AFP PHOTO / BEN STANSALL
AFP PHOTO / BEN STANSALL

Prisioneiro de Guantánamo detalha tortura em livro escrito da prisão em Cuba

Relato escrito por Mohamedou Ould Slahi foi publicado após uma batalha legal de sete anos

Reuters

22 Janeiro 2015 | 17h29

WASHINGTON, D.C. - O primeiro livro publicado por um prisioneiro de Guantánamo, que descreve 13 anos de episódios de tortura, humilhação e desespero, tornou-se um sucesso de vendas nos Estados Unidos, atraindo uma incomum atenção para o caso do autor.

O relato escrito por Mohamedou Ould Slahi a partir da base naval dos EUA em Cuba, Guantanamo Diary ("Diário de Guantánamo"), foi lançado na terça-feira, 20, após uma batalha legal de sete anos.

O livro reconstitui banhos de gelo, degradações e humilhações diversas num relato em primeira pessoa sobre os interrogatórios aos quais Slahi foi submetido durante a guerra dos EUA contra o terrorismo, ainda que ele nunca tenha sido acusado de qualquer crime.

Um tribunal federal norte-americano ordenou a libertação de Slahi, de 44 anos, em 2010, mas a decisão nunca foi cumprida e ele permanece encarcerado.

A publicação do livro coincidiu com o discurso de Estado da União proferido pelo presidente dos EUA, Barack Obama, sete anos depois de o presidente democrata ter prometido fechar a prisão em Cuba durante seu primeiro ano de mandato. Tais esforços acabaram bloqueados por parlamentares que consideraram os prisioneiros uma ameaça à segurança nacional.

O manuscrito de 466 páginas de Slahi foi inicialmente classificado como documento secreto pelo governo dos EUA e passou por uma edição forte antes da publicação.

"Ele é um homem inocente. Ele permanece detido ilegalmente e deveria ser a pessoa a contar sua história. Sem censura", disse a advogada de Slahi, Hina Shamsi, da União Americana pelas Liberdades Civis.

Guantanamo Diary ficou entre os 100 livros mais vendidos da Amazon e entrou na lista dos 50 mais vendidos da livraria Barnes&Nobles nesta quarta-feira.

"Está à venda há apenas um dia, mas o meu telefone não para de tocar, então obviamente que o livro está chegando às pessoas do jeito que gostaríamos", disse a agente Liz Garriga, da Hachete Book Group, companhia à qual pertence a Little, Brown and Co, editora da obra.

Shamsi disse que o suplício de Slahi é mais do que a prova de que a tortura não funciona. Ela citou um trecho no qual ele descreve seus interrogadores como dizendo: "Tudo que você tem que dizer é 'Eu não sei', 'Não me lembro', para a gente te ferrar."

A família de Slahi organizou uma entrevista coletiva em Londres na terça-feira para pedir sua libertação, ao mesmo tempo em que o livro era lançado na Grã-Bretanha. Várias celebridades, incluindo os atores Stephen Fry e Colin Firth, fizeram gravações publicadas on-line de trechos do livro.

Fry leu a descrição de Slahi sobre seu tratamento fora de Guantánamo, quando se encontrava nas mãos de indivíduos árabes que cumpriam ordens dos norte-americanos: "Eles preencheram o espaço entre minhas roupas e eu com cubos de gelo, do pescoço ao tornozelo, e sempre que o gelo derretia, colocavam cubos novos e duros. De vez em quando um dos guardas batia em mim, a maioria das vezes na cara."

Slahi, natural da Mauritânia, disse que se entregou às autoridades três semanas depois dos ataques de 2001, sendo levado para a Jordânia, onde foi interrogado por vários meses antes de ser enviado ao Afeganistão e então a Cuba, de acordo com transcrições de seu processo judicial militar nos EUA.

Slahi foi descrito pela comissão responsável pela investigação dos atentados de 11 de setembro de 2001 contra o World Trade Center e o Pentágono como "um importante operador da Al Qaeda" que ajudou a organizar a viagem de treinamento ao Afeganistão de membros da célula de Hamburgo, na Alemanha, incluindo dois dos sequestradores do 11 de setembro e o companheiro de quarto de um terceiro (Mohamed Atta).

Mais conteúdo sobre:
Guantanamo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.