BAPTISTÃO
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Quarentena se torna gestação para escritores e potencializa criação literária

'Estado' fala com autores e autoras que usam o isolamento para tirar projetos do papel e finalizar obras de fôlego

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2020 | 05h00

Sagas sem fim, contos de impulso, projetos biográficos, promessas fictícias ou linhas que poderão se tornar qualquer um deles ou nada. Das poucas atividades criativas que a pandemia não pode impedir, a escrita é uma delas e deslancha no ano em que o mundo foi pra casa. Sim, quem escreve está sempre em confinamento, dizem os autores. Uma imersão que começa quando se liga o computador e se completa assim que um universo que nunca está ao lado é acessado. Autores e autoras envolvidos por uma rotina compulsória que os leva ainda mais a seus interiores, com mais tempo ou inspirações que o isolamento pode provocar, se lançam para desengavetar ideias e finalizar livros já pensando em quando tudo passar. Ou, e isso daria um senhor conto de realismo distópico, se não passar nunca.

O biógrafo Ruy Castro, que sempre produziu em ritmo acelerado, desafia a física para estar em três lugares ao mesmo tempo desde o início da quarentena. Conta ao Estadão que “passa o rodo” no texto de Ela é Carioca – Uma Enciclopédia de Ipanema, lançado em 1999 pela Companhia das Letras mas esgotado dos estoques. “É para uma reedição a ser lançada ainda neste ano, atualizada, ampliada com vários verbetes novos, novo projeto gráfico e, agora, sim, definitiva.” Ao mesmo tempo, lê livros e textos de todos os escritores que menciona em seu livro mais recente Metrópole à Beira-Mar – O Rio Moderno dos Anos 20, como João do Rio, Alvaro Moreyra, Agrippino Grieco, Gilka Machado, Benjamim Costallat, Théo-Filho, Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto e Chrysanthème. E, ainda no mesmo tempo, se joga no que chama de uma “superantologia” de seus textos, contos, frases e poemas que já tem nome: As Vozes da Metrópole. “Estou cada vez mais fascinado por eles. Foram os autores mais ousados e surpreendentes daquela época, não perdiam tempo fazendo trocadilhos e poemas-piada.”

Seu terceiro projeto sai do eixo biográfico. “Como só tenho ideias para livros de ficção de dez em dez anos, chegou a vez deste.” Ele fala de Os Perigos do Imperador, uma trama político-policial que se passa por volta de 1870 com Dom Pedro II como protagonista. Como os outros, também será lançado pela Companhia das Letras. Além dos três projetos paralelos, Ruy lembra que escreve quatro colunas por semana para o jornal Folha de S.Paulo. Ainda haveria tempo no espaço de seu apartamento no Leblon? Sempre tem: “A quarentena está permitindo me aprimorar na arte de descascar batatas, regar as plantas e passar o aspirador na sala.”

A editora independente e autora de Mate-me Quando Quiser, finalista do Prêmio Sesc de Literatura em 2014, com os direitos sendo negociados para virar filme, e de No Fundo do Oceano, os Animais Invisíveis, ainda não lançado, Anita Deak tem um bom termômetro para sentir o aumento da produção literária desde o início da quarentena. Ao lado de Paulo Salvetti, mestre em Teoria e Crítica de Arte e especialista em História da Arte, autor do romance Cara Marfiza, Anita apresenta o excelente podcast Litterae e é contratada por autores para fazer leitura crítica e preparação de textos. “Eu nunca vi um movimento tão intenso. Lancei um curso de escrita que teve as inscrições esgotadas uma hora depois de eu divulgar nas redes. Nunca vi nada parecido nesses anos de edição.”

Ela percebe que, ao mesmo tempo em que as editoras seguraram seus lançamentos, os autores aqueceram a produção. Ela calculo que teve um aumento na procura por seus trabalhos de até quatro vezes mais. “Não consigo pegar mais nada.” Agora, teria o tempo pandêmico reflexos no pensamento do autor? Anita diz que sim, e que é preciso estar atento para não ser levado para lugares mais comuns do que aparentam ser quando se escreve tomado pela agonia da solidão. “Aparecem muitas narrativas intimistas, em primeira pessoa, personagens isolados em fluxo de pensamento. É preciso cuidado para não cair na mesmice. O autor não pode ficar sequestrado pela angústia. Vejo muito reflexo disso nos textos.”

Um dos livros que chegou a suas mãos e que a faz lançar o adjetivo “fantástico” é o primeiro assinado pelo autor pernambucano Eury Donavio, 49 anos. Fiados na Esquina do Céu com o Inferno é a história de um sertanejo que vive certo de que terá o inferno como destino. Na esquina dos dois mundos possíveis depois da vida, ele faz um pacto para se livrar de sua sina: combater a favor da chuva na guerra que ela trava com a seca. “Aproveitei a quarentena para finalizar a última revisão e para fazer um curso de roteiro para cinema. A história do livro já está adaptada e, agora, falo com amigos para conseguir viabilizar o filme”, diz, seguro, Donavio.

O biógrafo Lira Neto fala de Portugal, onde foi viver com a família um pouco antes da eleição do presidente Jair Bolsonaro. Ele primeiro faz uma ressalva. “Acho curioso quando vejo pessoas dizerem que têm mais tempo para fazer as coisas na quarentena. O fato de estar em casa demanda tarefas inadiáveis.” Sua relação com a escrita, ele diz, não mudou com a pandemia. “Estou no home office há 20 anos.” 

Autor de várias biografias, dentre elas uma trilogia sobre a vida de Getúlio Vargas, Lira tinha na fila a continuação da saga iniciada com Uma História do Samba, em 2017, pela Companhia das Letras. Mas seu distanciamento do Brasil por circunstâncias “políticas, profissionais e pessoais” tornou mais difícil o acesso às fontes, arquivos e entrevistados mp Brasil mas o colocou na rota de apuração de outro projeto. Uma outra biografia coletiva, agora sobre a diáspora dos judeus sefarditas expulsos e forçados a migrar de Portugal para a Europa Mediterrânea e os Países Baixos, responsáveis por tornar a Holanda a economia mais poderosa do mundo. Uma parte desses judeus vem para o Brasil quando a Holanda passa a dominar territórios do Nordeste até que Portugal retoma suas terras e parte desses judeus migra para fundar ao norte uma Nova Amsterdã, a cidade que será Nova York. De repente, Lira, um desterrado de seu mundo, saindo do Brasil por desolação com o rumo político que ele tomava, se vê de certa forma na situação do povo sobre o qual escreve. 

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