Editora Todavia
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Rosa Montero retrata mulheres esquecidas ao longo da História

'Nós, Mulheres' reúne artigos escritos pela jornalista sobre mulheres talentosas, cujos talentos foram sufocados pela sociedade

Entrevista com

Rosa Montero

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 05h00

Irene de Constantinopla foi uma imperatriz bizantina que reinou entre os anos 797 e 802, governando com mão de ferro um império para homens – mas ela só entrou para a história por um gesto cruel: mandar arrancar os olhos do filho, Constantino VI, para evitar que ele lhe tomasse o trono. Já Alma Mahler era uma pianista magnífica, além de compositora, pintora e editora – na Viena do início do século 20, diziam-se maravilhas de seu talento promissor. O marido, Gustav Mahler, no entanto, não aprovava que a esposa continuasse a compor, preferindo que ela cuidasse da casa e dos filhos, o que lhe provocou uma profunda depressão.

São histórias assim que compõem Nós, Mulheres (Todavia), livro que reúne uma série de artigos escritos pela jornalista espanhola Rosa Montero. Perfis de jovens cujo talento foi sufocado por uma sociedade machista, que não aceitava o brilho intelectual de uma mulher. “Durante milênios, as mulheres foram cidadãos de segunda classe, tanto no Oriente como no Ocidente, tanto no norte como no sul”, observa ela, lembrando que centenas de mulheres se destacaram em áreas como ciência, arte, política, economia e astronomia, mas a história foi sexista e nunca as reconheceu, permitindo que morressem e desaparecessem.

O livro é uma continuidade a História de Mulheres, lançado em 1995 (e, no Brasil, em 2008, pela Agir), época em que raros autores se dispunham a escrever sobre a memória das esquecidas. Os 25 anos seguintes foram importantes para a chamada “causa da mulher”, especialmente com a gradativa desconstrução do sexismo.

Rosa vê Nós, Mulheres como um trabalho de recuperação quase arqueológica porque “precisamos de modelos reais, precisamos saber que a vida não era nem é como a contaram para nós”. Assim, reuniu 16 perfis de mulheres que se distinguiram em sua área de ação, mas cujo brilho foi enfraquecido ou mesmo ofuscado pela cultura machista vigente. Além de Irene de Constantinopla e Alma Mahler, há nomes que alcançaram uma honrosa reputação, como Agatha Christie, Simone de Beauvoir e Frida Kahlo, além de outras que esperam pelo devido reconhecimento, como a antropóloga americana Margaret Mead ou como as militantes espanholas Aurora e Hildegart Rodríguez, mãe e filha.

Na introdução de Nós, Mulheres, a escritora espanhola traz uma citação do revolucionário marxista Friedrich Engels, para quem “a subordinação da mulher se originou ao mesmo tempo que a propriedade privada e a família, quando os seres humanos deixaram de ser nômades e se assentaram em povoações agricultoras”. O homem, dizia Engels, precisava assegurar filhos próprios a quem transmitir suas posses, daí que passasse a controlar a mulher.

“Esse receio do poder das mulheres é perceptível já nos mitos inaugurais de nossa cultura, nos relatos da criação do mundo que, por um lado, se esforçam para definir o papel subsidiário das fêmeas, mas, ao mesmo tempo, nos conferem uma capacidade de causar prejuízo muito acima de nossa posição secundária”, observa ela. Sobre o assunto, Rosa, que reflete como poucos sobre o ofício do escritor, respondeu por e-mail as seguintes perguntas. 

Seu livro foi lançado há 25 anos – quem mais sofreu mudanças desde então, homens ou mulheres?

Ambos mudaram igualmente. A desconstrução do sexismo muda as relações entre os sexos e os estereótipos sexuais, de modo que é impossível que o papel da mulher mude sem mudar o do homem. É por isso que sempre digo que o feminismo não é uma questão de mulher, mas de todos, e felizmente muitos homens já sabem disso. Na manifestação de 8 de março em Madri, que foi a maior manifestação feminista do mundo e da história, segundo dados oficiais da polícia, havia 370 mil pessoas, e acho que cerca de 40% eram homens.

