Divulgação
Divulgação

Romance de André de Leones mostra sinais inquietantes sobre a experiência humana

'Abaixo do Paraíso', lançamento do autor goiano, é situado em um universo onde a ética parece ter sido banida

Moacir Amâncio, Especial para O Estado de S.Paulo

30 Julho 2016 | 05h00

Abaixo do Paraíso, de André de Leones, traz um escritor que conhece a carpintaria do romance. E uma das primeiras estratégias é não entregar o livro logo de cara – o contrário também pode funcionar, dependendo da perícia do autor –, com uma narrativa distanciada que acompanha os fatos cotidianos no que eles têm de imediatos, na sua “concretude”, como se acontecessem aos nossos olhos, ao nosso redor, sem explicações e, portanto, enigmáticos como a realidade cotidiana. O personagem central, Cristiano, reage sob impulsos diversos, cujas causas ele ignora e o que tem de ponderável são suas ações repentinas que oscilam entre o sexo, a violência e o debater das personagens.

Não há explicações convincentes. Nesse sentido, lembra O Estrangeiro, a novela seminal de Camus, sobre alguém que comete um crime sem motivo aparente e talvez sem motivo nenhum e aí está o problema. Qualquer explicação esbarrará em novas interrogações que, estas sim, lançarão sinais inquietantes sobre a experiência humana. Não é uma história solta no tempo e no espaço, mas bem plantada no centro do País, na órbita de Brasília, sonhada como uma janela para o futuro que funciona, porém, como um castelo medieval/kafkiano em relação ao qual só se pode viver na órbita, como os antigos vilões, aos quais é vedado aproximar-se, quanto mais ter acesso à fortaleza, dominada por alguém emblemático ao ponto da caricatura, e que se move de maneira soberana, incólume. É inatingível tanto pelos “vilões” que circulam nas periferias da capital e transfere um pouco dessa intocabilidade aos que o servem direta ou indiretamente, como Cristiano, embora tenha tido todas as chamadas boas condições para ter uma vida “correta”, de classe média alta: filho de pai fazendeiro, formado em direito, nega-se a encarar as opções óbvias, trocando-as pelos afazeres esporádicos de um mensageiro do submundo da política e da corrupção.

A narrativa é distanciada do ponto de vista emocional. Nada de panfletagem nem de equívocos político-literários cansativos, esgotados. O infinito espectro da ética parece banido. E tomem clichês de outros tipos, recurso usado habilmente pelo autor, como os “românticos”, em torno das relações entre as pessoas: família, amizades, compromissos de qualquer tipo, inclusive os sexuais – de tudo isso há apenas arremedos descartáveis no instante do diálogo, do ato profissional, do acaso íntimo chapado e sem o menor sentido, como tudo. Daí, entende-se o uso de lugares-comuns ideológicos e da linguagem, como o momento em que uma personagem feminina descreve o marido como alguém que confunde o ter e o ser, base da atmosfera dessa narrativa. Parafraseando Machado de Assis, a diluição é geral, envolve pessoas, coisas, instituições, tradições e outros mitos.

As reações espontâneas, explosivas ou pensadas, são o caminho para que se procure entender os fatos psicológicos e concretos das figuras masculinas e para isso concorre de modo decisivo o papel das personagens femininas, que se destacam e marcam o romance de fora a fora. Se o pai fazendeiro, o filho bacharel em direito e “inútil”, mais o agente da ralé política, após algum sonho estudantil, ganham linhas mais nítidas no confronto direto ou indireto com as mulheres da trama. Elas não são melhores do que ninguém. A tia de Cristiano resolve o remorso por ter talvez induzido o namorado ao suicídio, sem perceber, embora a coisa tenha ocorrido, de maneira cínica, transformando todo o caso em fumaça de cigarros consumidos compulsivamente. A mãe dele, viciada em livros de ficção lidos às pencas, numa espécie de “adeus mundo cruel”. O clichê da hoteleira que não resiste a um hóspede meio misterioso tem a função de assinalar o traço comum entre essas mulheres que “socorrem” Cristiano e alimentam a própria ilusão inconsistente com o juramento clássico: agora você não está mais sozinho nem estará. Algo assim, raso, apenas banal.

E é dessa maneira que surge aquela que se coloca como a grande personagem do romance, mesmo sendo coadjuvante: Simone, a irmã (meia-irmã...) com quem Cristiano passa a ter um caso escrachado. Não se trata de mais uma bonitinha, mas ordinária. A peculiar psicologia de liquidação do Nelson Rodrigues fica no tempo e no espaço. Simone recomenda ao irmão que não pire, o que ocorre entre eles não deve ser levado a sério, que fique por isso mesmo, apenas parte da vida como ela é. Simone é uma personagem tão forte que poderia ser a protagonista não só desse, mas de um romance na sequência, num ciclo em que cada volume dialogasse com os demais. A jovialidade do seu comportamento torna-a intrigante o suficiente para isso. Diante da segurança com que o autor desenvolve a história, o leitor pode ficar intrigado com a interferência de uma dica para guiá-lo – algo contrário à concepção do romance – ao dizer de passagem que aquele mundo não conta nem mesmo como um messias. Dispensável, porque a narrativa fala por si mesmo. Além disso, parece que o recado já estaria dado no título do livro, que define um mundo dividido entre a corte absurda e seu esgoto de sustentação.

ABAIXO DO PARAÍSO

Autor: André de Leones

Editora: Rocco

(256 págs.; R$ 29,50)

Moacir Amâncio é professor de literatura hebraica da USP, autor de 'Ata' (Record) e de 'Yona e o Andrógino – Notas sobre Literatura e Cabala” (Nankin/Edusp)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.