Jesus Cisneros
Jesus Cisneros

'Quem lê sabe ficar em silêncio e estar sozinho’, afirma Alejandro Zambra

Escritor chileno publica toda sua ficção no Brasil, além de seu novo livro

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2021 | 05h00

Para o escritor chileno Alejandro Zambra, todos os seus romances são, em certa medida, autobiográficos. Assim, é possível imaginar que o livro Ficção 2006-2014, lançado agora pela Companhia das Letras e que reúne toda a sua obra publicada (desde Bonsai a Múltipla Escolha), traz muitos vestígios de sua história pessoal. De fato, Zambra, um dos mais importantes autores da atual literatura latino-americana, filtrou pela arte importantes eventos ocorridos em seu país.

Foi assim, por exemplo, em Formas de Voltar para Casa, escrito em 2010 e que traz as observações de um menino cuja infância é vivida durante a ditadura de Augusto Pinochet. Ou mesmo em Múltipla Escolha (2014), paródia sobre a forma como estudantes eram anacronicamente avaliados também naquele período tenebroso.

Mas, para realmente se ter um conhecimento da obra completa de Zambra, é preciso ler ainda Poeta Chileno, também lançado agora e que traça, de forma encantadora, a história de Gonzalo, aspirante a poeta e padrasto de Vicente, garoto viciado em comida para gatos e que, já adulto, se recusa a ir para a faculdade, preferindo também se tornar poeta. Com isso, o autor presta sua homenagem à poesia por meio dos labirintos da masculinidade contemporânea.

Nascido em 1975, Zambra exibe uma escrita com cortes precisos e esmerado sentido formal. Sobre ela, respondeu, da Cidade do México, onde vive há quase cinco anos, às seguintes questões por e-mail ao Estadão.

Poeta Chileno é um romance sobre a vulnerabilidade e sua estreita ligação com o emocional. Como se inspirou para escrever?

Da palavra padrasto. Quer dizer: já pensava nessa palavra há algum tempo, até que, em uma manhã, há cerca de 15 anos, eu a procurei no dicionário da Real Academia Espanhola e passei o dia todo zangado com o dicionário e com a RAE e com o mundo e comigo mesmo. Talvez, então, este romance tenha se iniciado, ou tenha iniciado a começar. Estou mentindo, é claro, porque um romance tem muitas origens e você as descobre à medida que avança, talvez até retrospectivamente. Mas essa é uma de suas origens, eu acho.

E como foi seu processo de escrita?

Eu o escrevi durante os dois primeiros anos de vida de meu filho, e acho que a alegria de sua chegada transparece, de alguma forma, no livro, embora seja um romance muito triste. Enganei-o por alguns meses lhe dizendo que vivíamos no Chile, mas é claro que perdi essa batalha há muito tempo... E agora, sob sua influência, estou perdendo meu sotaque, estou começando a imitá-lo. Minha maneira de escrever era muito chilena e este romance se tornou totalmente assim, o narrador fala como eu. É preciso se realfabetizar o tempo todo. 

No romance, há uma reivindicação da poesia, mas ainda é um gênero muito pouco lido pelo grande público, apesar do fato de as letras das grandes canções serem belas. Por que nos afastamos da poesia?

Acho que há muita ênfase nos gêneros literários e na separação entre leitura e escrita. Não sou contra a tradição sendo ensinada e teorizando sobre gêneros literários e o cânone. Mas é melhor começar a construir acordos mínimos, com bom senso, e tentar alternar a leitura e a escrita. E nunca fale de forma tão abstrata, sem textos na mesa. Em vez de definir poesia, leia um poema e comente sobre ele. Enfatize, por exemplo, a relação da poesia com a música. Um poema funciona como uma canção. Se você gosta, você ouve de novo e assim por diante milhares de vezes. E um romance é como uma canção mais longa, mais estranha, mais difícil de memorizar. Mas, ao ler um romance, o prazer antecipado também funciona, por exemplo. Você pensa, enquanto lê, que vai rever essas mesmas palavras, que essa possibilidade existe, e então o presente é projetado e expandido, sem deixar de estar presente. Precisamos falar sobre essas coisas, acho eu. Também deveríamos falar mais sobre a ligação entre a leitura e o silêncio. Pouco se fala sobre isso. E é importante. Quem lê sabe ficar em silêncio, sabe estar só e se relaciona com a solidão de uma forma diferente.

