Reprodução/Vitor Cafaggi
Reprodução/Vitor Cafaggi

HQ retrata as vivências de um alienígena transformado em humano na terra

O livro 'Um Cara Que Caiu do Céu (E Não Conhecia a Vida)' é um trabalho coletivo, roteirizado por Challes Lucena e ilustrado por 22 artistas de todo o Brasil

Amilton Pinheiro, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 05h00

Charlles Lucena começou a aprender a ler nos livrinhos infantis e gibis da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa, que seus pais, Edson e Luciene, davam para ele, quando tinha por volta dos 5 anos. O gosto pelas histórias em quadrinhos veio dessa época, como também os primeiros traços de personagens que criou. “Mauricio de Sousa abriu um universo na minha cabeça, tomei gosto pelas histórias que eram contadas naqueles quadradinhos com desenhos e diálogos, que faziam a síntese do mundo que eu conhecia naquela época”, diz o hoje psiquiatra, que mora e trabalha em João Pessoa, na Paraíba, onde nasceu.

As circunstâncias da vida o fizeram abandonar o desenho, mas não o universo das HQs, que só vem aumentando, principalmente após a descoberta de autores estrangeiros, entre eles, Charles M. Schulz (1922-2000), o criador da série Peanults e dos personagens Charlie Brown e Snoopy, e, principalmente, o inglês Alan Moore, autor de Watchmen, A Liga Extraordinária e V de Vingança, entre muitos outros. 

“O cartunista americano Charles Schulz abordava temas dificílimos com muita profundidade e uma delicadeza absurda, sem falar que ele conseguia atingir qualquer tipo de público. Mas meu autor predileto das HQs, hoje, é Alan Moore, com sua maneira de explorar de forma singular temas como totalitarismo e distopia”, revela ainda Lucena.

Mesmo depois do exercício da psiquiatria, Charlles Lucena, não deixou de ser leitor voraz das HQs, agora mais direcionadas aos temas adultos. No seu consultório, ele também passou a lidar e aprender com as histórias dos seus pacientes e com as múltiplas facetas da mente humana. 

A necessidade de contar uma história no formato de quadrinhos já era um sonho que acalentava há vários anos, mas ele adiava por causa da profissão e da família, a mulher e os dois filhos. Se os desenhos ficaram na infância, sua mente continuava a criar histórias incessantemente. E uma delas foi a do roteiro do livro Um Cara Que Caiu do Céu (e Não Conhecia a Vida), que, segundo ele, nasceu facilmente. “Escrevi o roteiro já com os diálogos, porque tinha a ideia da trama na cabeça há algum tempo”, conta.

Na narrativa de Lucena, um alienígena chega à Terra e se metamorfoseia em ser humano com o objetivo de sentir as emoções das pessoas e delas extrair suas experiências. “Na verdade, eu queria contar um ciclo de vida de uma pessoa e usei a analogia de um alienígena. A história acompanha a vida inteira de uma pessoa comum, com suas doses de desilusões, esperanças, amores, êxitos, prazeres, etc.”, explica o autor.

Charlles mandou o roteiro pronto para 22 desenhistas que ele conhecia em todo o País e cada um deles ficou com a incumbência de fazer uma ilustração, retratando como eles enxergavam a história e o personagem central. “Não houve controle editorial, queria que as ilustrações refletissem a liberdade criativa do projeto inicial. Usei o alienígena e sua capacidade de mudar de rosto como artifício para os traços individuais que cada ilustrador faria”, reflete também.

O filme. O título do livro em quadrinhos remete ao filme O Homem Que Caiu na Terra, ficção científica dirigida por Nicolas Roen, em 1976, e estrelada pelo cantor-ator britânico David Bowie (1947-2016), que está em cartaz em São Paulo (leia mais abaixo).

“Nunca assisti ao filme de David Bowie, mas é um título muito forte, que fica no inconsciente das pessoas. Talvez o título Um Cara Que Caiu do Céu possa lembrar o filme, mas não foi proposital. O nome do quadrinho tem o efeito de uma sinopse, passando ao leitor a real noção do que encontraria na leitura a seguir.”

Mas se o filme de Bowie não foi a inspiração direta para o livro, com certeza o álbum do artista, Ziggy Stardust, ançado em 1972, foi uma referência de fato, garante Lucena. “As músicas desse disco antológico serviram como fonte para criar o enredo da minha história.”

Um das músicas do álbum, Starman, fala de um homem (alienígena) que fica no céu observando os habitantes da Terra, mas, nas verdade, ele gostaria de descer, porém teme confundir a mente dos terráqueos. Já o personagem criado por Charlles Lucena tem o poder de se transformar em humano, assim que chega ao planeta. E aqui ele será um homem comum, com todas as fragilidades inerentes a qualquer ser humano. Mas diferentemente das histórias clássicas da jornada do protagonista que aprende com a vivência, o personagem criado por Lucena é um errante preso ao deleite dos prazeres.

UM CARA QUE CAIU DO CÉU (E NÃO CONHECIA A VIDA)

Autor: Charlles Lucena

Ilustrações: 22 Artistas

Editora: Do Autor (42 págs., R$ 28)

Comix Book Shop

Al. Jaú, 1998, 3088-9116


ALIENÍGENAS EM CONFLITO COM OS PRAZERES HUMANOS


Fonte de inspiração, o filme Um Homem Que Caiu na Terra volta às salas para comemorar os 70 de David Bowie

O cantor britânico David Bowie conseguiu o seu primeiro papel de protagonista no filme O Homem Que Caiu na Terra, de Nicolas Roeg, em 1976, que narra a história de um alienígena que vem à Terra em busca de água, uma vez que o precioso líquido escasseou em seu planeta. 

O longa voltou aos cinemas com cópia restaurada para comemorar os 70 anos de nascimento do artista, em janeiro, mesmo mês de sua morte (no ano passado).

O alienígena Thomas Jerome Newton, vivido por Bowie, aproveita sua estada na Terra e se transforma em um milionário detentor de patentes, descobrindo os prazeres mundanos e as tentações da carne. Atitude semelhante ao do personagem sem nome, criado por Challes Lucena, para o livro Um Cara Que Caiu do Céu (e Não Conhecia a Vida).

O alienígena sem nome descobre os prazeres carnais na bela figura de Tereza, que ele ambiciona ter para sempre. Ela, porém, desaparece sem explicações. O personagem é consumido pela dor da perda e entra em uma espiral de destruição, com o consumo de álcool e drogas. “O ressentimento pela perda das ilusões depositadas traz um profundo desejo de destruí-la. E eu a odeio. Tereza. O que me consome não é o abandono, mas, sim, a dúvida”, diz o personagem. / A.P.

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