Repressão, guerra e privacidade estão em debate no dia mais politizado da Flip

Mesas com Bernardo Kucinski, Etgar Keret e Charles Ferguson devem, finalmente, levar as polêmicas ao palco da Festa em Paraty

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 02h00

PARATY - Quando Etgar Keret aceitou o convite para participar da Festa Literária Internacional de Paraty, achou que seria a chance de falar sobre seus livros De Repente, Uma Batida na Porta (Rocco), de contos, e Filhote de Gato-Gente (SM), infantil, que estão sendo lançados agora. “Claro que preferia falar sobre minha ficção, mas quando se vem de uma região com conflitos tão fortes, as pessoas querem saber sobre isso, e está certo. Vou estranhar se não me perguntarem nada sobre os recentes conflitos”, comenta o israelense, que participa neste sábado, 2, da mesa A Verdadeira História do Paraíso, ao lado do mexicano Juan Villoro. 

Além da situação em Gaza, assuntos como espionagem, privacidade, repressão e resistência estarão em debate neste que é o dia mais politizado da Flip – até agora, esta edição não viu nenhuma polêmica ou debate acalorado em seu palco.

A programação do dia será aberta por Charles Ferguson, autor do documentário Trabalho Interno, sobre a crise econômica de 2008, e pelo jornalista Glenn Greenwald, que ficou famoso ao revelar os esquemas de espionagem da Agência Nacional de Espionagem dos Estados Unidos descobertos por Edward Snowden. Os bastidores desse trabalho estão em Sem Lugar Para se Esconder (Sextante), que será adaptado para o cinema. A caminho de Paraty, ele disse na sexta-feira, 1º, ao Estado que pretende cobrar uma atitude do País. “Ainda há um debate sobre se o governo brasileiro deve conceder asilo para Snowden e pretendo falar sobre isso porque acho que os países mais beneficiados com os documentos têm uma obrigação maior de conceder asilo a ele. E isso serviria para a Alemanha e também para o Brasil”. 

Ele adiantou que vai falar, ainda, sobre “o relacionamento entre os jornalistas e os poderosos e o que eles devem fazer com os segredos que descobrem”. Curiosamente o assunto é tema da mesa que encerra o dia: Narradores do poder, com David Carr e Graciela Mochkofsky.

Depois da espionagem, a ditadura. Bernardo Kucinski, Marcelo Rubens Paiva e Persio Arida participam da mesa Memórias do Cárcere: 50 anos do golpe. “Levem os lencinhos de papel; vai ser puro emocional”, sugere o escritor Marcelo Rubens Paiva, autor de Feliz Ano Velho, entre outros, e cronista do Caderno 2

Ele era criança quando o pai, o deputado Rubens Paiva, foi morto, em 1971, e acredita que ainda não esgotou o que tinha a dizer sobre esse período em sua literatura. “Tenho ainda tanta história. Eu me culpo um pouco por não ter me dedicado somente a isso. Acho que fui para o lado ficcional como uma defesa, para fugir da tristeza que isso tudo me gerava”, conta. Com a distância de 50 anos do golpe e 40 do desaparecimento do pai, ele considera voltar ao assunto em livro biográfico.

O escritor sabe que a conversa também abordará o trabalho da Comissão da Verdade, da qual não é muito entusiasta, embora acredite no seu papel histórico, e do Ministério Público, de quem espera justiça.

Para Bernardo Kucinski, 76 anos, professor aposentado da USP e escritor recente, a questão dos desaparecidos políticos e do julgamento e punição dos envolvidos não terá conclusão. “Faltam duas coisas a serem resolvidas: a localização dos corpos dos desaparecidos e a punição dos culpados. Por isso, este é um assunto que nunca vai se encerrar.” Ele completa: “Precisamos de uma política pública de educação para as novas gerações sobre o que é a violência e a ditadura. Algo que ajude a modificar o que é a polícia paulista, por exemplo. Não podemos mais conviver com uma polícia desse tipo.” Ele comentou o caso de indigentes que são enterrados sem que as famílias sejam avisadas – no caso dos que tinham documentos – e que essas mortes também não são informadas às delegacias de desaparecidos. “Não existem os direitos mais elementares”, diz, em Paraty.

Kucinski é irmão de Ana Rosa Kucinski e autor de K., lançado pela Expressão Popular e, depois, pela Cosac Naify, livro que relata a busca de um pai por sua filha desaparecida durante a repressão militar. Apesar de autobiográfico, o livro foi sua estreia na ficção e lhe rendeu menção honrosa no Prêmio Portugal Telecom. “Costumo dizer que K. foi um livro psicografado porque saiu com muita facilidade. Mas depois, com os debates, as entrevistas e o depoimento do (Claudio) Guerra, que era diretamente sobre a história da minha irmã, remexi em tudo, me incomodei.”

Este livro não foi o primeiro que escreveu. Kucinski começou com o policial Alice, que a Rocco lança agora. “Escrevi essa novela e vi que pegava jeito. Depois, entrei num processo de rememoração e escrevi uns contos sobre o meu pai. Acho que aí começou a ideia do K.”, conta. Entre este romance e a novela, ele publicou Você Vai Voltar Para Mim, feito de forma mais racional, para traçar um panorama do período. 

Israel. Após o debate sobre os 50 anos do golpe, e antes da mesa sobre a questão indígena e da Amazônia, com Beto Ricardo e Eduardo Viveiros de Castro, o israelense Etgar Keret sobe ao palco para seu debate com Villoro e deve ser questionado sobre a situação de seu povo e dos palestinos. Ele resume o processo, que classifica como circular: “Eles sequestram alguém, eles matam alguém, nós fazemos algo, eles disparam mísseis, nós fazemos isso e aquilo. No fim, há uma contagem de corpos e cada um dos lados enterra os seus mortos.” Para ele, não há negociação com o Hamas. “Mas podemos negociar com moderadores palestinos e talvez eles não possam impor um acordo, porém, devemos tentar com a mesma coragem e determinação com a qual vamos à guerra”, diz o escritor, que serviu no exército israelense – mas ficou no escritório por causa de um diagnóstico de asma – e foi reservista durante 20 anos.

Com seu filho, hoje com oito anos – o que quer dizer que em 10 ele terá de se alistar –, Keret aprendeu como paz é uma palavra perigosa. Numa atividade escolar, ouviu crianças cantando uma música em que pediam para que Deus levasse a paz. “Acho que é assim que vemos a paz: um presente de Deus. Mas trabalhamos duro para conseguir as coisas que queremos, não pedimos a ninguém. Ignoramos que a guerra seja feita pelo homem. Não vamos ganhar a paz como um presente, vamos ter, todos, de abrir mão de alguma”, comenta.

Sobre como a literatura poderia ajudar, ele diz: “Nunca vi um livro que parasse uma bala. Literatura é como um suspiro. Se alguém conseguir ouvir, pode encontrar algo que mude seu coração. Mas ele tem que querer ouvir. Se ele está gritando e resistindo, se está com medo ou sentindo ódio, não adianta.”

Programação do dia

Sábado, 2 de agosto

10 h

Liberdade, Liberdade

Charles Ferguson e Glenn Greenwald

12 h

Memórias do Cárcere: 

50 anos do Golpe

Bernardo Kucinski, Marcelo Rubens Paiva e Pérsio Arida

15 h

A Verdadeira História do Paraíso

Etgar Keret e Juan Villoro

17h15

Tristes Trópicos

Beto Ricardo e Eduardo Viveiros de Castro

19h30

Encontro com Jhumpa Lahiri

21h30

Narradores do Poder

David Carr e Graciela Mochkofsky

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