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Romance de estreia de autor sueco discute o pertencer

Stephan Mendel-Enk aborda a tradição que se esfarela mas pesa sobre os jovens em 'Três Macacos'

Flávio Izhaki, Especial para O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2014 | 19h30

Existe uma progressão quase natural dentro da imigração no século 20, segundo Eric Hobsbawn propõe em Tempos Fraturados. A primeira geração busca sobreviver no novo país agarrada às raízes. A segunda é a da coexistência de duas culturas, ainda dentro das malhas da congregação, mas já ensaiando ou colocando em prática uma ruptura. A terceira é quase totalmente adaptada, geralmente a contragosto das anteriores (ou parte delas). Quando pensamos em imigração judaica, essa fricção é elevada a uma potência maior: o iídiche raramente vaza de gerações, a comunidade poucas vezes é grande o suficiente para absorver todas as expectativas – colégios, casamentos, negócios – e o peso da tradição conflita com o mundo real berrando na cabeça dos jovens. É isso que Stephan Mendel-Enk explora em Três Macacos (Editora Record), romance de estreia do escritor sueco.

Pelos olhos de um menino de 13 anos que vive em Gotemburgo, que se encontra nessa terceira geração, prestes a fazer seu bar mitzvah, acompanhamos os conflitos descritos em narrativa fragmentada e não linear. Estão lá a questão do casamento entre judeu e não judeu (a mãe abandona o pai para casar com um goy), as dúvidas sobre como se portar em certas situações dentro do rito, a relação com os familiares e amigos (judeus ou apenas suecos). Uma geração briga e influencia a outra, amalgamando alianças quebradiças.

No romance de Mendel-Enk estamos em 1987, e os pais e avós falam de Israel, mas os filhos (e não secretamente os pais) sonham com os EUA. Os adolescentes estudam em colégios mistos, mas a tradição esmaga a cabeça das crianças – “Não posso enfatizar o suficiente a alegria que nos traz quando expressa seu desejo claro de construir um futuro judeu”, diz o avô ao neto Jacob que, com 13 anos, pensa em fazer a aliyah (volta a Israel) – e posteriormente desiste. Ao mesmo tempo, a tradição se esfarela - “Queria beijá-la, posso beijá-la? O que diz a Torá, Rafael?”, pergunta a mãe, no enterro da avó, para o irmão mais velho do menino, que foi efetivamente morar em Israel.

De certa forma, o que está em jogo no romance é pertencer. Enxergar no outro, nos outros, um semelhante para só então entender as diferenças. Como coloca Hannah Arendt, o ser humano só se reconhece como tal em contato com o outro, criando-se assim a necessidade de distinção; o ser humano expressa as diferenças e se torna singular. De certa forma, para pertencer é preciso em algum momento negar.

Mendel-Enk articula seu livro em capítulos breves, historietas importantes ou desimportantes, parece ele mesmo, o autor, incerto do que quer contar ou onde quer chegar, tateando pelas paredes de uma sala escura. Só parece. Para Jacob, o menino protagonista, o desenlace possível é o mundo. Os avós estão morrendo, a tradição se equilibrando quase num simulacro de (falta de) sentido e o pai fracassa ao lidar com a separação.

A literatura brasileira contemporânea também tem tratado o tema com interesse e, na comparação com o livro de Mendel-Enk, ganha no esmero da palavra e na enunciação com Michel Laub em Diário da Queda, e no humor escrachado de Jacques Fux em Antiterapias, para citar dois livros premiados. Mendel-Enk procura combinar os dois estilos e alcança bons platôs. No início, mesmo narrando um enterro e uma separação, o livro é leve, com boas pitadas de humor tão característico a prosa judaica. Mas à medida que o menino cresce, ruma para uma melancolia amarga que, embora com méritos reflexivos, casmurra para um trem que deixa Gotemburgo e a família (e por conseguinte a comunidade) para trás.

FLÁVIO IZHAKI É AUTOR DO ROMANCE AMANHÃ NÃO TEM NINGUÉM (ROCCO)

TRÊS MACACOS

Autor: Stephan Mendel-Enk

Editora: Record (160 págs., R$ 28)

Tradutor: Dina Lund

TRECHO:

“Tanto ela quanto meu avô falavam iídiche quando ficavam com raiva. Eu não gostava de iídiche. Havia alguma coisa constrangedora no idioma. A palavra para peido, por exemplo, é fortsch. Não entendia a ideia de ter uma palavra que soava tão repugnante quanto o fenômeno descrito. Fortsch.”

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