Como assim?

Para abordar a poesia, eu partiria da música e do humor. Por exemplo, as piadas, que não são verdadeiras nem falsas, são ficcionais. Sonhos também não são mentiras, isso qualquer um entende. Todos já experimentamos a dificuldade de contar um sonho, até mesmo de contá-lo a nós mesmos. Minha sensação é a de que, nas escolas, todo esse valioso conhecimento prévio é desconsiderado, como se as crianças tivessem de desistir do que já sabem, elas são punidas de antemão. Nem todos os professores são assim, claro. Na biografia de quase todos nós que nos dedicamos à literatura há um professor que mudou sua vida.

A relação entre Gonzalo e Vicente conduz o romance. Por que o interesse em mostrar os laços familiares?

Estou interessado nesse território, nesses confrontos, nas fricções geracionais, nas discussões que põem em questão os limites entre o interior e o exterior. Para comparar nossas ideias mutáveis sobre paternidade, comunidade, masculinidade. Nossas ideias sobre felicidade, sobre identidade, sobre ternura. Há uma cena muito secundária em meu romance em que dois poetas discutem sobre a palavra ternura: se é uma palavra feia ou bonita, se pode ou não aparecer em um poema, etc. Estou muito interessado nessa discussão, da mesma forma que estou interessado em todas as discussões que deixamos de lado porque soam como autoajuda, estupidez, questões há muito processadas e superadas. Meu sentimento geral é o de que tudo precisa ser compreendido e discutido novamente. 

A cada romance, você espera se reinventar, literalmente falando? Como?

Mais ainda, a cada coisa nova que publico. Escrevo muito mais do que publico. Decididamente, separo a escrita da publicação. São coisas tão diferentes. Talvez antes, quando escrevia na imprensa, houvesse uma zona intermediária, mas agora escrevo com o único propósito de pesquisar, de entender, de investigar. E, embora não haja prazos, ainda é uma escrita urgente e necessária. Durante a pandemia, senti essa necessidade diariamente. Se eu não escrevesse, não entenderia nada. Escrever é fazer anotações, nada mais. Escrever é escrever mal. 

Em seus romances, além da trama em si, há uma preocupação com as palavras e a forma como elas promovem tanto o contato como o silêncio. Fale sobre essa importância.

Claro, sim, Gonzalo se depara com a palavra “padrasto” e tem de decidir se a usa ou não, se a dignifica ou inventa outra. É o que fazem os poetas, penso eu: lutar com cada palavra do poema, reabilitar a linguagem ou reinventá-la. É uma visão muito romântica da poesia, mas também gosto de tirar todo o romantismo. Há um momento em que Gonzalo e Vicente falam de livros e autores apenas para preencher o silêncio, olhando-se nos olhos. Eu estava pensando em futebol, por exemplo – há tantos pais que só falam de futebol com os filhos. Recentemente, escrevi uma história sobre uma noite, por volta dos meus 18 anos, quando estava brigado com meu pai. Não nos falávamos, mas assistimos a um jogo da Copa Libertadores juntos e, de vez em quando, comentávamos uma jogada ou reclamávamos das decisões do árbitro. Também às vezes, quando falamos de poesia, somos como nerds que recitam estatísticas e relembram suas jogadas favoritas, os grandes gols do passado.

Você já morou em diversas cidades, como Santiago do Chile, Madri, Nova York e agora Cidade do México – elas influenciaram seus hábitos de escrita?

Comecei a imaginar e a esboçar esse livro quando ainda morava no Chile e comecei a escrita há pouco menos de quatro anos, quando nos mudamos para a Cidade do México. Já tinha morado no exterior, mas sempre com uma passagem de volta, mas, aqui, o Chile apareceu pela primeira vez como um lugar de origem. Não queria que a nostalgia me invadisse, me silenciasse, e escrever esse livro foi a minha forma de estar lá e de falar em chileno. 

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