As mulheres conquistaram mais direitos nos últimos anos, depois que antigos preconceitos perderam sua força?

Em geral, vêm ganhando mais direitos, é claro, mas principalmente em países industrializados e ocidentais. No mundo, ainda existem mulheres em situação de verdadeira escravidão, privadas de acesso à saúde e educação, submetidas a casamentos forçados ainda quando crianças, maltratadas, mutiladas genitalmente, veladas e silenciadas, presas, espancadas. Existe um inferno na Terra habitado por mulheres que foram privadas de todos os direitos.

Dentre as mulheres biografadas por você, é possível destacar a que mais sofreu com a falta de reconhecimento dos homens? E há alguma que, se assim podemos dizer, sofreu menos?

Hahaha, nãããão, impossível, isso não é comparável ou mensurável. E também são muitos os casos em que as mulheres conseguiram se destacar e ser reconhecidas apesar de tudo, com um enorme esforço e talento, mas o problema é que mais tarde, após a morte, foram apagadas da história, dos anais, da memória coletiva, e suas descobertas ou realizações foram frequentemente atribuídas mais tarde a maridos, pais, irmãos ou colegas. É algo que se repete constantemente ao longo da história e que continua a acontecer até certo ponto. O sucesso é muito mais fácil para os homens ainda hoje.

Em que ponto da história o feminismo levou a mulher a compreender seu valor?

Não há momento específico, não há revelação, é uma longa história de demandas absolutamente essenciais e óbvias. Por exemplo, no século 12, houve um movimento poderoso para reivindicar o papel das mulheres, embora mais tarde tenha sido suprimido. No século 15, a causa renasceu com grande força e com pioneiras feministas como a italiana Cristina de Pisano. O século 18 foi outro momento de avanço e pressão; o movimento sufragista do final do século 19 e início do 20 ajudou muito e assim por diante, até hoje. É uma luta antiga.

Certamente foi decisivo, mas qual foi a real importância do Prêmio Nobel deste ano, que destacou a importância das mulheres na ciência?

É simplesmente um passo no caminho para a normalização. O normal é que existam tantas mulheres quanto homens na ciência ou em qualquer área, e o normal será chegar em um momento em que isso não nos surpreenda nem um pouco.

Escrever é uma maneira mais fácil de aprender?

Escrever é um caminho de conhecimento, sem dúvida. Escrever é uma forma de pensar e você não escreve para ensinar nada, mas para aprender. Mas o fácil, certamente, não é imediato.

Você acredita que a atual onda de progressiva desconstrução do sexismo trará conquistas permanentes?

A história nos ensina que não há nada permanente no mundo, que as civilizações passam e caem, que as conquistas se perdem e o conhecimento é esquecido. Você deve estar sempre em guarda para defender os valores que lhe parecem justos. Mas é verdade que é mais difícil reprimir e estupidificar com preconceitos aquelas pessoas que souberam desenvolver mais seu pensamento e estão bem informadas.

Governos conservadores (como o de Donald Trump e Jair Bolsonaro) contribuem para a manutenção de conceitos discutíveis, como o aborto, por exemplo. Como atitudes que vão contra a história moderna tornam difícil para as mulheres conquistarem mais direitos?

Esses tipos de governo não são apenas machos, mas também abusivos em outras questões. Uma filósofa argelina me disse, há alguns anos, que a causa das mulheres é o barômetro mais preciso do nível democrático de um país, e ela estava absolutamente certa. Acredito que seja possível saber como é o desenvolvimento democrático de uma sociedade analisando a situação de suas mulheres. O sexismo é sempre acompanhado por outros abusos sociais.

Por outro lado, o fato de o Papa Francisco ter apoiado as uniões civis entre homossexuais significa que a Igreja também poderia mudar seu conceito em relação às mulheres?

Olha, eu acho ótimo que o Papa finalmente apoie os homossexuais (já estava na hora), mas acho que ainda falta muito para a Igreja perder seu viés machista. O preconceito contra as mulheres é muito mais profundo que o preconceito homofóbico.

NÓS, MULHERES

Autora: Rosa Montero

Tradução: Josely Vianna Baptista

Editora: Todavia (288 págs., R$ 64,90)

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