Escritor norte-americano Richard Ford. FOTO DIVULGAÇÃO
Escritor norte-americano Richard Ford. FOTO DIVULGAÇÃO

Richard Ford faz do novo romance ‘Canadá’ um inventário da desagregação

Pulitzer de literatura, o escritor americano brilha no novo livro; leia entrevista exclusiva ao 'Caderno 2'

Entrevista com

Richard Ford

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 05h00

Quando o escritor norte-americano Richard Ford publicou seu primeiro livro, aos 32 anos, em 1976, os críticos saudaram o autor como um novo William Faulkner – o que não era exagero. Tanto que ele viria a ganhar o Pulitzer, a exemplo de Faulkner. A história de dois vadios que se cruzam numa ilhota do Mississippi, em A Piece of My Heart, sugeria mesmo o idílio de seres errantes que circulam pelo Sul profundo de Faulkner, como o Ben Quick do filme O Mercador de Almas, interpretado por Paul Newman e baseado em duas histórias do seu livro The Hamlet (1940). Pois Ford está de volta à estrada em Canadá, uma road story sobre dois gêmeos, um garoto e sua irmã, separados quando os pais decidem assaltar um banco.

Canadá é um dos melhores romances de Ford, conhecido no Brasil, onde foram lançados O Cronista Esportivo, Vida Selvagem, O Sal da Terra e Independência. Em entrevista exclusiva ao Caderno 2, por telefone, de Montana, Ford reconhece traços biográficos no personagem mais comovente do livro, o adolescente Dell Parsons, levado ilegalmente ao Canadá logo após a tragédia que se abateu sobre ele e a irmã. Ambientada nos anos 1960, a história dessa família disfuncional, encabeçada por um ex-piloto da Força Aérea e uma professora, é quase a de Bonnie e Clyde com filhos, pessoas comuns transformadas em criminosas. Sobre eles, Ford fala a seguir. 

Seu primeiro livro, A Piece of My Heart, era ambientado no sul dos EUA. Com Canadá o senhor caminha para o Norte. Essa é um a maneira de se distanciar do seu país para refletir sobre ele ou para se manter distante da literatura de Faulkner, com quem é comparado?

Provavelmente as duas coisas. Não tenho muito a dizer sobre o Sul além do que já foi escrito por Faulkner ou Flannery O’Connor, com quem, aliás, tenho em comum o senso de humor, ainda que ela seja passional e Canadá não tenha nada engraçado. De qualquer modo, Flannery O’Connor era católica, enquanto sou ateu. A literatura, para mim, substitui perfeitamente a religião. E, depois, não considero Canadá um livro pessimista como os de O’Connor. Ele é redentor. Mostra que, com habilidade, pode-se viver sem lamentar muito o que passou. Mas, para responder à primeira parte da pergunta, deixei o Sul para falar de outras regiões dos EUA. Quero me dirigir ao país todo.

Os protagonistas de Canadá são um pouco como o senhor? Pergunto isso porque, em seus livros anteriores, particularmente aqueles que têm Frank Bascombe como protagonista, há referências, ainda que oblíquas, a seu passado. Neste, por exemplo, o garoto, que sente falta do pai, também vai parar num hotel – e o senhor, quando adolescente, era com frequência largado num deles enquanto seu pai, caixeiro-viajante, estava fora.

A proximidade é casual, embora não negue a semelhança. Entendo o que é ser deixado para trás, mas essa não é a pior coisa que pode acontecer a um ser humano. Não diria que se trata de resgatar algo que ficou no passado, pois perdi meu pai aos 16 anos, ou seja, há mais de meio século, e já não me lembro bem dele. Ambientei a história nos anos 1960 simplesmente porque foi uma época de transição, de mudança na concepção do núcleo familiar. E, depois, nunca me passou pela cabeça ter um filho. Não tenho interesse por crianças, embora goste delas.

Sendo do Sul, o senhor viveu numa sociedade racista. Ela ainda é racista?

Não vejo dessa maneira, a despeito do alarde midiático sobre casos de discriminação e preconceito. O racismo não está crescendo nos EUA, acredite, principalmente depois de Obama. Ele está desde 2009 no poder e foi reeleito em 2012. Não é um período curto.

