CHRIS WARDE-JONES / THE NEW YORK TIMES - 4/12/2014
Edição americana da série napolitana, maior sucesso de Elena Ferrante. CHRIS WARDE-JONES / THE NEW YORK TIMES - 4/12/2014

Quais são as influências de Elena Ferrante?

Escritora italiana, que tem novo livro, 'A Vida Mentirosa dos Adultos', lançado no dia 1º de setembro no Brasil, já falou sobre suas principais referências

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 10h00


Quando o assunto é Elena Ferrante, leitores apaixonados saem de todos os lugares e escolhem seus temas preferidos: a força investigativa singular que sua obra aplica ao universo feminino e nas relações interpessoais de forma geral; sua identidade real, cercada de mistério - explicada, nas raras entrevistas, pela necessidade de que sua persona não interfira em sua obra; as influências que ela usa de maneira tão hábil para criar mundos particulares.

Sobre estas últimas, é possível encontrar caminhos na obra da autora, nas entrevistas esporádicas, e também no seu livro Frantumaglia, uma reunião de cartas, ensaios e conversas com jornalistas publicado mais recentemente, em terceira edição, em 2016.

 

Veja a seguir algumas das principais influências de Elena Ferrante:

 

Elsa Morante

A própria Ferrante (ou quem quer que responda seus emails) já admitiu ser fã da escritora italiana Elsa Morante (1912-1985) - especula-se que escolheu de propósito um pseudônimo sonoramente parecido com o nome de Morante. Ela própria muito discreta, veio a ganhar reconhecimento internacional apenas após sua morte, e especialmente com os livros A História e A Ilha de Arturo, este publicado no Brasil em 2019 pela editora Carambaia. 

Não deixa de ser interessante que Morante tenha se debruçado sobre a infância do ponto de vista masculino. A versão é disputada, mas há quem aposte que Elena Ferrante é na verdade um escritor.


 

Marguerite Duras


Ferrante disse em entrevistas que Marguerite Duras (1914-1996) é sua autora em língua francesa preferida. “Seu livro com quem eu passei mais tempo foi Le Ravissement de Lol V. Stein (1964); é seu livro mais complexo, mas também com o qual o leitor pode aprender mais”, disse ao Los Angeles Times em 2018.


 

Sigmund Freud e a psicanálise


Quem explica é a pesquisadora Fabiane Secches, autora de Elena Ferrante – Uma Longa Experiência de Ausência (editora Claraboia): “Nos textos de Frantumaglia (antologia de entrevistas, cartas, ensaios e artigos de Ferrante), a autora recorre muitas vezes à psicanálise. Menciona o texto Totem e Tabu, por exemplo, para argumentar sobre o que chama de ‘desejo neurótico de intangibilidade’. Diz que leu Freud desde muito cedo e é entusiasta de seus escritos. Ferrante também diz ter lido apaixonadamente a psicanalista inglesa Melanie Klein, cita o psicanalista francês Jacques Lacan e a pensadora belga Luce Irigaray, que tem trabalhos que transitam entre a psicanálise, a filosofia e a linguística. Quanto mais releio as obras de Ferrante, mais encontro elos possíveis e interessantes com a psicanálise”.



 

Suas próprias origens


Em entrevista à Vogue americana em 2014 — ano em que o terceiro volume da tetralogia napolitana, História de Quem Foge e de Quem Fica, foi publicada nos EUA — Ferrante disse: “Escrever esse romance não me fez voltar ao passado; em vez disso, afirmou a ideia de que é impossível escapar das nossas origens”. Sua tetralogia também apresenta em caráter detalhado regiões de Nápoles, a cidade onde ela nasceu e cresceu (talvez o único dado biográfico livre de controvérsias), impossível de ser construído sem um largo estudo sobre a cidade. 


 

Ippolito Nievo


Na mesma entrevista, ela confessa profunda admiração por Ippolito Nievo (1831-1861), cujo romance Confessioni Di Un Italiano, publicado postumamente em 1867, é considerado um dos maiores clássicos da literatura italiana do século 19. O livro é também recordado como um retrato sólido da Itália do Risorgimento, o movimento político que levou à unificação do país.


