Celeste Sloman / The New York Times
Celeste Sloman / The New York Times

Quando se trata de viver na incerteza, Michael J. Fox é especialista

Ator lançou seu quarto livro de memórias, 'No Time Like the Future', nesta semana. Nele, Fox relata sua perspectiva sobre andar de cadeira de rodas e fala sobre como conviver com doença de Parkinson é uma lição de humildade

Elisabeth Egan, The New York Times

18 de novembro de 2020 | 16h31

Há dois anos, Michael J. Fox passou por uma cirurgia para retirar um tumor benigno na sua coluna vertebral. O ator e ativista, que luta com a doença de Parkinson há quase trinta anos, teve de aprender a andar novamente. Quatro meses depois, ele caiu na cozinha de sua casa, em Upper East Side, e fraturou o braço. Para voltar a movimentá-lo foram necessários 19 pinos e uma placa. 



Atolado em recuperações sucessivas, ele começou a se perguntar se não teria exagerado na ideia de esperança nos seus três primeiros livros de memórias, Lucky Man: Always Looking Up, A Funny Thing Happened on de Way to the Future. “Tive uma crise de consciência”, disse Michael numa entrevista por vídeo no mês passado, falando de seu escritório em Manhattan onde fotos de Tracy Pollan, com quem é casado há 31 anos, e seu cachorro, Gus, estavam atrás dele. “Tenho pensado: o que venho falando para as pessoas? Digo sempre que tudo vai ficar bem – e isso é péssimo”.

Sua solução foi canalizar essa honestidade para seu quarto livro de memórias, No Time Like the Future, lançado em 17 de novembro. A título de exemplo da sua nova visão, viu sua perspectiva sobre andar de cadeira de rodas. “É uma experiência frustrante e isolada, permitindo a qualquer pessoa determinar a direção que vai tomar e a velocidade da viagem. Você comanda, é um mundo de traseiros e cotovelos. Ninguém consegue me ouvir. Para compensar, levanto minha voz e de repente me sinto como Joan Crawford no filme O que aconteceu com Baby Jane?, dando ordens aos gritos."

E ele continua: “Geralmente a pessoa no comando é um estranho, um funcionário do aeroporto ou do hotel. Estou certo de que se olharmos nos olhos um do outro reconheceremos nossa humanidade. Mas com frequência na cadeira de rodas, sou a bagagem. Não esperam que eu fale muita coisa. Apenas ficar parado”. E mais tarde ele acrescenta: “Ninguém presta atenção numa mala”.

Antes da cirurgia na coluna, Michael Fox estava trabalhando num livro sobre golfe. “Então a vida ressurgiu. Comecei a pensar sobre o que significava conseguir movimentar e me expressar fisicamente, ter essa escapada. E depois ter de me render e me deitar e dizer “me cortem". Não sei o que isso significa para uma outra pessoa, mas sei o que é para mim escrever sobre isto”.

No Time Like the Future é um mergulho no esporte favorito de Michael Fox, que ele joga em Long Island com seus “tios” – George Stephanopoulos, Harlan Coben, Jimmy Fallon e Bill Murray – “que não prestam atenção às minhas dificuldades para jogar golfe com Parkinson e aceitam a verdade de que o golfe é uma tortura para todo mundo”.

O livro também explora a relação separada, mas igual, de Fox com seus quatro filhos adultos; sua decisão de parar de representar (não conseguir falar com confiança acaba com o jogo no caso de um ator); porque recentemente tatuou uma tartaruga no seu antebraço direito (“um registro visual do poder da resiliência”); e talvez o que seja mais comovente, a progressão gradativa da sua doença.

Ele escreve: “Sem uma intervenção química, o mal de Parkinson me deixa bloqueado, imóvel, o rosto sem expressão e mudo – totalmente à mercê do meu entorno. Para alguém cujo movimento equivale à emoção, vibração e conexão, esta é uma lição de humildade”.

