Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Primeiras histórias em quadrinho do mundo são publicadas no Brasil

Brasileiro descobre parentesco com o pioneiro dos quadrinhos modernos, o suíço Rodolphe Töpffer, e organiza sua obra, publicada pela Sesi

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2019 | 03h00

Um artefato, legado da família por gerações, permanece oculto por anos em um porão empoeirado até ser redescoberto. Parece o começo de algum conto de Jorge Luis Borges, mas é a história real da publicação da obra do suíço Rodolphe Töpffer (1799-1846), pioneiro das histórias em quadrinhos modernas, pela editora Sesi-SP. 

“Meu pai tinha uma biblioteca enorme, mas não dava muita bola para quadrinhos. Ele via como coisa de criança, não levava como uma arte séria, como hoje em dia é vista. Uma vez, chegou em casa e falou: ‘Fique com isso, porque estava com seu avô e o autor é nosso parente’”, relata o protagonista desse conto borgiano verídico, o escritor e historiador André Caramuru Aubert, organizador da coleção e sobrinho-tetraneto de Töpffer. 

Anos mais tarde, Aubert se deparou no jornal com os mesmos traços presentes nas caixas de papelão que seu pai havia lhe dado e percebeu a preciosidade que guardava. Quando se debruçou sobre os arquivos da família, descobriu o parentesco e compreendeu que, quando a linhagem de Töpffer foi interrompida, as obras ficaram com seu avô, Jacques Aubert, que mantinha uma editora em Genebra. Após a 2.ª Guerra Mundial, Jacques veio para o Brasil e trouxe consigo os primeiros quadrinhos do mundo.

A arte sequencial, defendem alguns teóricos, existe desde que os primeiros hominídeos desenharam figuras nas paredes de cavernas para contar uma história. Murais gregos e egípcios também são exemplos milenares de como essa arte foi aplicada para fins narrativos. Somente após a revolução industrial, no entanto, com a invenção de Gutemberg, que a proliferação de chargistas e caricaturistas foi possível na então incipiente imprensa. O que difere Töpffer de outros ilustradores, porém, é a fusão inseparável de imagem e texto para uma função narrativa. Suas histórias só são inteligíveis por meio da união entre desenhos e legendas, o que o caracteriza como um dos pioneiros dos quadrinhos modernos. 

Wolfgang Töpffer, pai de Rodolphe, foi um pintor reconhecido em sua época e também fazia caricaturas. Quando Rodolphe estava em ascensão no mundo das belas-artes, foi acometido por problemas de saúde e de visão que o impossibilitaram de pintar. “Foi aí que ele se dedicou às caricaturas. É impossível saber, mas provavelmente porque não conseguia mais pintar”, pondera Aubert. “Meio que por brincadeira, criou essas histórias em desenho e texto. Ele mostrava aos amigos, fazia piadas com a política da época. Foi um período muito conturbado, após as guerras napoleônicas. Assunto não faltava.”

O que começou como uma brincadeira acabou colocando seu nome na história. Um amigo de Töpffer mostrou seus desenhos para ninguém menos que Johann Wolfgang von Goethe, e o autor de Os Sofrimentos do Jovem Werther adorou as tiras dele. “Goethe talvez fosse a figura mais conhecida da Europa”, diz Aubert. “Com esse aval, Töpffer decidiu publicar Monsieur Jabot.” 

Essa obra de 1833 foi lançada no Brasil em 2017, mas não foi a primeira que Töpffer havia desenhado – essa honra fica com o álbum Monsieur Vieux Bois, provavelmente a primeira história em quadrinhos moderna, produzida em 1827 pelo suíço e publicada uma década mais tarde. Junto com Monsieur Crépin, ela completa os cinco volumes da coleção da Sesi, que ainda deve receber dois ensaios em que o ilustrador explica seu processo criativo.

Possivelmente Angelo Agostini (1843-1910), o patrono dos quadrinhos brasileiros, entrou em contato com a obra de Töpffer por meio de edições piratas da Livraria Garnier, uma das principais editoras do Brasil no fim do século 19. “Töpffer lutou muito contra a pirataria numa época em que as leis de copyright ainda nem existiam direito”, relembra Aubert. “Ele influenciou basicamente todo mundo que desenhou depois dele, era inevitável. Várias páginas lembram storyboards mesmo tendo sido criadas 70 anos antes do cinema e dos primeiros desenhos animados.”

A verve humorística de Töpffer está presente em todos os cinco volumes da coleção: “Monsieur Jabot fazia piada como o novo-riquismo, a obsessão que a nova burguesia europeia tinha pela ascensão social; Monsieur Trictac ria da polícia, da burocracia e das autoridades; Monsieur Vieux Bois ridicularizava o amor romântico e o catolicismo. Em Monsieur Crépin, finalmente, o alvo principal da ácida ironia de Töpffer seriam as modas pedagógicas das primeiras décadas do século 19”, explica Aubert no prefácio de Monsieur Crépin, que, com Monsieur Vieux Bois, será lançado nesta quinta, 31, no 220.º aniversário de nascimento de Töpffer. O lançamento será na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena), às 19h. 

Os traços finos e ágeis de Töpffer, que certamente influenciaram o estilo elegante de nomes clássicos como Saul Steinberg (1914-1999), Hergé (1907-1983) e Wilhelm Busch (1932-1908), além de ilustradores mais recentes como Jean-Jacques Sempé e Moebius, finalmente ganham uma edição à altura de seu status como pedra fundamental das histórias em quadrinhos modernas. 

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