Laura Himmelstein / Estadão
Laura Himmelstein / Estadão

Poetas discutem o legado de Ana C. e criticam Michel Temer na Flip

'Sua legitimidade como poeta é igual a de presidente', disse a carioca Laura Liuzzi, que dividiu a primeira mesa da Festa com Annita Costa Malufe e Marília Garcia

Marilia Neustein - Enviada Especial, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2016 | 12h17

PARATY - A primeira mesa da Flip, da qual participaram as poetas Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia, foi marcada pela discussão poética e a herança da homenageada da festa, Ana Cristina César, cujo único livro publicado em vida deu o nome ao encontro (A Teus Pés). "Herdeiras" da poeta carioca, as três chamaram atenção para a importância de seu trabalho e a marca que deixou na carreira de cada uma delas. 

Depois de Annita comentar a ressonância de Ana Cristina César não apenas para as participantes da mesa, mas para toda a poesia brasileira, Laura pediu para "cometer um pequeno desvio". "Vou ler um poema que não é meu, não é das meninas e não é da Ana." Sem mencionar o autor, leu um poema que afirmou "ser muito ruim" e revelou ser de Michel Temer: "esse poema é do presidente interino. Sua legitimidade como poeta é igual a de presidente", disse, seguida de aplausos.

O legado de Ana Cristina foi, apesar disso, o fio condutor de toda a mesa. Laura comentou que, apesar de a poeta ter aberto muitas portas na âmbito da poesia, muitos de sua geração não necessariamente seguiram o mesmo caminho. Já Marilia lembrou que os ensaios da escritora também atingiram o poético. Questionada sobre o cinema e a poesia, Laura - que trabalhou com o documentarista Eduardo Coutinho - comentou sobre a diferença das artes: "o romance é como a ficção e o documentário como o poema. Há uma escuta. O poema é a unidade, a matéria, não precisa ser tão visual".

Ao serem indagadas pela plateia sobre a existência de uma "dicção feminina", tanto em Ana C. como em seus próprios poemas, as três concordaram na resposta. Para Annita, a questão não é a poesia ser feminina, mas o estereótipo do feminino. "O problema são os estereótipos do feminino, masculino e homo. A poesia briga contra os esteriótipos. É claro que o nosso corpo está implicado no que está sendo feito. Isso é performance." Laura completou: "Li um ensaio da Ana que fala da Cecilia Meirelles, que são poemas que tem essa coisa do feminino, de falar de temas doces, ficar cantando a lua. Mas a gente pode ser mulher de outro jeito. Isso é fundamental. Não sei se isso aparece no que eu escrevo, mas não nego a minha intuição feminina."

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