Blad Meneghel
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'Rainha dos baixinhos' Xuxa dedica segundo livro ao público infantil

'Maya - Bebê Arco-Íris' tem ilustrações de Guilherme Francini e trata da criação de uma menina por duas mães

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2020 | 05h00

Eternizada como a “rainha dos baixinhos”, a apresentadora Xuxa Meneghel dedicou para o público infantil seu segundo livro, Maya – Bebê Arco-Íris, que a editora Globo lança nesta semana. Com ilustrações de Guilherme Francini, a obra trata de forma lúdica de um tema delicado: a criação de uma menina por duas mães.

Marya é uma anjinha que vive no céu e cujas as asas têm as cores do arco-íris – ela agora se prepara para voltar à terra como uma criança. Como ela é muito exigente na escolha dos futuros pais (espera ser recebida por pessoas compreensivas, amantes das artes e que a queiram bem, independente da cor da pele ou dos olhos), as opções vão se escasseando. Até que Marya recebe a visita do próprio Deus que, ao acolhê-la na mão (como mostra o desenho abaixo), comenta que a menina espera, portanto, ter pais especiais, livres de preconceitos.

Deus, então, escolhe duas mães para receber a menina, cujo novo nome, escolhido por elas, é Maya. “E foi assim que Maya, nosso bebê arco-íris, chegou à terra. Hoje, vive com suas duas mamães, em um lar de muito amor, música e bichos”, termina a história.

Xuxa se inspirou na história da menina Maya para escrever o livro. Filha de um casal de lésbicas, Fabiana e Vanessa, a garotinha de poucos meses de vida se tornou afilhada da apresentadora – Vanessa é sua amiga há 20 anos e o desejo dela de ser mãe por inseminação artificial ao lado da companheira a motivou a escrever a fábula de Maya.

Como fez com seu livro autobiográfico Memórias, lançado em setembro e com mais de cem mil cópias vendidas, Xuxa se comprometeu a doar os royalties de sua nova obra para a Aldeia Nissi, na Angola, e para santuários de animais resgatados de maus-tratos no Brasil.

E, antes mesmo de chegar nas livrarias em versão impressa, o livro causou polêmica na semana passada, quando Sikêra Jr., apresentador do programa de cunho popularesco Alerta Nacional!, da RedeTV!, criticou Xuxa, entre outros assuntos, por ter escrito uma obra LGBTQIA+ para crianças. A apresentadora afirmou que pretende entrar na Justiça contra Sikêra.

Xuxa também se defendeu do ataque do apresentador por ter participado do longa Amor, Estranho Amor, dirigido por Walter Hugo Khouri em 1992. No longa, ela vive Tamara, menina de 15 anos (à época, Xuxa estava com 18) que é vendida a um prostíbulo para ser oferecida de presente a um político. A cena mais polêmica mostra uma relação de Tamara com Hugo, um garoto de 12. “É uma ficção, que retrata o que se passa até hoje na vida de muitas meninas e meninos, não na minha”, disse ela, em comunicado.

Com planos de lançar outro livro para crianças – agora com temática vegana, a fim de mostrar uma relação mais adequada com a alimentação e com os animais –, Xuxa respondeu por e-mail as seguintes perguntas.

O livro trata de temas importantes e delicados. Até que ponto você acredita que a criança brasileira é preparada para lidar com assuntos como a existência de uma anja (e não um anjo) e uma criança ter duas mães? 

Essa representatividade é necessária, pena que complicamos, pois mexe com religião, com o preconceito enraizado... Além disso, percebo que uma falta de amor assola o nosso País e o mundo. Mas, se não falarmos de amor, não vamos combater a ignorância vestida de fé de algumas pessoas.

Livros infantis e infantojuvenis têm uma maneira de incutir informações e valores nos filhos e também nos pais. Como você acredita que seu livro será lido pelos pais?

Meu desejo é o de que as pessoas leiam e sintam com o coração, pois só tem amor, amor e amor, até nos mínimos detalhes. Mas, é como disse, acredito que, quem não tem amor no coração, não vai conseguir nem ver e nem sentir isso... Não vai ser meu “livrinho” que fará essas pessoas mudarem.

Histórias clássicas para crianças têm personagens predominantemente masculinos e brancos. De que forma a tecnologia (redes sociais, principalmente) tem contribuído para refletir a cultura contemporânea, que tem muitos gêneros, entre as crianças?

No começo, pensei em colocar Deus como uma mulher negra. Mas como Deus é tudo, então, meu Deus (do livro) não tem cor nem gênero. Já que nós todos somos à imagem e semelhança Dele, né? E ELE é tudo, menos preconceituoso. Sobre rede social, como é uma coisa relativamente nova, ainda existe muito preconceito, ataques e, nesses casos, não acho que ajude muito a esclarecer assuntos como esses. Muitas vezes, como por exemplo quando você vê e ouve uma senhora religiosa xingar um casal gay, como na vez que vimos em um vídeo recente, pode fazer as pessoas pensarem que uma senhora – que fala em nome de Deus – pode não estar errada. Quando, além de errada, ela está cometendo um crime ao ofendê-los: homofobia. Homofobia é crime e, vestida de fé, o crime deveria ser ainda maior.

Antes de publicar a história, você a submeteu para algumas crianças e também alguns adultos? Como foi? Aconteceu algo que te convenceu a fazer alguma alteração na história?

Li para o Ju (Junno Andrade, seu marido), para as mães da Maya (Fabiana e Vanessa) e também para minha filha (Sasha). Não mudei uma vírgula, principalmente porque a reação deles foi de lágrimas emocionadas. Quem me conhece sabe que coloquei algumas coisas que a Sasha me passou quando pequena, ou seja, por mais que seja lúdico e fantasioso, tem muita verdade nele.

Você era leitora de livros quando criança?

Sim. Livros de princesas e livros infantis da época. Como eu era a caçula, herdei de meus quatro irmãos seus livros. O primeiro que li foi A Galinha e seus Pintinhos, que acabei atuando em um teatrinho aos 5 anos.

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