Alex Welsh|The New York Times
Alex Welsh|The New York Times

Primeiro livro de Garth Risk Hallberg mergulha na Nova York dos anos 1970

Romance 'Cidade em Chamas' explora a bruma da cidade com trama habilidosa, e chega ao Brasil depois de fazer barulho nos EUA

Entrevista com

Garth Risk Hallberg

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2016 | 05h00

Nova York, anos 1970: a cidade e o período são temas irresistíveis de ficção de vários formatos, e, por isso mesmo, quando vem algo com essa etiqueta, a expectativa é grande. No caso do escritor nascido na Louisiana Garth Risk Hallberg, ela foi enorme: antes mesmo de publicar Cidade em Chamas, em outubro de 2015 (cuja tradução chega agora ao Brasil, pelas mãos de Caetano W. Galindo), o produtor Scott Rudin comprou os direitos do livro, e houve um adiantamento de US$ 2 milhões da editora americana – essa é sua estreia na ficção.

Igualmente enorme é o romance: a edição brasileira tem 1.040 páginas – 94 capítulos, um prefácio e um pós-escrito, seis interlúdios (que vão de um livro-reportagem a um zine escritos por personagens) que contam histórias que vão se entrelaçando, concentradas entre o bicentenário dos EUA, julho de 1976, a um célebre blecaute pelo qual Nova York passou no dia 13 de julho de 1977.

Os personagens rondam em torno dos Hamilton-Sweeney, magnatas da cidade, e dos herdeiros William III (que vira Billy-Três-Paus na sua fase punk) e Regan. E aí tem um moleque do subúrbio viciado em David Bowie, um jornalista que quer ser o próximo Capote, um professor de escola infantil, um fogueteiro, e muitos, muitos outros. Falando por telefone de Barcelona, na turnê europeia para divulgar o livro, Garth Risk Hallberg conversou com o Estado.

Por que New York City?

Encontrei NY pela primeira vez em livros, porque eles eram meu escape – ou talvez a causa do meu senso de deslocamento. É difícil dizer se você lê para deixar de se sentir um exilado, ou se você é um exilado porque lê. NYC, aos 17, era simplesmente mágico. Mesmo no meio dos anos 1990. Tenho acompanhado o que está acontecendo no Brasil nos jornais, e estou certo de que está acontecendo alguma transformação por causa da Olimpíada, uma tentativa de se apresentar uma face bastante ordeira para o mundo… NY estava fazendo isso nos anos 1990, mas você ainda podia sentir as tensões e os traços desse outro período, os anos 1970. Era também a NY que eu ouvia nos discos punk originais. Eu curtia Lou Reed e o Velvet Underground desde que era criança, mas depois, quando ouvi Fugazi, que é a minha música nos anos 1990, comecei a explorar, e aí você encontra Patti Smith, Television, Talking Heads, o som daquela distopia/utopia urbana, misturadas. Parecia conter um monte de possibilidades. 

Por que esse período parece fazer as pessoas nostálgicas?

É um tipo estranho de nostalgia, porque ela, geralmente, olha para o passado e limpa as arestas difíceis. Em 2003, quando surgiu a ideia do livro, parece que, em vez de apresentar um contraste nostálgico com o tempo presente, imaginei que os 70 fossem um espelho para o tempo presente. Novamente, estamos vivendo com uma sensação de estar chegando perto da destruição, da desordem, da vulnerabilidade, mas também temos um senso estranho de liberdade. Então, é menos olhar para trás e dizer que hoje poderia ser igual, e mais olhar e dizer, bem, é meio que igual. 

Em um de seus ensaios, você cita um certo grupo “Conversazioni”, se referindo a uns vídeos de David Foster Wallace, Jonathan Franzen, Jeffrey Eugenides e Zadie Smith. Você se considera relacionado a este grupo?

É que simplesmente essas eram as pessoas que estavam fazendo o trabalho que parecia mais ambicioso no sentido de engajar com a tradição de um lado e com o mundo em que vivemos de outro. Gosto muito deles, e pareceu que houve ali um consenso de que a ficção é algo único, que faz com que você não se sinta sozinho. O que eu estava tentando dizer é que essa frase não vai longe o suficiente. Porque pode ser tanto um consolo narcisístico (como, sou um turista no mundo da ficção, e posso retornar à minha vida me sentindo melhor), ou realmente um desafio para um conhecimento maior (estou no mundo da ficção, viajando, e começando a ver que o mundo é maior do que eu, e que há outras pessoas nele, e desse jeito não estou sozinho). O segundo pensamento é realmente poderoso. 

