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Quando todo mundo queria ser Françoise Sagan

Nos 60 anos de ‘Bom Dia, Tristeza’, é oportuno refletir hoje sobre a importância da autora e de seu livro polêmico

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2014 | 20h16

Liguei para as mais importantes livrarias de São Paulo. “Tem livros de Françoise Sagan?” As respostas vinham de vozes jovens: “De quem?”. Repetia: “Françoise Sagan”. Apenas em uma loja a atendedora sabia quem era, verificou. Encontrei um volume da bolso, fino, barato, de Bom Dia, Tristeza. Junto a informação de que vende pouquíssimo. Pensar que há exatos 60 anos, em 1954, a França e como um rastilho a Europa e o mundo foram sacudidos pelo fenômeno polêmico Sagan, a jovem de 19 anos que, ao publicar um romance curto, considerado escandaloso, causou polêmica e tornou-se super star das letras, ficou milionária e comportou-se como celebridade midiática. Tudo que ela fazia, cada gesto era registrado pela imprensa: baladas, noites em Saint-Tropez, álcool, drogas, carros esporte velozes, o acidente que sofreu com seu Aston Martin aos 22 anos, em que ficou entre a vida e a morte. Sofrendo dores terríveis, foi tratada com morfina, o que a tornou dependente até o final da vida. Ela mesma relata esta dependência em Toxiques, ilustrado por Berard Buffet. Sagan foi produzindo best-sellers: Um Certo Sorriso, Você Gosta de Brahms?, Castelo na Suécia (peça teatral), La Chamade, Um Pouco de Sol na Água Fria, Musiques de Scéne, A Mulher Fardada, A Guerra Preguiçosa.

Ela era a melhor amiga de Florence, filha única de André Malraux, seu grupo constante tinha Juliette Greco, Bernard Buffet e sua mulher Annabel, Jacques Chazot, Mitterrand, Sartre, Carson Mc Cullers. 

Bom dia, Tristeza foi filmado por Otto Preminger, com um elenco estelar, David Niven e Deborah Kerr e uma novata, Jean Seberg, que seria porta-voz da contracultura na França ao protagonizar Acossado, de Godard. Mito absoluto. Sagan escreveu contos, romances, teatro, letras de música, reportagens. Foi a Cuba cobrir a revolução de Fidel, combateu na Guerra da Argélia. François Mauriac, um dos mais ilustres nomes de França, chamou-a de “monstrinho encantador”. Aos 22 anos casou-se com o editor Guy Schoeller, 20 anos mais velho do que ela, de quem se separou dois anos depois. Aos 27 anos casou-se com o americano Robert Westhoff. A separação veio meses mais tarde, porém ficaram amigos para sempre e tiveram um filho, David.

O dinheiro entrava aos jorros, mas o pai a tinha aconselhado: gaste. E ela gastou. Filha de uma família classe média alta vinda da província, ela nasceu Françoise Quoirez e tinha um irmão, Jacques, e uma irmã, Suzanne. Foi seu editor René Julliard que a transformou em Sagan, nome “emprestado” da Princesa Sagan do romance de Proust, Em Busca do Tempo Perdido. O sucesso de Sagan deve-se a ter ela pregado a amoralidade, o viver o presente, o desafiar tabus. Em Bom Dia, Tristeza, há uma relação claramente incestuosa entre a personagem Cecile e seu pai Raymond. Depois de reler o romance fiquei pensando se ela ainda resiste a esta quebra de tabus e normas, uma vez que tudo foi quebrado, principalmente depois de 1968.

Poucos de minha geração, que sonhavam ser escritores, não quiseram ser Sagan. Nos anos 60, havia uma jovem romancista, Maysa Strang da Rocha, que fez carreira como a Sagan brasileira. Cada um tomou seu caminho, mas acredito que a francesinha delgada, frágil abriu atalhos. A época de Sagan foi a de Elvis Presley, Brigitte Bardot, James Dean (ele morreu no ano em que foi lançado Bom Dia, Tristeza), juventude transviada, em que a beat generation despontava. Álcool, drogas, uma certeza na impunidade e na imortalidade consumiram sua vida. Antes de morrer tinha uma dívida de 1 milhão e 500 mil euros, que foi paga pelo governo Mitterrand, o que provocou a maior celeuma. Ídolos como Sagan morrem cedo, no entanto ela chegou aos 69 anos. Morreu em 2004 na solidão. A revista francesa Le Magazine Littéraire dedicou seu último número a Françoise, com uma pergunta para pensar e refletir: Que reste-ti-il de Sagan? Quem não se lembra da canção de Charles Trenet, dos anos 1940, que igualmente pergunta: O que nos resta de nossos amores, de nossos belos dias. O que ficou de Sagan?

BOM DIA, TRISTEZA

Autora: Françoise Sagan

Tradução: Sieni Maria Campos

Editora: Bestbolso (112 págs., R$ 15)

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