Stefan Wermuth/Reuters
Stefan Wermuth/Reuters

Relação da família de Jane Austen com o movimento abolicionista é revelado

Enquanto os admiradores de Jane Austen saboreiam a sagacidade e o romantismo de Orgulho e Preconceito e outros livros da escritora, estudiosos há muito tempo vêm desvendando a vida e a época da família Austen

Lynn Elber, AP

16 de junho de 2021 | 13h00

LOS ANGELES - Se de um lado os admiradores de Jane Austen saboreiam a sagacidade e o romantismo de Orgulho e Preconceito e outros livros da escritora, estudiosos procuram desvendar detalhes da vida e da época em que viveu a família Austen, incluindo a relação que teve com a escravidão há 50 anos.



Os esforços para colocar a escritora no contexto político e social da sua época resultaram em uma nova e antagônica descoberta: seu irmão predileto fez parte do movimento abolicionista do século 19.

Devoney Looser, professora da universidade do Estado do Arizona e autora do livro The Making of Jane Austen, descobriu que o reverendo Henry Thomas Austen participou da Convenção Mundial contra a Escravidão em 1840, em Londres, que contou com 500 delegados.

“Fiquei aturdida ao descobrir esse fato”, disse Looser em uma entrevista. Ela detalhou sua pesquisa em um ensaio para o suplemento literário do The Times. “O envolvimento da família e suas ações mudaram profundamente, da conhecida cumplicidade com a escravidão colonial a um ativismo contrário a ela que se desconhecia”, escreveu a professora. “Henry foi um membro da família que apoiou publicamente um compromisso político de se abolir a escravidão em todo o globo”.

O ensaio de Looser também fala das relações, já reveladas anteriormente, do patriarca George Austen, com outra plantação de açúcar nas Índias Ocidentais e as qualifica como “muito reais”, mas “ambas mal descritas e exageradas”.

Esta pesquisa mais recente foi bem recebida por Patricia A. Matthew , professora de inglês na Universidade de Montclair que se concentra na literatura do período que abrange Jane Austen. Seus cursos incluem também a literatura abolicionista britânica.

“Sempre fico empolgada com novas informações sobre autores que são tema das minhas aulas”, disse ela. Embora os novos detalhes não mudem sua visão da obra de Jane Austen, ela afirmou: “não acredito que estou lendo a obra de alguém que se envolveu ativamente em debates sobre o comércio de escravos. Isto pode ter ressonância junto aos admiradores mais devotados da escritora”.

“Acho que eles irão reavaliar suas ideias a respeito não só de Jane Austen, mas do período da Regência”, disse a professora, referindo-se à era britânica do início dos anos 1800. “Esse trabalho levanta questões interessantes sobre como veem a autora”.



A coleção de romances escritos por Jane Austen antes da sua morte aos 41 anos de idade, em julho de 1817, está focada nas relações e não em eventos correntes da época. Há uma referência rápida em Mansfield Park, e em Emma um personagem defende uma figura disfarçada como “um provável amigo da abolição”.

Quanto às próprias crenças de Jane, disse Looser, “sabemos pelas suas cartas que ela diz adorar os escritos de um proeminente abolicionista branco, Thomas Clarkson. Sabemos que ela lia e se preocupava com questões de raça e injustiça social”.

Uma anotação em diário de outro irmão de Jane, Francis, qualificava de lamentável que algum traço de escravidão “existisse em países dependentes da Inglaterra ou colonizados por seus súditos”. Sua opinião só se tornou pública em 1.900.

A Grã-Bretanha proibiu o comércio de escravos em 1807 e em 1833 a escravidão foi tornada ilegal, com exceção de alguns territórios. Leis subsequentes a proibiram inteiramente.

Como Looser descobriu o ativismo de Henry é uma história de detetive. Durante sua pesquisa, ela descobriu que Henry se intitulava Reverendo H.T. Austen em seus escritos e no trabalho público, o que a levou a novas descobertas, incluindo a participação dele na conferência de Londres.

Esta revelação não constou de nenhum estudo, mesmo da bíblia dos estudiosos de Austen, Uma cronologia de Jane Austen e sua Família: 1600 a 2000, de Deidre Le Faye, que Looser descreve como 800 páginas repletas de “milhares e milhares de fatos” sobre a família Austen. E coincide com uma revisão racial que hoje vem ocorrendo amplamente, inclusive no Reino Unido.

Em abril, a mídia britânica saudou os planos de renovação do museu na Jane Austen’s House, na cidade de Chawon, onde ela viveu e escreveu durante oito anos e hoje é uma atração para os fãs da escritora. Uma mostra reformulada que inclui pesquisa sobre suas relações com a escravidão foi denunciada como “ataque revisionista” por um jornal.

“Gostaríamos de assegurar que não teremos, e jamais tivemos, intenção de questionar Jane Austen, seus personagens ou seus leitores por tomarem chá”, é o teor do comunicado emitido pela Jane Austen’s House - o chá sendo uma parte vital do império colonial britânico.

Para os leitores que podem rejeitar o que seriam consideradas questões e perspectivas modernas envolvendo Jane Austen e sua obra, Looser tem uma resposta pronta:

“Questões de raça, racismo e injustiça racial eram centrais na época de Jane Austen. Portanto não estamos suscitando assuntos e problemas que não estavam presentes na sua época. Eles existiam inequivocamente.


Tradução de Terezinha Martino 

 

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