Para um consumidor da cultura pop da Geração X, Michael J. Fox traz à mente filmes como Laços de Família, De volta para o Futuro, entrevistas na Tiger Beat. A energia que o tornou uma presença fascinante na tela que se manifesta no seu livro. E também no momento que ele está na minha tela, quando assisto as diferentes encarnações dele durante toda minha vida, só que desta vez ele está falando para mim – a ponto de eu me preocupar em criar problemas com sua protetora editora se for além do tempo combinado para a entrevista.



A única pausa foi quando ele fala sobre Pollan. “O livro é uma carta de amor para Tracy. Ela realmente me ajuda a superar tudo isto – ela suporta, balança a cabeça, se mantém forte – “tudo”.

O princípio norteador de No Time Like The Future foi inspirado pelo cunhado de Fox, Michael Pollan, escritor conhecido por seus livros The Botany of Desire e How to Change Your Mind. “Ele sempre me diz, ‘velocidade e verdade, velocidade e verdade. Seja honesto e acredite profundamente”. “Não vou contar às pessoas nada além da minha experiência. Tenho 59 anos de idade e não quero perder tempo com conversa fiada”.

Um rascunho do livro estava a caminho quando Fox e sua família se mudaram para sua casa em Quogue, Nova York, para escapar dos primeiros meses da pandemia. Dali ele continuou a trabalhar seis dias por semana pelo FaceTime com sua parceira de produção, Nelle Fortenberry, que estava em Sag Harbor. A equipe alugou um escritório onde o processo é o mesmo dos livros anteriores: ela enche uma parede com fichas listando temas que Fox deseja cobrir. 

Embaixo de cada ficha há mais uma fileira de fichas coloridas contendo histórias pertinentes a cada assunto. “Eu faço anotações que ninguém pode ler e depois as dito para Nelle”, disse Michael.

Fortenberry, numa entrevista por telefone, explicou melhor: “A escrita à mão de Michael nunca é boa. Assim ele fala e eu datilografo. Não sou sua escritora fantasma. Ele é o autor do livro”.

Os dois trabalham juntos há 25 anos – nos livros, filmes e projetos para a Michael J. Fox Foundation, uma organização de pesquisa sobre o mal de Parkinson. Ela se encontrou com Michael pela primeira vez quando procurava um emprego na empresa, um trabalho que não tinha certeza se desejava. “Em cinco minutos, senti a profunda amizade que criaríamos. Jamais sentira isto antes, essa certeza que você tem quando encontra seu marido ou quando visita 50 casas e finalmente encontra a que gosta e não procura mais, sabendo que aquela é 'minha casa'. Foi assim que me senti com Michael desde o início”.

As pessoas costumam perguntar a Michael se ele vai mudar de volta para o Canadá, onde nasceu e viveu até os 18 anos. “Criei uma vida aqui e me tornei cidadão americano para poder votar. E agora quero estar aqui para ajudar a reparar as coisas. Há uma limpeza ocorrendo. As coisas vão melhorar”.

Palavras de um otimista, não? Fox riu. “Otimismo é esperança bem fundamentada”, disse ele. “Foi lhe dado algo, você aceitou e compreendeu, e depois tem de rechaçar”.

Ele faz isto por meio da sua fundação, criada há 20 anos e com um financiamento de mais de US$ 1 bilhão para pesquisas sobre o mal de Parkinson. “Esperava deixar a atividade agora. Achava que encontraríamos uma cura – óleo e pelo de cachorro solucionariam, ou algo do tipo."

Mas ele escreve em seu livro: “na busca de uma cura para o mal de Parkinson, estamos absolutamente certos de que somos os precursores”.

No epílogo do livro ele retoma a primeira onda da pandemia. Descreve o som dos vizinhos batendo panelas e sinos, com apitos, em homenagem aos trabalhadores da saúde, “milhares de pessoas enviando uma mensagem de agradecimento para o universo”. E ele lembra seu sogro, Stephen Pollan, que morreu em 2018 e era conhecido pela confiança que era sua marca registrada: “Espere minha criança. Vai melhorar”. Ou, como diz Michael Fox, “com gratidão, o otimismo se torna sustentável”.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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