PAULO GIANDALIA|ESTADÃO
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Romance ajusta épico de Milton às metáforas da modernidade laica

Em ‘Anatomia do Paraíso’, Beatriz Bracher fala da opressão do gênero, ampliando a dimensão sexual de um poema barroco em sua essência

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2015 | 22h59

Um poema épico que já começa recontando a história do Gênesis com Satã em primeiro plano poderia ser apenas uma stravaganza barroca e sacrílega, não estivesse Milton determinado a provar que Lúcifer, o anjo caído, ao fazer sexo com a própria filha, Pecado, acabou gerando um filho que violenta a mãe, apropriadamente nomeado Morte. Fazer um aggiornamento de O Paraíso Perdido numa época em que a questão de gênero rompe a fronteira entre os sexos parece, portanto, uma tarefa tão hercúlea como a dos anjos e demônios que carregam suas gigantescas carcaças no poema de Milton. A premiada escritora Beatriz Bracher resolveu encarar o desafio no romance Anatomia do Paraíso. E fez como seu protagonista, o estudante de literatura Félix, que, ao preparar sua dissertação de mestrado sobre a obra do autor inglês, acabou seduzido e incorporado ao livro – a própria história da humanidade.

Em primeiro lugar, era grande o risco de produzir uma tese paródica sobre um épico em que o narrador é o onisciente e não faz parte dessa história. Ao contrário de Milton, que identificava na queda de Adão e Eva a grande tragédia da humanidade, por trazer a morte ao mundo, Beatriz é uma mulher moderna. Tem em relação ao fim uma posição mais próxima à (des)crença de Beckett e dos existencialistas. Não que Milton, protestante, fosse o antípoda beckettiano. O fim de O Paraíso Perdido é um dos mais deprimentes da história da literatura: tudo dá errado por causa de Satã e a humanidade perde a chance de viver no melhor dos mundos possíveis.

Considerando que Milton, cego, ditou o poema em voz alta, é de se supor que o horror ecoou até encontrar um interlocutor contemporâneo para sua história de lascívia e monstros. Dos confins do inferno a um quitinete em Copacabana, seu livro cruza o Atlântico como um raio. Félix, o mencionado estudante mineiro de literatura, divaga sobre o poema no início do outono, quando todos os seres se preparam para a queda, refletindo sobre a ambiguidade de Milton: serão os erros da tradução portuguesa que o impedem de decifrar o épico ou a identificação com Lúcifer, expurgado da comunhão celeste?

A dúvida persiste na área externa do conjugado. No quitinete ao lado mora Vanda, que não tem o tempo e dinheiro de Félix, filho pródigo da classe média, para revisitar o inferno de Milton. Ela já vive nele, trabalhando com autópsias e dando aulas de ginástica num hotel da zona sul carioca. Para piorar, está grávida e cuida da irmã mais nova. Em quatro estações mudam as vidas de Félix, de Vanda, da adolescente Maria Joana e do tenente Nildo, amante do protagonista, mas não o cenário, que é o mesmo desde o prólogo do poema épico de Milton: Lúcifer acordando num lago do inferno logo após sua queda. Troque-se as ilustrações de Gustave Doré pela visão da favela de Pavão-Pavãozinho, ao lado de Copacabana, e nada mudará. O inferno, como disse Mefistófeles ao doutor Fausto de Marlowe, é aqui mesmo.

A narrativa de Beatriz Bracher usa a metáfora com parcimônia, a exemplo de uma escritora que marcou sua formação literária, a norte-americana Flannery O’Connor, que, sendo católica, desafiava seus irmãos de fé com histórias de sangue e violência. Seus personagens evoluem do trauma para a epifania. Assim também acontece com Félix, que faz de seu corpo um laboratório sexual – ele transa, indistintamente, com mulheres e homens, faxineiras ou militares. Mas não é Satã. Muito menos seus parceiros.

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