucinada corrida de bicicleta, meio de transporte preferido por Jarry. Inventor ainda da ‘Patafísica, “a ciência das soluções imaginárias”, que opera, de modo cômico, a desconstrução do real e sua reconstrução no absurdo, Alfred Jarry sabia como provocar o riso, ainda que um riso nervoso. E, depois de se tornar um dos inspiradores dos surrealistas e do teatro do absurdo, ainda é um escritor resistente às instituições.

Annie Le Brun lamenta que O Supermacho ainda é pouco lembrado em relação a Ubu Rei, peça que ganhará nova montagem, agora com Marco Nanini e Rosi Campos, a estrear em março, no Rio.

O SUPERMACHO

Autor: Alfred Jarry

Tradução: Paulo Leminski

Editora: Ubu (176 págs., R$ 49,90)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.