David Gannon/AFP
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'Rodham': E se Hillary não se casasse com Bill?

Novo livro sobre a ex-primeira-dama sugere uma vida paralela entre o casal presidencial, impactado por escândalo sexual

Dwight Garner, NYT

15 de maio de 2020 | 05h00

Prep, de Curtis Sittenfeld, publicado em 2005, está entre os romances sobre amadurecimento mais inteligentes escritos até agora, neste século. Acho que seu título e capa poderiam ser diferentes, em lugar da imagem de um cinto de gorgorão verde e rosa. Ofereço o livro para os jovens e eles olham um tanto apavorados como se eu lhes oferecesse uma camisa polo rosa e dissesse para usá-la com a gola levantada. 

Títulos e nomes são importantes. Existe um truísmo em política segundo o qual se você conseguir que seus eleitores o chamem pelo seu primeiro nome ou por um apelido afetuoso, suas perspectivas de vitória são boas. O que não foi o caso de Hillary Clinton em 2016. O título do novo romance de Sittenfeld sobre sua vida usa o seu sobrenome de solteira, mais resoluto e mais abrupto, Rodham (Random House, ainda sem tradução no Brasil).



Rodham vai contra os fatos, quando indaga: e se quase tudo na vida de Rodham fosse igual, mas depois de cursar a faculdade de Direito em Yale, ela tivesse rejeitado a proposta de casamento feita por Bill Clinton? Este romance também propõe, no seu universo alternativo, que a carreira política de Bill Clinton sai dos trilhos por conta dos seus escândalos sexuais.

Este romance tem por base a eleição de 2016, em que Rodham enfrenta vários concorrentes, com Donald Trump e seus violentos ataques. É a segunda vez que Sittenfeld entra na mente de uma esposa política notória. Em American Wife (2008), ele narra a história de uma mulher que se assemelhava a Laura Bush. As frases mais retumbantes desse livro eram endereçadas aos eleitores: “Tudo o que fiz foi me casar com ele. Vocês são os únicos que deram a ele o poder”.

Fazendo uma resenha de American Wife no The New York Times Book Review, Joyce Carol Oates escreveu que o retrato da personagem de Laura Bush feito por Sittenfeld era mais para Norman Rockwell do que Francis Bacon. O que vale no caso de Rodham. O romance é inteligente e respeitoso, e bem feito também, mas insosso.

Ela começa o livro com um discurso de Rodham em 1969, em Wellesley, momento que definiu uma geração e foi comentado na Life Magazine. Bill Clinton lembra esse artigo, neste romance, quando encontra Rodham em Yale. Ele é brilhante e fascinante, parece um leão. (No livro de memórias de Hillary Rodham Clinton, Living History, ela diz que ele parecia um viking). Ele se apaixona por ela e ela não consegue acreditar. “Seu sorriso”, ela diz nesse romance, “pode ter arruinado minha vida”. Ele tem mãos fascinantes. Estar com ele é alucinante, como andar por trás de uma cachoeira.

Ela é uma espécie de “tomboy” intelectual, uma jovem que, acreditava, não devia desejar um homem como ele. Em Wellesley, depois de um encontro que não deu nada, uma amiga disse a ela: “Você precisa flertar mais”. Rodham responde, em tom de súplica, “dei a ele uma biografia de Reinhold Niebuhr”. Sua amiga replica: “Este é o problema”. E ela é aconselhada a usar vestidos com decotes mais ousados.

O romance de Clinton e Rodham é o ponto alto do livro (ele toca saxofone nu para ela). Eles ficam juntos durante sete anos, nas duas Costas e em Arkansas. Um dia, ela o flagra beijando uma jovem em Berkeley e eles brigam. Ele diz que não é nada, que seu amor é somente por ela, mas tem compulsão por conquistar outras mulheres. 

Bill Clinton é quase demoníaco em Rodham. Num determinado ponto, ele diz a Hillary: “Você é uma cadela presunçosa, que afasta as pessoas porque acha que é mais inteligente do que todo mundo. Naturalmente, não vai ter dificuldade em ser leal quando não tiver outras opções”. E eles se separam. O retrato de Clinton como predador sexual nesse romance é sombrio. No final, ele está no Vale do Silício, onde pensa em retornar à política.

O romance contempla um período de 16 anos, até 1991. Rodham está então com 43 anos e vive sozinha em Chicago, onde é professora de Direito na Northwestern. É uma pessoa progressista, ardente, conectada. Quando vê uma chance de se candidatar ao Senado, em 1992, concorre e sai vitoriosa, embora isso signifique perder uma amiga negra, ao derrotar Carol Moseley Braun.

Uma das coisas comoventes e impressionantes no próprio livro de memórias de Rodham é o enorme número de amigos que ela fez e manteve. Este romance resume esses muitos amigos a alguns poucos.

O melhor da leitura de Rodham nesse momento que vemos a resposta do nosso governo ao coronavírus é que o livro nos permite fazer algo que alguns já vinham fazendo, ou seja, lembrarmos da competência e da empatia de Hillary e sentir muito a sua falta.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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