 

Madame Bovary e Mulherzinhas


O livro de Gustave Flaubert (1821-1880) também aparece como uma das paixões literárias de Ferrante em um texto em Frantumaglia. Em entrevista ao Los Angeles Times, publicada em 2018, Ferrante diz: “Como uma garota, quando eu lia, eu puxava as histórias e os personagens para o mundo em que eu vivia, e Emma (Bovary), não sei por que, parecia próxima a muitas das mulheres na minha família". A personagem tem ressonância importante também no novo livro de Ferrante, A Vida Mentirosa dos Adultos, que começa com a narradora, Giovanna, dizendo: "Dois anos antes de sair de casa, meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia". Em Madame Bovary, Emma comenta, a respeito da própria filha: "É estranho como é feia essa criança". Ferrante também fala do livro de Louisa May Alcott ao jornal americano: "Mas antes de Madame Bovary, eu amei Mulherzinhas, eu amei Jo (personagem principal). Esse livro está na origem do meu amor pela escrita”.



 

Personagens femininas


Outras personagens que Ferrante cita, na mesma entrevista, como algumas de suas influências são: Moll Flanders (do livro de Daniel Defoe, publicado em 1722); a Marquesa de Merteuil (de Ligações Perigosas, livro do francês Pierre Choderlos de Laclos, de 1782); Elizabeth Benneth (de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen); Jane Eyre (do romance de Charlotte Brontë, de 1847); e Anna Kariênina, do livro de Liev Tolstói.


 

Italo Calvino


Em Frantumaglia, Ferrante usa o autor italiano Italo Calvino para defender sua própria privacidade. Calvino era um ferrenho defensor da tese de que tudo que um escritor tem a dizer se encontra na própria obra que ele escreve.

 

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Quem é Elena Ferrante?

Identidade da escritora, que tem novo livro, 'A Vida Mentirosa dos Adultos', publicado no Brasil no dia 1º de setembro, é um mistério

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 10h00

 

O fascínio provocado nos leitores pela sua prosa é semelhante à curiosidade sobre sua verdadeira persona: Elena Ferrante é notoriamente um pseudônimo, uma assinatura que esconde uma figura cuja opção sexual também se desconhece, mas que inspira muita especulação. Acredita-se que tenha mais ou menos 50 anos; que seja mulher e italiana de Nápoles, uma vez que livros como a série napolitana trazem uma descrição detalhada da cidade e de seus costumes. E que, ao contrário da busca pelo reconhecimento, prefere o anonimato. Já se disse ser um homem e também uma tradutora. Apenas seu editor italiano Sandro Ferri conhece sua real persona.

Por meio de suas obras, é possível notar que Elena Ferrante ostenta um sólido conhecimento de autores clássicos gregos e latinos – percebem-se também traços da escrita de Chekhov e Jane Austen, além da confessa admiração por Elsa Morante, nas raras entrevistas que concedeu (sempre por e-mail). Sua carreira literária começou nos anos 1990, com livros como Crônicas do Mal de Amor e o best-seller (na Itália) Um Amor Incômodo.

 

 

O estrondoso sucesso mundial só aconteceu, no entanto, em 2011, quando foi publicado na Itália o romance A Amiga Genial, iniciando a tetralogia napolitana. Vertida pela HBO em série de TV, A Amiga Genial inicia uma saga com diversas alusões à história italiana, ambientada em um pequeno canto de Nápoles. Tais características poderiam ter limitado o interesse da obra em outros países, mas o quarteto napolitano de romances foi publicado em 48 países e vendeu 16 milhões de cópias em todo o mundo.

Elena tornou-se uma referência planetária, despertando interesse não apenas pela qualidade literária (feito que conquistou a rara aprovação de público e crítica), mas também pela especulação em torno de sua real identidade. Em 2016, o jornalista italiano Claudio Gatti fez investigações que o levaram a acreditar que Elena Ferrante seria, na verdade, Anita Raja, que trabalha como tradutora na editora Edizione E/O, que publica os livros de Elena. Outro detalhe que reforçaria a tese é que Anita é mulher de Domenico Starnone, um dos mais prestigiados autores da editora. Gatti chegou a essa conclusão por meio de números: ao comparar o enriquecimento do casal, ele afirmou haver uma coincidência com o faturamento provocado pela venda das obras da tetralogia.

 

 

Em sua apuração, Gatti dissecou todos os relatórios de finanças da Edizione E/O, unindo, assim, pontas soltas da investigação. Confiante de que sua tese estava correta, o repórter publicou suas descobertas simultaneamente em quatro veículos de comunicação, de distintos países: Il Sole 24 Ore (Itália), Frankfurter Allgemeine Zeitung (Alemanha), Mediapart (França) e The New York Review of Books (Estados Unidos), que serviu de ponte para a republicação em jornais e revistas do mundo. A polêmica, porém, foi tamanha que a Review of Books publicou depois uma nota se isentando da investigação, afirmando que apenas repassou a matéria para outras publicações.