Os personagens de seus livros têm nomes fortes, que ficam na lembrança do leitor e forçam uma ligação simbólica com aquilo que evocam. O senhor cria esses nomes por capricho?

Não. Crio nomes – e demoro meses elaborando listas deles – que têm a ver com o som, que possam ser facilmente memorizados pelo leitor, e não por causa de sua bizarrice. Não pretendo que eles encerrem certo simbolismo, mas, como as pessoas gostam de fazer associações, então é natural que eles sejam subordinados a essa dimensão. Frank Bascombe, por exemplo, nasceu como Frank Slocum, mas fui desaconselhado por amigos a manter esse sobrenome.

As pessoas se deslocam um bocado em Canadá, não só porque são impelidas a buscar uma nova vida em outro lugar, mas porque precisam criar uma nova identidade para sobreviver. Esse parece ser um problema muito comum entre os americanos. Ou seria uma mania, a mania do pé na estrada?

Não diria que é uma mania. Talvez seja uma palavra forte demais. Por vezes, essa mudança tem a ver com falta de oportunidade no lugar de origem, ou seja, é um problema social, não subjetivo. Faz parte da história americana, desde a conquista do Oeste. No caso de Canadá, é o crime familiar que desencadeia esse deslocamento.

Acontecem muitas coisas em Canadá e essas mudanças contínuas de cenário renderiam um bom filme. Hollywood já o procurou para adaptar o livro?

Já, mas os produtores não querem pagar aquilo que eu considero razoável para vender os direitos. Não que eu ligue muito para dinheiro, mas depende das pessoas envolvidas no projeto. Eu, por exemplo, escrevi, em 1990, um roteiro para Michael Fields por causa de Sam Shepard, embora o resultado de Estranhos Encontros (Bright Angel), baseado em histórias da coletânea Rock Springs, não tenha sido bom. 

O senhor diz que é ateu. Não acredita em destino?

Não creio que a vida seja guiada por Deus, mas pelo caos, pelo acaso. Sou ateu e muito feliz. Não é o destino. É o oposto disso. Há evidências demais para acreditar que tenhamos a vida traçada. Para mim, o inferno é apenas um sonho ruim, um pesadelo.

Em seu livro mais recente, Let Me Be Frank With You!, o senhor retoma pela quarta vez seu personagem Frank Bascombe. Não teme ser comparado a John Updike e seu Coelho?

John Updike é maravilhoso, mas ele sempre escreve na terceira pessoa. Eu escrevo na primeira. Foi antes um desafio voltar a Bascombe – pela última vez, espero.

O senhor recorre a uma frase de Ruskin no epílogo de Canadá: “A composição é a conciliação de coisas díspares”. Decorre daí uma suspeita que o senhor considere a vida sempre assimétrica, não importe o esforço que façamos para torná-la simétrica. É isso?

Sempre fazemos o que Ruskin diz, seja esculpindo, pintando uma tela ou simplesmente tentando nos manter em pé. Eu, por exemplo, sou disléxico, leio devagar, mas, se conseguisse fazer isso mais rapidamente, não absorveria todas as qualidades poéticas da leitura. Fazer arranjos é um ato de sobrevivência.

CANADÁ

Autor: Richard Ford

Tradução: Mauro Pinheiro

Editora: Estação Liberdade (456 págs., R$ 59)

Nas livrarias a partir do dia 30 de julho

Filme com roteiro do autor é viagem de descobrimento

Ele tem o mesmo nome do roteirista de Argo, Os Descendentes e O Jogo da Imitação, mas só fez o roteiro de um único filme, Estranhos Encontros (Bright Angel, 1990), do qual não sente muito orgulho. Até nisso Richard Ford se parece com o escritor com quem é frequentemente comparado, William Faulkner, que tampouco se deu bem como roteirista em Hollywood.

O filme para o qual Ford fez o roteiro, Estranhos Encontros, é um road movie sobre a viagem de um garoto inocente e uma garota nem tanto. Ela parte em busca do irmão, preso. Ambos viajam de carro de Montana a Wyoming apenas para que o jovem perturbado descubra em sua viagem de autoconhecimento que existem pessoas mais neuróticas que papai e mamãe. / A.G.F.

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