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Relançada, revista ‘Evergreen’ prova ser mesmo perene

Lançada nos anos 50, revista norte-americana experimenta ressurreição digital com seis edições temáticas por ano

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

26 Março 2017 | 04h00

Como reagiríamos à notícia de que um mecenas brasileiro estaria disposto a relançar a revista Senhor ou a Realidade? Com euforia, ceticismo ou indiferença? Há quase dois anos, ao anunciar uma ressurreição digital da revista Evergreen Review, o temido crítico literário Dale Peck gastou um bocado de tempo e saliva para dirimir duas generalizadas suspeitas: não estava cometendo uma extravagância, nem um anacronismo. A ver.

Mecenas de si próprio, Peck vendeu parte de suas ações do Facebook para investir no projeto. “Sorte minha ser multibilionário e não depender de recursos alheios”, gabou-se numa entrevista ao jornal austríaco Wiener Zeitung. Se não estava pilheriando, Peck é o primeiro crítico podre de rico do mundo das letras. Não obstante, associou-se ao editor John Oakes, da OR Books, para viabilizar a nova Evergren Review

Quem a procurar na internet há que tomar cuidado para não ser desviado para o site da Evergreen Magazine, publicação ecológica dedicada a florestas bastante popular na América, talvez a única Evergreen conhecida das novas gerações, ao menos de vista e referência. 

Originalmente lançada em 1957 pelo legendário editor nova-iorquino Barney Rosset (1922-2012), Evergreen Review desafiou o status quo literário, social e sexual durante 16 anos e 96 números. Por julgá-la uma “necessidade editorial” permanente (evergreen quer dizer perene, em inglês), Rosset ressuscitou-a online 25 anos depois, sem o resultado agora tido como líquido e certo por Peck, até porque recursos para sustentar uma modesta performance não lhe faltam. 

“Com 25.000 ou 2.500 leitores”, confessou o sucessor de Rosset, “ficaremos felizes do mesmo jeito. O que importa é ficarmos satisfeitos com a qualidade do material publicado.” Embora reconheça a imensa concorrência online, Peck tem sempre na manga um argumento incontestável: “A banca da internet não tem limite de espaço.” 

Em seu apogeu, a Evergreen original vendia 100.000 exemplares em bancas e livrarias e outros 40.000 por assinatura, números expressivos para uma publicação (a princípio trimestral, depois mensal) inteiramente voltada para temas e polêmicas culturais e políticas. Seu punch vanguardista serviu de incentivo e bússola para dois arautos da contracultura dos anos 1960, Ramparts (1962-1975) e Rolling Stone, esta “perene” desde 1967.

Das leituras mais esperadas e estimulantes da época—dividindo o frisson do leitorado high brow com as já existentes Esquire, Paris Review e Partisan Review—a abusada revista de Rosset mostrou a que viera desde o primeiro número. 

Não é para qualquer publicação debutante trazer na mesma edição uma entrevista exclusiva com Jean-Paul Sartre, outra com o maior baterista de jazz da era pré-big bands, Baby Dodds, e um conto de Samuel Beckett, Dante e a Lagosta. O segundo número foi um cartão de visitas da Beat Generation e seus agregados nos arredores de São Francisco. Lawrence Ferlinghetti, Allen Ginsberg, Gary Snyder e Jack Kerouac (prestes a publicar Pé na Estrada) dominavam a edição e se tornariam habitués da revista.

Uma parcela considerável de americanos tomou conhecimento de Jorge Luís Borges, Jean Genet, Céline, Marguerite Duras, Günter Grass, Charles Bukowski, Kenzaburo Oe, Octavio Paz, William Burroughs, Harold Pinter, Tom Stoppard, Derek Walcott através das páginas da Evergreen, onde também circularam, às vezes numa única edição, Frank O’Hara, Henry Miller, Norman Mailer, Susan Sontag, Vladimir Nabokov, Pablo Neruda. Quebrando a rigidez dos textos, algumas fotos eróticas, em estilo vitoriano, e as ilustrações de um formidável trio de artistas gráficos formado por Tomi Ungerer, Bernard Kliban e Frank Springer.

Foi na Evergreen que muita gente descobriu esse subgênero hoje tão banal chamado romance gráfico (as aventuras de Phoebe Zeit-Geist), leu o texto da primeira peça de Edward Albee (The Zoo Story) e as reflexões de Camus sobre a guilhotina e, por extensão, a pena capital, justamente na época em que a América se dividia sobre a condenação de Caryl Chessman à câmara de gás, no presídio de San Quentin. 

Sem Rosset, a revista nem sequer teria existido nos moldes em que foi concebida. Ele conhecia toda a intelectualidade europeia, frequentava as mesmas rodas e os mesmos bares parisienses de George Plimpton, a quem ajudou, por uns tempos, a administrar a Paris Review

Inconformista e audacioso, quebrar regras e desafiar convenções foram as virtudes que mais engrandeceram sua biografia e mais aporrinhações lhe deram. À frente da editora Grove Press, a mais cool do seu tempo, bancou Beckett e brigou nos tribunais para liberar D.H. Lawrence (O Amante de Lady Chatterly) e Henry Miller (Trópico de Câncer) da censura. Com sua tenacidade, levou a melhor em todos esses desafios. Seu único passo em falso foi desdobrar a Grove Press em distribuidora de filmes eróticos suecos no mercado americano, em plena aurora do cinema pornô hardcore.

A nova Evergreen digital terá seis edições temáticas por ano, com material extra sobre questões abordadas em blogs, comentários sobre teatro experimental em Nova York, podcasts com entrevistas, mesas redondas sobre os assuntos mais palpitantes do momento. Peck se diz “definitivamente interessado em explorar o que podemos fazer fora do mainstream, na era da internet, da instantaneidade da mídia social e da comercialização desenfreada.” Acredita ele que, diante das escolhas ilimitadas no universo digital, as pessoas querem e precisam de uma direção, “de sensibilidades em que possam confiar”. Ensaios catárticos ou meramente informativos estão fora de cogitação: “Quero textos provocativos, que enfureçam e levem à ação, poesia cujo objetivo seja sua própria irrelevância, e ficção cujo autor tenha vergonha de mostrá-la aos amigos.”

A América da supremacia branca é o tema central da última edição. Muita gente nova e desconhecida do leitor brasileiro, romancistas, poetas e tradutores premiados dividindo o expediente com o reputado e polivalente crítico Gary Indiana. Outra atração nossa conhecida é o mexicano Álvaro Enrigue, autor de Morte Súbita, que analisa os dilemas culturais do México à sombra da Trumplândia. 

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