Por fim, houve até quem insinuasse que Starnone seria, de fato, o autor dos livros de Elena. O casal primeiro negou, e depois silenciou.

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Por que Elena Ferrante é um fenômeno?

Novo livro da escritora italiana, ‘A Vida Mentirosa dos Adultos’ chega ao Brasil no dia 1º de setembro. Fomos entender o que alimenta a ‘Febre Ferrante’

Ana Carolina Sacoman e Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 10h00

O que forma o caldeirão de onde emerge a “Febre Ferrante”? Quais são os ingredientes que a escritora italiana dosa com tanta precisão a ponto de arrastar atrás de si milhões de leitores apaixonados - e, sim, alguns detratores - nos quatro cantos do mundo? O que, afinal, faz dessa figura misteriosa que escreve sob pseudônimo um fenômeno em plena era do espetáculo? Elena Ferrante volta agora aos holofotes, sem mostrar a cara, com a publicação de seu novo livro, A Vida Mentirosa dos Adultos (Intrínseca), no dia 1.º de setembro no Brasil. 

“Elena escreve bem, pratica boa literatura e consegue fascinar com personagens comuns”, afirma outra craque do assunto, Maria Adelaide Amaral, escritora, dramaturga e membro da Academia Paulista de Letras. “Aquele ambiente de Nápoles, para quem conhece, é muito familiar: os sons, o dialeto. Eles têm as características dos gregos, que não medem esforços para conseguir o que desejam. Há um paroxismo nos sentimentos, pois levam às últimas consequências o amor e o ódio. A pobreza embrutece aquelas pessoas”, diz Maria Adelaide, para quem esse tipo de literatura faz falta atualmente. “Há muito texto esquemático, que segue regras, mas que não desperta paixão nos leitores como faziam Jorge Amado, Gabriel García Márquez.”

Quase todos os livros de Elena Ferrante se passam em Nápoles, a caótica cidade à sombra do Vesúvio, no sul da Itália. Em uma era pré-pandemia, o bairro operário de Rione Luzzatti, que inspirou o cenário da tetralogia napolitana, seu maior sucesso até agora, virou inusitado ponto de peregrinação de turistas-leitores atrás dos rastros de Lila e Lenù, as personagens principais. Ali a violência social e familiar, a falta de perspectiva da classe operária e o papel da mulher, sempre forçada ao segundo plano, ganham rostos e vozes e se tornam universais.

“Apesar de bastante situada no contexto histórico-social, a gente vê que ela trata de temas universais, como infância, adolescência, amizades e mobilização de afetos de todo tipo: amor, ódio, inveja, rivalidade, hostilidade. São temas que atravessam de alguma forma a história da humanidade”, afirma Belinda Mandelbaum, professora de Psicologia Social da USP e autora de livros como Psicanálise da Família (Editora Artesã). Para ela, a escrita potente de Ferrante, entre a literatura pop e a alta literatura, favorece essa identificação. “É uma linguagem muito direta, muito transparente, que acho que permite esse acesso direto à interioridade de cada um, como se o livro ajudasse as pessoas também a nomearem seus próprios afetos, suas histórias e seus traumas.”

O escritor Cristovão Tezza, autor de O Filho Eterno (Record) e A Tensão Superficial do Tempo (Todavia), entre outros livros, aponta a aparente dualidade da escrita de Ferrante como elemento fundamental na construção do sucesso editorial. “É uma prosa limpa, enraizada na tradição convencional mas muito forte do realismo social italiano e, no caso dela, temperado pelo arcaísmo napolitano. E tem uma tonalidade contemporânea, que é o olhar narrativo de hoje sobre a questão da mulher na formação das gerações anteriores. E as figuras são densas, e não caricaturas. É boa literatura. Não tenho nenhum preconceito contra uma boa história, bem contada.”

Raphael Montes, autor de Jantar Secreto e Uma Mulher no Escuro (ambos pela Companhia das Letras), também fala da escrita que, na opinião dele, “flerta com o melodrama à la italiana”. “Acredito que ela escreve muito bem, tem frases potentes, flerta com o melodrama, mas sem nunca assumir isso. Talvez o sucesso esteja aí, nesse ‘melodrama velado’”, diz.