Franzen diz que as pessoas não querem ouvir o que os escritores dos EUA têm a dizer sobre os EUA. Isso é verdade?

Ele está numa posição única, porque muito do que diz em público é tema de escrutínio. Na minha experiência limitada, tenho escutado mais perguntas sobre o “mundo real” na Europa do que na América. Às vezes, fico desconfortável com a ideia de que ser capaz de escrever um romance me qualifica para dar uma opinião sobre qualquer coisa, porque a ficção tende a ser muito parcial. Acho que o que ele diz, mesmo que haja um elemento de exagero, tem alguma verdade sobre o tipo de perguntas que as pessoas fazem. Se alguém quer inferir a partir disso sobre como se situa a literatura na nossa conversa cultural, será certamente bem-vindo. As pessoas riem quando ele fala isso?

É um riso nervoso.

(Risos) Vamos falar assim: fui questionado sobre Trump em todos os países fora dos EUA, mas nunca lá. Não tenho algo iluminado para dizer sobre ele, mas é um dado interessante.

É interessante saber o que um escritor pensa sobre as condições criadas para que um cara como ele seja um concorrente sério à Casa Branca.

Philip Roth tem uma grande frase, em um ensaio, que é como “a realidade americana está constantemente ultrapassando nossa habilidade de inventar”. É, definitivamente, algo que sai de um romance distópico (a candidatura). E é muito sério, não quero tirar sarro. É um completo absurdo. 

Você diz gostar muito de séries de TV. Está vendo alguma agora?

A escrita do livro foi na mesma época que começaram a lançar as séries da chamada ‘Era de Ouro’ da TV em box sets. E aí você iria numa locadora e alugava os discos do Sopranos, assistia, e voltava depois como um junkie que precisava de outra dose. Eu via desse jeito.

Você já pensou em escrever para TV?

Não. Na verdade, é o contrário. Acho que esses caras – David Chase, David Simons e David Milch, os Davids, que estavam fazendo as séries complexas, aprenderam tudo o que faz esses shows atraentes com os grandes romances. A estrutura, o jeito de contar uma história, que alcança esses cantos da sociedade em um certo momento vêm da leitura de Dickens. 

Você viu Mad Men?

Sim, mas não até depois de que pelo menos um rascunho do livro estava feito. The Wire foi a série em que eu mais me baseei, tem tanto de Dickens ali. Deadwood também me interessou como escrita. O período de Mad Men é mais otimista, mas a série mesmo descobre ali alguma ansiedade, e desejos impossíveis, de que, de algum jeito, nós zombamos nos anos 1970.

Música também é algo obviamente importante em Cidade em Chamas, especialmente o álbum Horses, de Patti Smith. O que esse álbum significa para você?

Para mim, é como ser instantaneamente transportado para algum lugar muito estranho, mas, mesmo assim, bem familiar. Algo, alguém, falando. O punk rock é obviamente essencial no livro, mas Mercer ama ópera, Charlie gosta de Bowie, Richard tem uma fraco por músicas pop ruins dos anos 1950. São diferentes. Eu pensei sobre Charlie e Bowie quando Bowie morreu. Por que um artista pop pode significar tanto para você. Ao ouvir Horses, é como ouvir alguém falando para mim, sozinho, mas também falando por mim para os outros. E então falando pelos outros para mim. É uma intimidade intensa combinada com um tipo de coletividade intensa. É o que eu acho que algumas pessoas sentem quando vão à igreja. Lembro de dirigir pelas estradas da Carolina do Norte, aos 16, me sentindo totalmente deslocado daquilo tudo, fumando cigarros ilícitos e ouvindo Patti Smith, pensando: aqui está alguém que entende. Não apenas entende, mas ela é melhor do que eu, mais corajosa, aberta, vulnerável. Eu deveria tentar isso algum dia.

CIDADE EM CHAMAS

Autor: Garth Risk Hallberg

Trad.: Caetano W. Galindo

Editora: Companhia das Letras (1.040 págs., R$ 69,90)

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