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Por que Elena Ferrante é um fenômeno?

Novo livro da escritora italiana, ‘A Vida Mentirosa dos Adultos’ chega ao Brasil no dia 1º de setembro. Fomos entender o que alimenta a ‘Febre Ferrante’

Ana Carolina Sacoman e Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 10h00

O que forma o caldeirão de onde emerge a “Febre Ferrante”? Quais são os ingredientes que a escritora italiana dosa com tanta precisão a ponto de arrastar atrás de si milhões de leitores apaixonados - e, sim, alguns detratores - nos quatro cantos do mundo? O que, afinal, faz dessa figura misteriosa que escreve sob pseudônimo um fenômeno em plena era do espetáculo? Elena Ferrante volta agora aos holofotes, sem mostrar a cara, com a publicação de seu novo livro, A Vida Mentirosa dos Adultos (Intrínseca), no dia 1.º de setembro no Brasil. 

“Elena escreve bem, pratica boa literatura e consegue fascinar com personagens comuns”, afirma outra craque do assunto, Maria Adelaide Amaral, escritora, dramaturga e membro da Academia Paulista de Letras. “Aquele ambiente de Nápoles, para quem conhece, é muito familiar: os sons, o dialeto. Eles têm as características dos gregos, que não medem esforços para conseguir o que desejam. Há um paroxismo nos sentimentos, pois levam às últimas consequências o amor e o ódio. A pobreza embrutece aquelas pessoas”, diz Maria Adelaide, para quem esse tipo de literatura faz falta atualmente. “Há muito texto esquemático, que segue regras, mas que não desperta paixão nos leitores como faziam Jorge Amado, Gabriel García Márquez.”

Quase todos os livros de Elena Ferrante se passam em Nápoles, a caótica cidade à sombra do Vesúvio, no sul da Itália. Em uma era pré-pandemia, o bairro operário de Rione Luzzatti, que inspirou o cenário da tetralogia napolitana, seu maior sucesso até agora, virou inusitado ponto de peregrinação de turistas-leitores atrás dos rastros de Lila e Lenù, as personagens principais. Ali a violência social e familiar, a falta de perspectiva da classe operária e o papel da mulher, sempre forçada ao segundo plano, ganham rostos e vozes e se tornam universais.

“Apesar de bastante situada no contexto histórico-social, a gente vê que ela trata de temas universais, como infância, adolescência, amizades e mobilização de afetos de todo tipo: amor, ódio, inveja, rivalidade, hostilidade. São temas que atravessam de alguma forma a história da humanidade”, afirma Belinda Mandelbaum, professora de Psicologia Social da USP e autora de livros como Psicanálise da Família (Editora Artesã). Para ela, a escrita potente de Ferrante, entre a literatura pop e a alta literatura, favorece essa identificação. “É uma linguagem muito direta, muito transparente, que acho que permite esse acesso direto à interioridade de cada um, como se o livro ajudasse as pessoas também a nomearem seus próprios afetos, suas histórias e seus traumas.”

O escritor Cristovão Tezza, autor de O Filho Eterno (Record) e A Tensão Superficial do Tempo (Todavia), entre outros livros, aponta a aparente dualidade da escrita de Ferrante como elemento fundamental na construção do sucesso editorial. “É uma prosa limpa, enraizada na tradição convencional mas muito forte do realismo social italiano e, no caso dela, temperado pelo arcaísmo napolitano. E tem uma tonalidade contemporânea, que é o olhar narrativo de hoje sobre a questão da mulher na formação das gerações anteriores. E as figuras são densas, e não caricaturas. É boa literatura. Não tenho nenhum preconceito contra uma boa história, bem contada.”

Raphael Montes, autor de Jantar Secreto e Uma Mulher no Escuro (ambos pela Companhia das Letras), também fala da escrita que, na opinião dele, “flerta com o melodrama à la italiana”. “Acredito que ela escreve muito bem, tem frases potentes, flerta com o melodrama, mas sem nunca assumir isso. Talvez o sucesso esteja aí, nesse ‘melodrama velado’”, diz.

 

A polêmica do pseudônimo

 

E o pseudônimo? Quanto a vontade de permanecer oculta enquanto quase todo o resto do mundo quer o seu quinhão de fama tem influência em manter a Febre Ferrante acesa e acima dos 40 graus? A julgar pelas reações às tentativas de revelar a identidade da escritora, pouca ou nenhuma. 

Em 2016, o jornalista Claudio Gatti revelou que Anita Raja, uma tradutora, mulher do escritor italiano Domenico Starnone, seria a verdadeira Ferrante - o que Anita nega. Outras linhas de investigação apontam para o próprio Starnone ou ainda para uma escrita a quatro mãos, feita pelo casal. A revelação provocou uma onda de protestos de fãs e intelectuais, o que obrigou a prestigiosa revista americana The New York Review of Books, um dos veículos que publicaram a reportagem, a soltar um esclarecimento na linha “não financiamos a investigação, apenas a reproduzimos”. 