 

A polêmica do pseudônimo

 

E o pseudônimo? Quanto a vontade de permanecer oculta enquanto quase todo o resto do mundo quer o seu quinhão de fama tem influência em manter a Febre Ferrante acesa e acima dos 40 graus? A julgar pelas reações às tentativas de revelar a identidade da escritora, pouca ou nenhuma. 

Em 2016, o jornalista Claudio Gatti revelou que Anita Raja, uma tradutora, mulher do escritor italiano Domenico Starnone, seria a verdadeira Ferrante - o que Anita nega. Outras linhas de investigação apontam para o próprio Starnone ou ainda para uma escrita a quatro mãos, feita pelo casal. A revelação provocou uma onda de protestos de fãs e intelectuais, o que obrigou a prestigiosa revista americana The New York Review of Books, um dos veículos que publicaram a reportagem, a soltar um esclarecimento na linha “não financiamos a investigação, apenas a reproduzimos”. 

“Esse é um furo de um jornalista que não está interessado em literatura. Quem é Elena Ferrante não é importante, e sim seus livros”, afirmou na época o escritor italiano Nicola Lagioia ao El País. “Um escritor tem o direito de dizer coisas que não são verdade, não é um político”, disse na ocasião. 

Também para a pesquisadora Fabiane Secches, estudiosa da obra da italiana e autora do livro Elena Ferrante - Uma longa experiência de ausência (Claraboia), a questão não parece central. “Na sociedade do espetáculo, num mundo em que há o que podemos chamar de ‘excesso de presença’, a ausência da figura da autora nos moldes tradicionais tem sido bastante discutida pela imprensa e pelos leitores. Apesar disso, o tema não chega a ofuscar a potência de sua obra. Em outras palavras: não acredito que o mistério em torno da autoria seria o bastante para sustentá-la como o fenômeno literário que é”, diz.

A psicanalista e escritora Ana Suy Sesarino Kuss aponta o mistério como elemento fundamental na obra de Ferrante, mas não aquele advindo do pseudônimo, o que torna a coisa toda ainda mais intrigante.

“Tem uma coisa tão misteriosa nela, que não é um mistério no sentido mais consciente, de não saber quem ela é, mas no quanto ela consegue escancarar algumas coisas. Quem é essa pessoa que consegue escrever de modo tão escancarado sobre o que para nós são coisas tão encobertas, estranhas?”, afirma.

 

 

 

Além da tetralogia napolitana

 

E é possível gostar de Elena Ferrante sem ter lido uma só linha das mais de 1,7 mil páginas da série napolitana ou, pior, sem gostar da obra mais conhecida e adorada da italiana? Na opinião do escritor Marçal Aquino, sim, tranquilamente.

“Sou fã só da ‘literatura adulta’ da Elena Ferrante, e aqui falo, acima de tudo, de Dias de Abandono (Biblioteca Azul), para mim o ponto mais alto da escrita dela. Um livro que conheci em Portugal faz muitos anos, que me fascinou e assustou, e que já reli algumas vezes. Não gosto da tetralogia napolitana, me parece um ponto abaixo do que a Elena vinha escrevendo. Um amigo livreiro me disse que, comparado a Dias de Abandono, parece ‘literatura juvenil’. Eu não chegaria a tanto, mas não foram livros (li apenas dois) que deixaram algo em mim – ao contrário do Dias…”, afirma o autor de Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios (Companhia das Letras), entre outras obras. “À parte a inegável qualidade da escrita, acho que são livros que estavam sendo esperados por um grande número de leitores, e isso me parece o mais importante.”

De 2002 - anterior, portanto, à tetralogia napolitana, que vai de 2011 a 2014 -, Dias de Abandono, apontado por Aquino, é o segundo romance de Ferrante. Ele narra o fim do casamento sob o ponto de vista da mulher, Olga, que se vê presa em seu apartamento com os dois filhos e busca motivos para o fim da relação. Foi publicado no Brasil só em 2016. 

A narrativa, um tanto angustiante e dolorida, tem mais fãs entre os escritores brasileiros. “Dela eu só li Dias de Abandono. Foi maravilhoso. Um ritmo vibrante, uma primeira pessoa bem construída, calcada na angústia e no desespero dessa mulher, e que depois se transforma lindamente, quando o amor pelo ex-marido acaba e ela volta a viver, outra vez. O que me pegou no Dias de Abandono foi justamente a sua linguagem direta e verdadeira. E seu punho forte na escrita”, aponta Aline Bei, autora de O Peso do Pássaro Morto (Nós).

