Estúdio Passeio/Editora Todavia
Estúdio Passeio/Editora Todavia

Rafael Tonon apresenta a história da alimentação com humor e texto saborosos 

Com estilo ‘new-journalism’, brasileiro discorre sobre as origens do que se vê e se come

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S. Paulo

20 de janeiro de 2022 | 14h42

Fazer comida hoje é tão popular quanto era fumar há meio século. A instituição Cozinha (com devida caixa alta) está presente em anúncios de televisão, propagandas de revista e disseminada nas redes sociais e em outras transmídias. Todo mundo fala de comida. Mas, não só misturar, picar, cortar, apertar, descascar, cozer e temperar, o negócio é saber a origem de cada alimento, sua história e para que serve especificamente um açafrão ou um manjericão roxo. Óbvio, o controle de qualidade amador vem aumentando o crivo: verificam-se procedência, como a origem do produto, terra do plantio, cuidado e se há uso ou não de agrotóxicos. Em  As Revoluções da Comida (Todavia), o jornalista Rafael Tonon explica a fixação do homem em se alimentar desde os primórdios. Dono de uma prosa ágil e bem-humorada, Tonon esclarece algumas imagens que vagam pelo imaginário das pessoas que procuram saber o que estão comendo, como, por exemplo, se se alimentar bem é igual a cultivar uma horta bonitinha em casa. Episódios engraçados são trunfo do livro, experiências pessoais e entrevistas com chefs e restaurateurs recheiam a edição. 

O livro chega para aprofundar a discussão alimentar além dos foodgrams (usuários do Instagram que falam de comida) aos restaurantes icônicos e experimentais, passando pelos delírios dos gastrônomos futuristas italianos, que montavam esculturas de comida. O adjetivo macarrônico faz sentido nesta seara, e o livro é uma leitura provocante a se fazer quando séries apostam em bizarrias, como o reality de culinária comandado pela socialite Paris Hilton, aquele nomeado como inimigo da culinária por chefes e fãs de Masterchef. 

“O livro propõe contar movimentos históricos e recentes que ajudaram a mudar a forma como comemos — ou entendemos a comida. São revoluções que, aos poucos, alteraram nossas dietas, nossos comportamentos, o que colocamos na nossa geladeira.”, conta Tonon ao Estadão. E ele explica a escolha pela narrativa compromissada aos fatos: “Acho que através de uma reportagem profunda, que busca comentar alguns fatos que aparentemente não têm conexão, quero fazer as pessoas pensarem no que comem, em como aquilo que decidem por no prato pode ter consequências muito mais amplas do que imaginam.”

Por essas e outras, ir ao mercado se converteu em uma aula de química elementar. Há os que comungam no terreiro da alimentação saudável a tal nível que não deixam passar um detalhe em branco. De olho nas letras miúdas das “bulas” alimentares, investigam-se quais produtos têm ou não Ácido Ascórbico, por exemplo, ou se o milho comprado da lata é transgênico. A discussão também ganha proporções acaloradas quando se fala em orgânicos, alimentos que dispensam o uso de agrotóxicos, embora não haja consenso do quão orgânico é um alimento que assim se vende – por isso, a necessidade de um Selo, que exige padrões de qualidade.  

Quem destrincha o tema em As Revoluções da Comida é a pesquisadora Yamini Narayanan, professora sênior na Deakin University, em Melbourne, renomada ativista culinária. Segundo Tonon, “Ela defende que o novo veganismo deve ser entendido como entendemos hoje o feminismo, o anti-racismo, e outros movimentos semelhantes de luta por uma política de anti-opressão. A defesa dela diz respeito ao fato de pensarmos que outras espécies podem estar num nível ‘abaixo’ da raça humana e isso nos daria o direito de permitirmos que elas vivam exclusivamente para serem mortas e nos alimentar.”. 

Polêmica sempre candente, o consumo consciente é destrinchado do ponto de vista filosófico. “O que os novos vegetarianos e veganos de que Narayanan fala são os que defendem que não, não temos o direito de maltratar animais para comermos (ou para qualquer outra coisa). Uma nova consciência animalista (que desacredita no especismo e na supremacia humana na natureza) tem gerado uma nova onda de vegetarianos que deixam de comer carne em defesa dos animais.”, completa Tonon, que avança em questões ambientais e sociais no livro, tratando desde movimentos ideológicos à dura realidade dos que têm fome.  

Ao passar pela região da Lombardia, o jornalissta investiga os mitos e verdades sobre o tomate mais cobiçado do mundo; como rãs quase destruíram todo um ecossistema de casta de anfíbios, tudo por conta da belle cuisine [a culinária francesa, em que a carne de rã é especialmente cobiçada] e o arrojado restaurante Mugaritz, no país basco, que muda o cardápio anualmente e seu prato principal é a experimentação. 

Trecho do Livro 

Tornamo-nos tão obcecados por comida a ponto de querer saber de onde ela procede, o que comprar, de que forma preparar, como comer. Fomos acometidos pelo foodismo, um tipo de enfermidade aguda, uma obsessão aditiva que passou a necessitar até de termos tradicionalmente ligados ao universo dos medicamentos para dar conta de descrevê-lo.

As Revoluções da Comida

Rafael Tonon 

160 pp

R$ 59,90

Todavia 

2021

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