Fabrizio Bensch/Reuters
Fabrizio Bensch/Reuters

Primeiro livro de Quentin Tarantino é uma bebida saborosa

Novelização de 'Era Uma Vez... Em Hollywood' segue trilha do filme com modificações

Dwight Garner, The New York Times

29 de junho de 2021 | 20h00

Usando uma frase de sua própria obra, o primeiro romance de Quentin Tarantino é uma bebida saborosa. É a “novelização” de seu próprio filme de 2019, Era Uma Vez... Em Hollywood (o título do livro omite as reticências). Ele foi publicado no formato de uma brochura para o mercado de massa da década de 1970, o tipo de livro que você costumava encontrar girando em uma prateleira de farmácia – no Brasil, a edição é da Intrínseca.

Tem um slogan retrô cafona: “Hollywood 1969... Você deveria ter estado lá!”. Se não fosse tão rechonchudo, com 560 páginas, daria para enfiá-lo no bolso de trás de uma calça de veludo cotelê queimada.

Tarantino não está tentando jogar aqui o que outro romancista e roteirista, Terry Southern, gostava de chamar de Jogo da Qualidade. Ele não quer nos impressionar com a complexidade de suas frases ou com as nuances de seus insights psicológicos. Ele está aqui para contar uma história, no estilo pegar-ou-largar de Elmore Leonard, e para abrir espaço ao longo do caminho para falar sobre algumas das coisas que lhe interessam: filmes antigos, camaradagem masculina, vingança e redenção, música e estilo. Ele entendeu uma coisa: cultura pop é o que a América tem no lugar de mitologia. Ele foi mordido logo cedo por essa ideia, e continuou assim mordido.

O romance é frouxo. Se fosse melhor, seria pior. Era Uma Vez em Hollywood segue a mesma trilha do filme. Alguns diálogos são similares, palavra por palavra. Mas o romance se afasta do filme de maneiras pequenas e grandes.

O final sanguinolento do filme, por exemplo, que culmina com o velho ator Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) incendiando um membro da família Manson com um lança-chamas, é dispensado, no início do romance, em algumas frases.

As mortes tornam Rick, que descobrimos ser bipolar, um famoso. Ele odiava hippies de qualquer maneira. Agora, se torna “um herói folclórico da ‘maioria silenciosa’ de Nixon” e um convidado regular no The Tonight Show de Johnny Carson. No entanto, de sua carreira de ator, ele se lembra de cada passo em falso, de cada mortificação, de cada desprezo.

Novas cenas da família Manson estão inseridas. Tarantino vai tão fundo na promissora carreira musical de Manson que dá para sentir que está lendo uma edição antiga da Rolling Stone ou da revista Mojo. Ele leva em consideração as danças “ooga-booga” de Charlie.

Também adiciona uma cena longa, sinistra e cinematográfica em que Pussycat (Margaret Qualley, no filme) entra em uma casa estranha, remove suas roupas, insere uma lâmpada vermelha em sua boca para que seus lábios fiquem “envolvendo a bobina de metal prateado” e sobe em direção ao quarto onde encontra um casal de idosos adormecidos.

Uma vez lá em cima, Pussycat coloca a lâmpada vermelha em um abajur, acende e pula gritando na cama do casal, assustando-o de uma maneira estúpida. Os Mansons se referiam a esses tipos de passeios “benignos” como “rastejamento assustador”.

Era Uma Vez em Hollywood é, no fundo, o romance de Cliff Booth. Ele (Brad Pitt no filme) é o dublê de Dalton. Sua história é preenchida. Na Segunda Guerra Mundial, ficamos sabendo, ele matou mais japoneses que qualquer outro soldado americano e ganhou a Medalha de Valor por duas vezes.

Ele está cheio de conselhos machistas, que dispensa ocasionalmente. Se você quer saber como é matar um homem, sem realmente matar um homem, Booth diz a Dalton, pegue um porco por trás e enfie uma faca em sua garganta. Em seguida, segure firme até que ele morra. É o mais próximo que você pode chegar legalmente.

Mesmo assim, Booth tem um lado sensível. É um obcecado por filmes. Muitas de suas opiniões se assemelham às de Tarantino. Há bons textos aqui sobre atuação, filmes estrangeiros, filmes B, cenas de sexo dos primeiros filmes e sobre diretores de ação na televisão.

Booth é um fã do ator Alan Ladd, por exemplo, porque: “Quando Ladd ficou louco em um filme, não agiu como um louco. Sentiu-se machucado, como um cara de verdade. Para Cliff, Alan Ladd era o único cara no cinema que sabia pentear o cabelo, usar chapéu ou fumar um cigarro”.

Algumas dessas opiniões soam talvez muito parecidas com as do próprio Tarantino: “Uma vez que Fellini decidiu que a vida era um circo, Cliff disse ‘arrivederci’”. Há uma lista de seus filmes favoritos de Akira Kurosawa. Descobrimos como Dalton e Booth se tornaram amigos. Booth o salvou de um incêndio, dizendo-lhe: “Rick, você está em uma poça d’água. Apenas caia”. Aprendemos como Booth conseguiu seu pitbull, uma estrela do filme. Ele recebeu o cachorro, um lutador campeão, para pagar uma dívida.

No filme, Booth se recusa a deixar o cachorro comer até que ele dê a primeira mordida em seu próprio jantar: macarrão com queijo de uma caixa. Sobre esse prato, Tarantino escreve: “As instruções dizem para adicionar leite e manteiga, mas Cliff acha que, se você pode adicionar leite e manteiga, pode comer outra coisa”.

Ah, e Booth matou sua esposa. No filme, esse ponto da trama é deixado em suspenso e tem sido muito debatido. Tarantino, felizmente, não se importa se você acha que Cliff é adorável. A cena do crime é absurda em seus excessos, é claro. Tarantino raramente desperdiça uma matança. A violência é a neve pela qual seus esquis deslizam. Ele sabe como preencher o retângulo da tela – ou uma página de um romance popular.

O casal está em um barco. Cansado de ser menosprezado, Booth, impulsivamente, atira em sua esposa de biquíni com uma arma de lança, que basicamente a rasga ao meio. Ele se arrepende imediatamente: mantém as duas partes dela juntas por sete horas, enquanto ele reconta amorosamente todo o relacionamento. Quando a Guarda Costeira chega e tenta movê-la, ela se desfaz e morre.

Naquele momento, eu desejei que ela – ou seja, sua metade superior – levantasse lentamente uma enorme arma e atirasse no descrente Cliff em sua testa de bronze. Bem, isso seria realmente um romance diferente.

Leia um trecho de 'Era Uma Vez em Hollywood'

“O alarme do ditafone na mesa de Marvin Schwarz emite um ruído. Os dedos do agente da William Morris mantêm a alavanca do aparelho pressionada.

‘Está tocando para me avisar sobre a reunião das dez e meia, Srta. Himmelsteen?’

‘Isso, Sr. Schwarz’, diz a voz de sua secretária pelo pequeno alto-falante. ‘O Sr. Dalton está aguardando aqui fora.’

Marvin pressiona a alavanca novamente.

‘Pode mandá-lo entrar quando você quiser, Srta. Himmelsteen.’

Quando a porta do escritório de Marvin se abre, sua jovem secretária, a Srta. Himmelsteen, é a primeira a entrar. É uma jovem de 21 anos meio hippie.”

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