 

 

 

Longe do fã-clube

 

E, claro, tem quem não goste de Ferrante, leitores que não passaram de A Amiga Genial, o primeiro livro da série napolitana, ou que não se identificam com os elementos apontados até aqui.

“Comecei a ler o primeiro romance da saga e nem sequer terminei. Pareceu-me tradicional, antigo e muito falso. Não me interessou em nada”, afirma a escritora espanhola Rosa Montero, autora de A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver (Todavia), entre outros.

Também “antigo” é como o escritor e tradutor Joca Reiners Terron vê a obra da italiana. “Como leitor, tenho algumas implicâncias severas com romancistas que usam muito explicitamente algumas convenções novelísticas que identifico com o século 19, com aquele realismo tipo Dickens que promete implicitamente ao leitor toda sorte de peripécia e sofrimentos do personagem, porém garantem (de antemão) um final feliz. Me parece ser o caso da Ferrante”, diz Terron, autor de Do Fundo do Poço se Vê a Lua (Companhia das Letras), entre outras obras.

A poeta Marina Colasanti, autora do recente Mais Longa Vida (Record) dá a sua sentença: “Não consegui ler nenhum livro da Elena. Parecem escritos para virar roteiro: diálogos, diálogos – e longas descrições”.
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Alberto Bombig: Ferroado pela Ferrante

Editor executivo do ‘Estadão' explica por que gosta da obra da misteriosa escritora italiana: 'Com Ferrante, as palavras voltaram a viver, a sair das páginas para serem ditas em nossos ouvidos'

* Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 10h00

Elena Ferrante escreve bem, a temática de suas obras é digna, seus livros têm profundeza psicológica, amplitude social e densidade intelectual. Resumidamente, são bons na forma e no conteúdo. 

Claro, uns leitores podem gostar mais, outros, menos, outros podem nem gostar. Mas é boa literatura e isso não se discute. Ponto. A menos que o conceito de literatura seja medido apenas pelas réguas do experimentalismo radical, do academicismo sectário ou do fracasso inebriante que tantas vezes sobe à cabeça de alguns críticos e escritores. 

Até aqui, nada de muito especial na obra de Ferrante porque sempre há literatura de qualidade sendo produzida em qualquer canto (no Brasil, por exemplo, vejam só) por gente jovem ou velha, homens, mulheres ou transgêneros, ricos ou pobres, apocalípticos ou integrados. Então, o que diferencia os livros de Elena Ferrante e os torna especiais? Eles possuem algo que falta para muitos outros, muitos: eles são lidos, são devorados em todo o mundo por nuvens de ávidos gafanhotos-leitores. As mensagens de Ferrante alcançam receptores e a mágica se completa. 

Em suma, são um sucesso, palavra que dá calafrios em gente avessa a ver a literatura ficcional pareando com as novelas, as séries e demais produções audiovisuais que arrastam fãs noites adentro. Como se o fato de ser consumida em larga escala simplesmente bastasse para decretar o status de uma obra: muita gente gosta? Então, fuja, não presta. O exclusivismo sempre foi e será um refúgio de pseudointelectuais.     

Elena Ferrante, seja lá quem ela for, encontrou no conteúdo uma temática tocante, a vida composta de sangue menstrual, suor de operárias e lágrimas apaixonadas das mulheres dos séculos 20 e 21. Na forma, fincou sua prosa no ultrarrealismo, que andava meio esquecido após décadas de uma literatura voltada ao esoterismo fútil numa ponta e às divagações intelectuais sobre seu próprio umbigo na outra. Com Ferrante, as palavras voltaram a viver, a sair das páginas para serem ditas em nossos ouvidos. 

Não tenho dúvidas de que o correr do tempo atropelará divergências e servirá para envernizar o que ainda parece rústico aos olhos desatentos. Reservará à Tetralogia Napolitana o merecido título de um dos mais belos painéis literários sobre o pós-guerra europeu. Fui ferroado pela Ferrante, assim como foram minha mãe, minhas tias, minha sogra, minhas amigas do trabalho, meu dentista, o porteiro do edifício... Eis a mágica da literatura.

