REPRODUÇÃO
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'Sade - A Felicidade Libertina' ganha reedição

Ensaio de Eliane Robert Moraes é um convite para ler e reler Sade

Mariana Teixeira*, O Estado de S. Paulo

16 de maio de 2015 | 03h00

“É preciso queimar Sade?”, perguntava Simone de Beauvoir. Desde os anos 20, com Apollinaire e os surrealistas, parte da intelligentsia francesa já havia decidido que não. E, no entanto, a obra do controverso marquês nunca deixou de perturbar: se não a queimamos, o que fazer com ela? Sade – A Felicidade Libertina (2015), de Eliane Robert Moraes, é um convite irresistível para ler, reler e ler novamente Sade. O ensaio, que sai agora em segunda edição (a primeira é de 1994), se organiza em cinco capítulos que discutem os gestos e os lugares privilegiados da literatura sadiana, por intermédio dos quais Eliane conduz seu leitor (e sua leitora) com delicadeza e rigor, finesse e firmeza, liberdade e método, fazendo jus ao que há de melhor em matéria de crítica literária – e de libertinagem.

Viajar e comer, gestos devassos. O primeiro capítulo revela a etapa inicial da busca do devasso: viajar é o que possibilita o “deboche”, fim supremo. Como bem demonstra a autora, partir era gesto fundamental no universo do imaginário setecentista – basta lembrar, a título de exemplo, dos inúmeros relatos de viagens, reais e imaginárias, publicados ao longo do século 18, ou ainda das aventuras de Casanova e do abade Prévost pelos caminhos de uma Europa todavia cheia de mistérios. Dentro da lógica do libertino de Sade, viajar se torna um imperativo ainda maior já que a mobilidade produz a energia necessária à prática devassa; é ela que promove, pela renovação das vítimas, a repetição incessante do gozo. Investigando a associação entre curiosidade filosófica e ímpeto antropológico, entre observação científica e simples pretexto para a renovação do prazer, Eliane nos mostra que um dos gestos primevos do libertino sadiano é viajar.

Comer é o outro gesto determinante da trajetória e do caráter desse devasso, e o terceiro capítulo de Sade. A Felicidade Libertina nos lança num universo gustativo e olfativo surpreendente, delicioso e repugnante. A ideia do banquete se expande em diferentes direções na análise da autora, a qual, sem nunca perder de vista os meandros da prosa sadiana, nos dá notícia da sutileza dos significados que adquirem ali a fome e o apetite, o vinho e a água, a carne e o pão. E não é só relevante compreender o que e como se come e se bebe, mas igualmente o que se diz sobre tudo isso. Nesse quesito, a sujeira se torna combustível da luxúria. Não só os excrementos e a urina, mas também o sêmen e a carne humana, entram como ingredientes indispensáveis em rituais que, como explica Eliane, nada têm de aleatórios, pois implicam uma ordem da qual depende o deboche.

Lugares da libertinagem. Mas para onde partem esses libertinos? Onde acontecem tantos banquetes insólitos? Quais são os espaços escolhidos para tanta devassidão? Segundo Eliane, são três os ambientes que concentram, na obra de Sade, as atividades libertinas: o castelo (cap. 2), o teatro (cap. 3) e o boudoir (cap. 5). Cada um deles é observado em sua particularidade dentro dos romances – e da vida – do marquês, assim como em sua universalidade no âmbito sociocultural e na imaginação setecentistas. Os leitores se inteiram, deste modo, da vertiginosa relação que o século das Luzes travou com a imensidão dos vulcões e dos abismos, dos penhascos e dos precipícios, mas também com aquela, não menos arrebatadora, dos castelos góticos ou de sombrios conventos. Tais paisagens – naturais ou construídas, nas quais os horrores se confundem às delícias – funcionam como pendant para o boudoir, misto de gabinete e quarto secreto, local em que se definem outras práticas da intimidade, bastante diversas das que o modelo da família burguesa começava a impor.

Eliane nos lembra ainda que, entre a enormidade do castelo e a privacidade do boudoir, há o teatro, lugar fundamental da sociabilidade setecentista e, possivelmente, uma das mais importantes chaves de leitura para se compreender esse século tão perturbadoramente próximo e distante de nós. Nos meandros do jogo entre natureza e artifício, verdade e ilusão, a obra de Sade – ele mesmo, autor teatral – nos lança de modo categórico, pela prosa de Eliane, dentro do debate a respeito do ser e do parecer.

A felicidade como horizonte. No fim do percurso, resta um horizonte um tanto inquietante: seria possível vislumbrar algo que se aproxime de uma “felicidade libertina”? Para Eliane, o segredo é ultrapassar criticamente o dualismo entre corpo e alma, o qual é contestado de maneira radical pela obra de Sade quando esta propõe “que toda reflexão deve submeter-se aos sentidos” (pág. 258). Continua a autora: “E quanto mais radical a experiência, mais válida ela será. Felicidade e alegria: é difícil reconhecê-las nos livros sadianos, pois a seu lado estarão sempre as imagens mais violentas, as mais cruéis, as mais repugnantes. Eis, portanto, o que se deve ultrapassar para descobrir Sade”. (pág. 258) De maneira firme e delicada, Eliane Robert Moraes nos ajuda a atravessar a obra sadiana na direção da compreensão desta felicidade.

*MARIANA TEIXEIRA É PROFESSORA DE LITERATURAS EM LÍNGUA INGLESA NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO. ESPECIALISTA EM LITERATURA COMPARADA COM ÊNFASE NO SÉCULO 18 INGLÊS E FRANCÊS, É AUTORA DO LIVRO FANNY E MARGOT, LIBERTINAS: O APRENDIZADO DO CORPO E DO MUNDO EM DOIS ROMANCES ERÓTICOS SETECENTISTAS (NO PRELO)

SADE – A FELICIDADE LIBERTINA

Autora: Eliane Robert Moraes

Editora: Iluminuras (280 págs., R$ 57)

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