Romance de Estevão Azevedo traz faces de um Brasil desumanizado

Romance de Estevão Azevedo traz faces de um Brasil desumanizado

'Tempo de Espalhar Pedras' é o segundo livro do escritor no gênero, e sai agora pela Cosac Naify

José Luiz Passos , Especial para O Estado de S. Paulo

14 Novembro 2014 | 19h00

Estevão Azevedo estreou no romance em 2008, com Nunca o Nome do Menino, um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura daquele ano. Sua estreia impressiona pelo lirismo urbano, de forte traço metatextual: a narradora do livro se dá conta de que é uma personagem de ficção e tenta se afirmar contra o autor, cortando o dedo mínimo da mão esquerda. A isso, ela agrega a própria narrativa, centrada na história de um primeiro amor juvenil, o amor de um menino. É um romance de poucas personagens e grande introspecção, cujo foco se mantém no âmbito das ansiedades que a narradora sente em busca de maior expressão – pela via da memória – e autonomia no tempo presente, ironicamente como personagem de ficção.

Com Tempo de Espalhar Pedras, Estevão Azevedo deixa de lado a tônica dominante da narrativa pós-moderna – livros que simulam outros livros, personagens que dialogam com seu autor, o passado e o futuro como quimeras – e procura um estilo de composição mais clássico: “Pedra, palavras de pedra. E agora era como se lhe arranhassem os ouvidos cada vez que imaginava a fala do marido. Cascalho e diamante, cada uma com sua maneira particular de ferir. Vitória expulsava com a vassoura de palha alguns restos de lama antiga da cozinha para o quintal e mastigava o oco da própria boca, que trazia ainda o gosto de terra que nela se impregnara após a queda”. Já na linda abertura do livro, Vitória vaticina o futuro de uma comunidade de mineração nas terras do coronel Aureliano; todos comerão pó, menos o coronel. Ela é mãe de Ximena e esposa do velho Gomes, um garimpeiro respeitado no vilarejo. Estamos num lugar ermo, em tempo remoto. E os diamantes começam a rarear. O coronel Aureliano impõe maiores exigências e restrições aos que trabalham em suas terras. É nesse contexto de plena decadência do fausto mineiro, e de espoliação mais acentuada, que os garimpeiros vivem uma rotina de desconfiança entre si. Acabam escavando o chão das próprias casas. E sua disputa leva à dissolução de amizades e laços de família e classe.

Dessa lógica da suspeita irrestrita surge um dos personagens mais interessantes: Bezerra, um ganancioso, fanfarão e violento, com fama de mentiroso. Nos seus pequenos esquemas de mineração autônoma ele conta com a ajuda de Joca, filho preterido pelo velho Diogo. O fascínio de Joca por Bezerra leva-o a confundir amizade, amor e parceria, indiferente às sanções do coronel Aureliano, que logo dá destino a esses dois insubordinados. Até mesmo as questões de honra, entre os garimpeiros, precisam passar pela lei de seu facão. E o centro moral do romance, por assim dizer, está precisamente na disputa de honra entre os velhos Diogo – pai de Joca e Rodrigo – e Gomes, o marido de Vitória e pai de Ximena, a quem ele próprio abusa. Mas Rodrigo e Ximena, filhos da velha geração no garimpo, sentem uma atração irresistível um pelo outro. Alguns dos melhores momentos do romance estão nos mergulhos que o narrador, em terceira pessoa, nos franqueia dentro do reino canhestro da cupidez de Bezerra e dos desejos entre Rodrigo e Ximena. Infelizmente, para o jovem casal, o pai dela desfeita o pai dele; e Rodrigo se vê na situação de vingar a honra da família. Ximena, por sua vez, aciona o coronel Aureliano e outro velho garimpeiro, Sancho, buscando a vingança da vingança. Afinal, o próprio Rodrigo – seu namorado – havia estuprado a índia Botocuda, companheira do velho Sancho. O clímax do romance, então, é uma cena de duelo num momento em que o coronel Aureliano já não tem mais interesse no destino dessa terra esgotada, e os filhos do garimpo herdam a contenda entre os seus pais.

Tempo de Espalhar Pedras é narrado com uma segurança impressionante. Em certos momentos, nos traz de volta a verve da corrupção moral caraterística do nosso pré-modernismo. O uso ostensivo do mais-que-perfeito faz coro com um estilo robusto na narração dos planos consciente e inconsciente das personagens. Talvez aqui o leitor contemporâneo se sinta um pouco fora d’água. É um romance forte, mas sem heróis, e cujos protagonistas obedecem a certo automatismo telúrico. Isso dito, o potencial crítico me parece claro e muito bem articulado: “A terra era generosa naquilo que não condizia com o luxo, naquilo que poderia ser transformado em moedas, naquilo que quando muito poderia ser trocado por outro fruto desprezível da mesma terra. Assim os homens matavam suas fomes, mas não todas. Ninguém ostenta um fruto, por mais doce que seja. Quem o faz, por pouco tempo se apraz: não tarda passa do ponto, apodrece. O dinheiro não. Vive em nós até quando não o temos, pois o tilintar das moedas no balcão reverbera nas imaginações”. A imaginação do glorioso azar, que desentranharia a valiosa pedra, é o horizonte das aspirações representadas.

Mas nisso, em seu arcaísmo e nos atavismos dos personagens, o belo Tempo de Espalhar Pedras nos revela uma face incômoda do nosso Brasil de agora: a paisagem é consumida até virar pó, a indígena é desumanizada, a honra desfeita é motor ridículo da comunidade, o coro religioso de Silvério passa apaziguando os desejos, a mulher violada tem pouca ou nenhuma voz, o casal protagonista se consola em coito, no chão. Quem ler, verá um pouco de hoje, muito embora a matéria esteja ancorada em chave mítica, em tempo remoto, prometendo um futuro bem menos que perfeito, no qual buscamos novas pedras.

TEMPO DE ESPALHAR PEDRAS

Autor: Estevão Azevedo

Editora: Cosac Naify (288 págs., R$ 37)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.