 

* É editor executivo no ‘Estadão’  

 

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Lucia Wataghin: Não há nada de novo em sua escrita

Nem todo mundo gosta de Elena Ferrante. A professora de Literatura Italiana na USP é uma das que não gosta e expõe seus argumentos

* Lucia Wataghin, Especial para o Estado

28 de agosto de 2020 | 10h00

Nem todo mundo gosta de Elena Ferrante. Mesmo muitos dos leitores que estimaram seu primeiro livro, L´amore molesto (1992) - que teve, na época, atestados de favor e apreço do público e da crítica -, rejeitaram a A Amiga Genial. Essa última foi publicada em quatro volumes, entre 2011 e 2014, e, ao longo dos anos, também em traduções em 50 países, com mais de 12 milhões de cópias vendidas, e acompanhada por intensos debates da crítica, a favor e contra. A crítica desfavorável notou que, nos anos que separam os primeiros livros de Elena Ferrante da quadrilogia, sua escrita se transformou, abandonando uma certa ideia de literatura, inovativa e não condescendente, para se tornar a língua de um best-seller mundial, próxima do “tradutês” – aquela “língua desimpedida, tranquilamente brilhante e moderadamente letrada das traduções” (Giuseppe Antonelli), distante, o mais possível, de inovações e experimentações. Nessa língua é narrada, em forma de feuilleton, a história da amizade decenal de duas mulheres, com pontual suspense no final de cada capítulo, além de muitos ingredientes capazes de despertar o interesse do público, como a aguda análise psicológica de perfis femininos (mas também masculinos) e a ambientação cuidadosa, especialmente napolitana. O olho infalível dos americanos intitulou a inteira saga Neapolitan Novels, atraindo o público para o “local”, que se torna “global” (“glocal”, segundo Massimo Fusillo) nessa obra, excelente produto da world fiction - entre os atributos da world fiction está a maleabilidade, a capacidade de se adaptar a outros meios, como televisão e cinema, com acontece com A Amiga Genial

Um best-seller, portanto, muito bem confeccionado, que rejeita deliberadamente a ideia de “literatura” em nome da “vida”: Ferrante luta com “obstinado desapreço” contra a “superavaliação da escrita literária”, porque “há muitas outras coisas que merecem uma dedicação sem limites” (Frantumaglia). Ela também conta, ainda em Frantumaglia, de seu amor de adolescente por romances melosos e fotonovelas – um repertório, escreve, “cheio de prazer, que por anos reprimi em nome da literatura”. A afirmação interessa pelo gosto provocatório e pela insistência no princípio do predomínio do enredo sobre língua, estilo e outras considerações: do enredo e de toda uma máquina narrativa capaz de induzir a identificação do leitor e manter sua atenção até o final do volumoso feuilleton. E é um sinal da afirmação da posição de marginalidade e exclusão do mundo masculino - a posição da qual suas protagonistas e sua narradora olham para o mundo. Marginalidade é palavra-chave também na posição de Ferrante em relação à literatura: ela declara sua auto-exclusão desse mundo e se apresenta como voz feminina “marginal”, afirmando, com sua obra, que é possível transformar a exclusão feminina do poder – e, com ele, da “alta literatura”- num ponto de força.

Mas isso é possível? Não vemos nada de novo na sua escrita, nenhuma novidade nem mesmo em sua leitura da condição feminina, que já foi lida com maior agudeza e força por escritoras e escritores na história. A autora declarou (L’invenzione occasionale, 2019) que tem por objetivo “contribuir a fortalecer uma nossa genealogia artística que aguente, por inteligência, fineza, competência, riqueza de invenção e densidade emotiva, o confronto com  a masculina”. Sem dúvida, sua contribuição à genealogia da escrita feminina existe; não sabemos em que medida possa ser considerada positiva. 

Elena Ferrante tem pouco a ver com a literatura contemporânea; suas qualidades de narradora são reconhecidas, mas sua voz parece provir “de um livro dos anos 50” (Paolo di Paolo); a quadrilogia é “um ótimo produto”, mas “retrô”, distante das “inquietações estilísticas, estruturais, epistemológicas da melhor narrativa de hoje” (Massimo Onofri). Há várias leituras feministas de sua obra, muitas de caráter descritivo ou exegético (afinal, tudo precisa de explicação), gratas pela análise da psicologia social e pela denúncia da condição de opressão feminina que se confirma global, aos olhos das leitoras do mundo inteiro. Mas essas leituras, embora favoráveis, também confirmam a dificuldade em encontrar qualidades fortes, fora da world fiction, no estilo de Elena Ferrante. 

* É professora de Literatura Italiana na USP

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