Renato Parada/Divulgação
Renato Parada/Divulgação

Primeiro romance de Tércia Montenegro discute crueldade e sofrimento

‘Turismo para Cegos’ traz a história de um casal que passa por dificuldades pungentes com a cegueira iminente da mulher

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2015 | 14h00

O título do novo livro da escritora cearense Tércia Montenegro é carregado de ironia. O Turismo para Cegos é ridicularizado pela própria narradora: “Laila se inflamava com o caso dos cegos e a sua ilusória ‘inclusão’. (...) Ela era deficiente sensorial, física ou intelectual? Neste último conjunto com certeza não estava, porque jamais seguiria, como uma imbecil, passeios monitorados e traduzidos em enganação de sentidos”.

O primeiro romance da escritora, publicada agora pela Companhia das Letras, conta o doloroso processo pelo qual o casal principal – Laila e Pierre – é submetido por conta da cegueira iminente da mulher. O enredo é bastante próximo ao de Sangue no Olho, romance da chilena Lina Meruane que a Cosac Naify lançou por aqui. Outra semelhança é a busca que as duas escritoras propõem no sentido de retratar uma pessoa que passa por um processo desses como o que ela é: uma pessoa qualquer, sujeita a todos os desvios de caráter, vilezas e crueldades.

“A proposta do livro é essa: discutir até que ponto o sofrimento de uma pessoa justifica que ela faça os outros sofrerem”, afirma Tércia, por e-mail, ao Estado. “Laila torna-se cruel à medida que sua doença ocular avança. Entretanto, os demais personagens também não são completamente submissos, ninguém é vítima por completo. Não há inocentes.”

Há ainda outra personagem fundamental no livro: a narradora, uma escritora principiante que trabalha numa pet shop – sua história cruza com a do casal por acaso, quando eles compram um cão-guia (e quão significativo é o fato de Laila apelidar o labrador de “Pierre”).

Tércia estreou na literatura em 1998 com O Vendedor de Judas – de lá para cá, foram dois livros antes de O Tempo em Estado Sólido, publicado pela Grua em 2012, vencedor do prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura e finalista do Jabuti e do Portugal Telecom. Turismo para Cegos foi selecionado pelo programa Petrobrás Cultural.

O ponto-chave de Turismo para Cegos acaba se tornando a linguagem – Laila é artista plástica, e é muito interessante ver a sua relação com essa linguagem enquanto perde a visão, ao mesmo tempo em que a autora se sai bem-sucedida da tarefa de construir uma linguagem própria, sólida, que parece tentar emular as próprias artes plásticas. “A ideia do livro como objeto, também visual, para o deleite da vista, é uma tentativa de consolidar o tempo, fixá-lo numa obra”, comenta Tércia.

A ironia do título e o desprezo da personagem pelo “sensacionalismo” aplicado às pessoas com deficiência criam um debate interessante entre narradora e escritora. Diz a narradora, em um trecho do romance, atribuindo o pensamento a Laila: “Enquanto o planeta se destruía na maior velocidade possível, os mocinhos da propaganda apareciam com cartazes de uma atitude ecológica. (...) E toda a retórica da diversidade criara um léxico falsamente neutro para se referir a negros, gays ou deficientes, gerando polêmicas e projetos a se alastrar pelo mundo”.

“Nenhum léxico é neutro porque a palavra também não é inocente”, comenta Tércia. “Jamais haverá neutralidade num elemento linguístico, porque a língua se contamina dos afetos e complexidades do ser humano – ela é, como já se disse muitas vezes, processo e produto da criação humana.” Assim como esse belo e por muitas vezes cruel romance.

TURISMO PARA CEGOS

Autora: Tércia Montenegro

Editora: Companhia das Letras (224 págs., R$ 34,90)

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