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Quantos livros por ano na França?

Confrontada com a maioria dos best-sellers franceses, uma obra de Coelho é uma joia de sutileza, erudição, imaginação e poesia

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2019 | 02h00

Como vão os livros na França? Muito bem e melhor a cada dia. Em 1990, foram publicados nesse país 32 mil no ano. Em 2000, 59 mil títulos. Em 2010, 79,3 mil títulos e, de 2010 em diante, superamos os 120 mil. Assim, em 30 anos, a oferta de novos livros foi multiplicada por 4, um belo resultado.

Mas não há razão para se orgulhar... Tais números são enganosos porque, na verdade, editores e livrarias sofrem, mostram sinais de fadiga. As livrarias permanecem numerosas. Nós até vemos, nas grandes cidades, as novas livrarias surgirem todos os anos. E elas não vão à falência no ano seguinte. Mas, para se manter à tona, os livreiros devem aceitar uma vida de cachorro, salários miseráveis. E horários horríveis.

Ser livreiro, mesmo em Paris, é exercer um sacerdócio. Viver apenas para compartilhar um “tesouro”, “manter o fogo sagrado”. Eles trabalham como diabos. Organizam “noites de autógrafos” em suas lojas. Eles pedem a um ator amigo que venha e leia um ou dois capítulos de seu romance para deixar o possível leitor com água na boca. As pequenas livrarias dialogam com seus clientes. Alguns escrevem em um papel anexado ao livro a sua própria impressão sobre o leitor.

A ideia é que, diante do ogro da Amazon, só podemos lutar se acrescentarmos ao livro algo muito especial, uma customização. Ao contrário, nas grandes livrarias, aquelas que estão bem instaladas, o livreiro (ou melhor, os empregados) não brilha pela sua erudição.

Mas os jovens, aqueles cuja loja é pequena como uma miniatura, são apóstolos e generosos. Eles têm uma paixão e eles a compartilham. É isso que confere a essas novas livrarias uma sedução que há muito tempo abandonou as grandes lojas.

Evidentemente, eles têm uma desvantagem, a falta de espaço. Em sua loja de Lilliput, eles só podem abrigar uns 10 mil ou 15 mil títulos. E eles precisam sempre devolver os que não foram vendidos para abrir espaço aos recém-chegados.

O crescimento exponencial da oferta não elevou a qualidade desses livros. O desperdício é gigantesco. A maioria desses escritos é medíocre. Embora o pequeno livreiro ofereça apenas livros escolhidos a dedo, o grande livreiro oferece ao acaso livros refinados (em pequenos números), livros médios ou médios em grande número e especialmente os “best-sellers”.

Um “best-seller” lançado por um especialista (cartazes no metrô, na parte traseira do ônibus, nos corredores do metrô, anúncios em rádio, canções, TV) facilmente alcança cerca de 500 mil exemplares vendidos, ou mesmo um milhão. A sua qualidade é angustiante. Confrontada com a maioria dos best-sellers franceses, uma obra de Paulo Coelho é uma joia de sutileza, erudição, imaginação e poesia.

Uma exceção: as memórias de um cantor, um campeão de futebol ou um piloto de corrida, um marinheiro, um político, um boxeador, uma atriz de 25 anos de idade, de uma cortesã, um espião, vendem bem e são de bom nível literário. Não é de se admirar: esses livros de memórias são quase sempre escritos por um especialista,  que escreve obras assinadas por outros.

Permanece o enigma: e os editores? Como eles fazem para encontrar todos os anos tantos manuscritos dignos de publicação? A primeira resposta é que um editor é muito indulgente quanto à qualidade dos livros que publica. Persuadidos, com razão, que o comércio de livros é uma loteria, eles tomam ao acaso grande número de textos, na esperança de que seus produtos vão tirar a grande sorte. Por exemplo, ele pode receber um prêmio literário. Não importa qual prêmio. São distribuídos na França três ou quatro prêmios por dia, geralmente absurdos. Um prêmio para as melhores lembranças de uma tecelã, prêmio do melhor tratado sobre viticultura, prêmios dos apaixonados por escargots de Ardèche, prêmio para o livro que não recebeu nenhum prêmio. Pelo contrário, se você tem o Goncourt, o Renaudot, o Interallié ou Femina, então, no dia seguinte, as filas se formam em livrarias. O povo dos leitores na França é um povo de ovelhas.

A segunda razão é que a França é um país que escreve mais do que lê. Nós podemos até jurar que todos os franceses escrevem a se julgar pelo enorme pacote de manuscritos que chegam diariamente às editoras. Dá até para acreditar que todos os franceses e francesas vivem apenas para escrever. Geralmente, livros de memórias.

Todo cidadão pensa que sua vida é rara, brilhante, excepcional, sem comparação, e que ele deseja comunicar a história às pessoas extasiadas. Tudo isso vai para o lixo, na maior velocidade. O número de rejeições é esmagador. Na Gallimard, apenas um manuscrito em cada cem é publicado. A enorme trupe de rejeitados vai se recuperar e logo voltar para suas máquinas, de forma que, no próximo ano, ele vai enviar a outro editor um outro manuscrito, que também será rejeitado.

Os outros, mesmo que publicados sob as prestigiosas capas da Gallimard, Plon, Albin Michel ou Flammarion, começarão a sofrer. O editor vai anunciar que seu livro foi comprado por 1.000 errantes, ou por 500 excêntricos, ou 100 teimosos. Às vezes, no máximo 25 compradores: membros de sua própria família. Às vezes, vemos apelos desesperados nos jornais: “Jovem escritor procura um jornalista curioso para falar de seu livro”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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