“Esse é um furo de um jornalista que não está interessado em literatura. Quem é Elena Ferrante não é importante, e sim seus livros”, afirmou na época o escritor italiano Nicola Lagioia ao El País. “Um escritor tem o direito de dizer coisas que não são verdade, não é um político”, disse na ocasião. 

Também para a pesquisadora Fabiane Secches, estudiosa da obra da italiana e autora do livro Elena Ferrante - Uma longa experiência de ausência (Claraboia), a questão não parece central. “Na sociedade do espetáculo, num mundo em que há o que podemos chamar de ‘excesso de presença’, a ausência da figura da autora nos moldes tradicionais tem sido bastante discutida pela imprensa e pelos leitores. Apesar disso, o tema não chega a ofuscar a potência de sua obra. Em outras palavras: não acredito que o mistério em torno da autoria seria o bastante para sustentá-la como o fenômeno literário que é”, diz.

A psicanalista e escritora Ana Suy Sesarino Kuss aponta o mistério como elemento fundamental na obra de Ferrante, mas não aquele advindo do pseudônimo, o que torna a coisa toda ainda mais intrigante.

“Tem uma coisa tão misteriosa nela, que não é um mistério no sentido mais consciente, de não saber quem ela é, mas no quanto ela consegue escancarar algumas coisas. Quem é essa pessoa que consegue escrever de modo tão escancarado sobre o que para nós são coisas tão encobertas, estranhas?”, afirma.



 

Além da tetralogia napolitana

 

E é possível gostar de Elena Ferrante sem ter lido uma só linha das mais de 1,7 mil páginas da série napolitana ou, pior, sem gostar da obra mais conhecida e adorada da italiana? Na opinião do escritor Marçal Aquino, sim, tranquilamente.

“Sou fã só da ‘literatura adulta’ da Elena Ferrante, e aqui falo, acima de tudo, de Dias de Abandono (Biblioteca Azul), para mim o ponto mais alto da escrita dela. Um livro que conheci em Portugal faz muitos anos, que me fascinou e assustou, e que já reli algumas vezes. Não gosto da tetralogia napolitana, me parece um ponto abaixo do que a Elena vinha escrevendo. Um amigo livreiro me disse que, comparado a Dias de Abandono, parece ‘literatura juvenil’. Eu não chegaria a tanto, mas não foram livros (li apenas dois) que deixaram algo em mim – ao contrário do Dias…”, afirma o autor de Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios (Companhia das Letras), entre outras obras. “À parte a inegável qualidade da escrita, acho que são livros que estavam sendo esperados por um grande número de leitores, e isso me parece o mais importante.”

De 2002 - anterior, portanto, à tetralogia napolitana, que vai de 2011 a 2014 -, Dias de Abandono, apontado por Aquino, é o segundo romance de Ferrante. Ele narra o fim do casamento sob o ponto de vista da mulher, Olga, que se vê presa em seu apartamento com os dois filhos e busca motivos para o fim da relação. Foi publicado no Brasil só em 2016. 

A narrativa, um tanto angustiante e dolorida, tem mais fãs entre os escritores brasileiros. “Dela eu só li Dias de Abandono. Foi maravilhoso. Um ritmo vibrante, uma primeira pessoa bem construída, calcada na angústia e no desespero dessa mulher, e que depois se transforma lindamente, quando o amor pelo ex-marido acaba e ela volta a viver, outra vez. O que me pegou no Dias de Abandono foi justamente a sua linguagem direta e verdadeira. E seu punho forte na escrita”, aponta Aline Bei, autora de O Peso do Pássaro Morto (Nós).



 

Longe do fã-clube

 

E, claro, tem quem não goste de Ferrante, leitores que não passaram de A Amiga Genial, o primeiro livro da série napolitana, ou que não se identificam com os elementos apontados até aqui.

“Comecei a ler o primeiro romance da saga e nem sequer terminei. Pareceu-me tradicional, antigo e muito falso. Não me interessou em nada”, afirma a escritora espanhola Rosa Montero, autora de A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver (Todavia), entre outros.

Também “antigo” é como o escritor e tradutor Joca Reiners Terron vê a obra da italiana. “Como leitor, tenho algumas implicâncias severas com romancistas que usam muito explicitamente algumas convenções novelísticas que identifico com o século 19, com aquele realismo tipo Dickens que promete implicitamente ao leitor toda sorte de peripécia e sofrimentos do personagem, porém garantem (de antemão) um final feliz. Me parece ser o caso da Ferrante”, diz Terron, autor de Do Fundo do Poço se Vê a Lua (Companhia das Letras), entre outras obras. A poeta Marina Colasanti, autora do recente Mais Longa Vida (Record) dá a sua sentença: “Não consegui ler nenhum livro da Elena. Parecem escritos para virar roteiro: diálogos, diálogos – e longas descrições”.

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