HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Romance autobiográfico de Joca Reiners Terron explora como foi crescer durante a ditadura militar

'Noite Dentro da Noite' é baseado num acontecimento real da vida do escritor, e parte para uma história do que poderia ter sido

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

25 Março 2017 | 05h00

O escritor Joca Reiners Terron lança na quarta-feira, 5 de abril, em São Paulo, o seu romance mais ambicioso até aqui: Noite Dentro da Noite – Uma Autobiografia, publicado pela Companhia das Letras. O livro é uma narrativa sinuosa que parte de um acontecimento real: na infância, Joca – e o personagem do livro, que tem na figura mítica de Curt Meyer-Clason uma espécie de narrador – sofreu um acidente, bateu a cabeça, e passou ser medicado com barbitúricos. Ele então escreve “‘uma’ biografia, que também poderia ser outra” – vários desvios na sua própria trajetória, que passa pela neve no interior do Paraná nos anos 1970, pelos confins do Mato Grosso do Sul e pela abertura democrática nos anos 1980 no Rio de Janeiro. “Todo livro é autobiográfico, mas são biografias editadas, distorcidas para se encaixarem na visão que temos de nós mesmos”, diz Terron. Ele respondeu a algumas questões em uma troca de e-mails com o Estado.

O que foi que te levou a “aquietar” um pouco os experimentos de linguagem do início da sua carreira em favor de estruturas temáticas mais complexas, como a de ‘Noite Dentro da Noite’?

O desejo de ser mais lido me levou a isso, além da própria escrita que foi exigindo maior espaço conforme o ato de escrever se tornava cotidiano. Outro fator é esse que você identificou, pois o aspecto estrutural das histórias me fascina. Em Noite... existe toda uma discussão centralizada na figura da rata e no narrador Curt Meyer-Clason acerca do tempo como matéria narrativa e da morte como território a ser explorado e ocupado. Também tem toda uma discussão meio gozada de que a literatura espírita é a única literatura possível numa região marcada pelo genocídio como a América do Sul.

Você tascou na folha de rosto o subtítulo “uma autobiografia”. Em que medida esse livro é mais – ou menos – autobiográfico do que todos os outros?

Esta é uma autobiografia na qual seu autor, em vez de se revelar, preferiu se ocultar. O subtítulo não tem nada de irônico, pois o romance parte de acidente real ocorrido em minha infância. A partir desse episódio se inicia “uma” autobiografia, que também poderia ser outra. Tem a ver com aquela sensação que às vezes temos de que nossa vida perdeu o eixo, e poderia ter tomado outros rumos não fossem certas decisões ou incidentes. Atualmente o gênero biográfico é uma extensão do romance naturalista do século XIX, onde vidas têm começo, meio e fim. Ao contrário, o autobiográfico é pura ficção não-realista pois busca a verdade pelo caminho da auto-invenção.

‘Noite’ é uma releitura de todos os seus livros anteriores? Certamente há temas que já apareceram – memória, ditadura, suspense (sobrenatural), não é?

Alguns temas me perseguem, não tenho escolha. Escrever a respeito da infância passada num país sob regime militar, por exemplo, é algo que diz respeito somente à minha geração.

Esse é seu romance mais ambicioso. O que você tem buscado na literatura?

Nunca escrevi sem ambição. O problema da ambição é que ela tem o mau hábito de crescer na medida em que a gente envelhece. Não costumo respeitar escritores que não sejam ambiciosos, pois ambição, ao menos em literatura, equivale a esperança. Procuro escrever algo que seja digno de nota e dos leitores, mas infelizmente estou limitado ao que posso fazer.

E o que você percebe que seus pares – não só os mais próximos – estão buscando com as letras?

Devem procurar algo semelhante a mim, cada um lutando com suas próprias ambições e limitações. Boa parte da literatura brasileira, porém, está aprisionada ao realismo, essa alucinação que se interpõe entre nós e a realidade, como dizia Macedonio Fernández, e continuam a escrever panfletos políticos, ensaios, reportagens e autopropagandas disfarçadas de ficção.

No ensaio ‘O Ódio à Poesia’ (na ‘serrote’), Ben Lerner fala, basicamente, que a poesia não existe sem a aversão que ela causa. Tomando num sentido mais amplo (poesia = ficção), você se preocupa sobre a aversão que um livro seu possa vir a causar?

Escrevi meus primeiros livros com a intenção deliberada de ofender o público. Minha sensibilidade (não sei se esta é a palavra adequada) foi formada pelo punk rock, então eu não podia agir diferente. A presença da violência e da escatologia nessas histórias serve para que o leitor fique com olhos bem abertos. É um risco que corro se ele decidir olhar para outro lado, mas se não gostasse de riscos eu teria escolhido uma profissão menos perigosa. 

NOITE DENTRO DA NOITE

Autor: Joca Reiners Terron

Editora: Companhia das Letras (464 p., R$64,90, R$39 e-book)

Lançamento: Quarta, 5/4. 19h30, na Tapera Taperá (Galeria Metrópole, São Paulo)

Curt Meyer-Clason e a arte de traduzir o cerne do Brasil

A imagem abaixo parece um álbum de família, mas é na verdade uma parte da “ficha” do alemão Curt Meyer-Clason (1910-2012) produzida pela ditadura do Estado Novo brasileiro na década de 1940. Sob tortura, ele confessou ser espião do Terceiro Reich (fato que negou diversas vezes) e ficou preso por cinco anos no presídio da Ilha Grande, no Rio. Lá, começou a se dedicar à literatura e à leitura de romances. Virou humanista e por fim se tornou um dos mais importantes tradutores literários da Alemanha na segunda metade do século 20: García Márquez, Borges, Drummond, Mário de Andrade, Ferreira Gullar e especialmente Guimarães Rosa e o ‘Grande Sertão’ apareceram primeiro na língua de Rilke através da sua pena.

Ele ainda foi presidente do Instituto Goethe em Lisboa nos anos 1970, antes de fixar moradia em Munique e manter seu diálogo com a intelectualidade iberoamericana. Agora, ele ocupa posição central no romance de Joca Reiners Terron, aparecendo como um narrador da vida do personagem principal. “Me fascinam essas vidas dentro de outras vidas, como se duas diferentes pessoas ocupassem o espaço de uma só vida, ou se vivessem duas vidas em um só corpo. Me sinto um pouco igual, assim como todos os personagens do livro, e Curt Meyer-Clason é porta-voz dessas identidades fraturadas”, diz o escritor.

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