Ricardo Benichio
Ricardo Benichio

Poeta Carlos de Assumpção tem sua poesia reunida em 'Não Pararei de Gritar'

Autor do célebre poema 'Protesto' enfim tem uma edição completa de suas poesias, verdadeiros antídotos contra o racismo

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2020 | 05h00

O Brasil e o mercado editorial brasileiro mainstream precisaram de 92 anos da vida do poeta Carlos de Assumpção para colocá-lo nas prateleiras das principais livrarias – o livro com sua poesia completa Não Pararei de Gritar (Companhia das Letras) chegou junto com a pandemia no Brasil. O escritor é comparado por estudiosos a Carlos Drummond de Andrade e ficou conhecido no movimento negro como o autor do poema Protesto – escrito em 1956 e declamado em 1958.

Foi na Associação Cultural do Negro, em São Paulo, apenas uma das entidades sociais de organização do movimento negro ativas politicamente no século 20 na luta por direitos da maior parcela da população brasileira.

Informando o leitor de que “a minha história é contada com tintas de amargura”, que tem mais necessidade de gritar do que de respirar, Assumpção protesta: “Senhores / Atrás do muro da noite / Sem que ninguém o perceba / Muitos dos meus ancestrais / Já mortos há muito tempo / Reúnem-se em minha casa / E nos pomos a conversar / Sobre coisas amargas / Sobre grilhões e correntes / Que no passado eram visíveis / Sobre grilhões e correntes / Que no presente são invisíveis / Invisíveis mas existentes / Nos braços no pensamento / Nos passos nos sonhos na vida / De cada um dos que vivem / Juntos comigo enjeitados da pátria”.

O livro foi organizado pelo poeta, ensaísta e professor de teoria literária da Faculdade de Letras da UFRJ, Alberto Pucheu. “Como, se não pelo racismo de nossa história, se explica que esse poeta fundamental não seja lido por outros poetas e por críticos, jornalistas, intelectuais, antologistas de poesia e leitores em geral?”, questiona-se no posfácio.

Assumpção nasceu na cidade de Tietê, em 1927, e mais tarde mudou-se para Franca, onde estudou letras, direito, iniciou-se na advocacia, deu aulas, colaborou com revistas literárias e onde vive até hoje – escrevendo poemas incisivos e criativos, focado na discussão do negro na sociedade. Ele também participou da cena cultural paulistana começando nos anos 1950, declamando seus poemas numa espécie de história anterior do slam, gênero literário hoje melhor reconhecido. 

Foi só em 1982 que um livro seu foi publicado, Protesto: Poemas (edição do autor), e outros quatro se seguiram: Quilombo (Edição do autor/Unesp, 2000), Tambores da Noite (Coletivo Cultural Poesia na Brasa, 2009), Protesto e Outros Poemas (Ribeirão Gráfica e Editora, 2015) e Poemas Escolhidos (Artefato Edições, 2017). Todos os seus poemas foram compilados em Não Pararei de Gritar, além de nove textos inéditos.

“Desde cedo tive contato com a poesia”, explica Assumpção, em um e-mail enviado à reportagem. “Minha mãe, que só tinha o curso primário completo, foi mulher de certa cultura, lia muito. Costumava organizar roda de poemas com os filhos pequenos dos sócios da Sociedade Beneficente 13 de Maio de Tietê na qual fora presidenta por muitos anos. Ela me contou que um dia apareceu perambulando pelas ruas da cidade um poeta, um poeta negro repentista, falando quadrinhas, sempre cercado de crianças. O nome dele era Valério, teria vindo da Bahia. Seus versos se perderam no tempo. Um dia eu disse à minha mãe que iria ser poeta como Valério.”

Assumpção conta que conheceu os poetas clássicos da literatura brasileira mais tarde, na faculdade – um dos seus poemas é uma prece a Castro Alves (“santificado seja também o vosso nome”), e que esteve no mesmo ambiente de Mário de Andrade e Manuel Bandeira numa ocasião que define como maravilhosa. 

“Soube pela revista Senzala que o grande escritor, grande poeta (Mário de Andrade), não gostava de ser negro. O racismo sempre andou atrás de mim, parecendo minha sombra. Não sei como certas pessoas dizem que não existe racismo no Brasil. Essas pessoas devem ser mentirosas, mal intencionadas, cegas ou burras... Num país tão miscigenado como o nosso, o racismo não prejudica só o negro, não, prejudica também o branco e como a maioria da população é negra assumida, prejudica o país.”

No poema Meus Avós (1982) – dedicado à professora e jornalista Eunice de Paula Cunha, voz importante na década de 30 denunciando maus tratos a jovens empregadas domésticas negras – Assumpção registra, em alta voltagem poética, movimentos históricos relegados ao segundo plano numa história brasileira tradicional, contada e recontada por pessoas brancas, passando por Palmares e a revolta dos malês. “Aponto o quilombo do Jabaquara / Outro exemplo de bravura / dos meus avós / Aponto as sociedades negras secretas / Que angariavam fundos / Para comprar a alforria / De irmãos escravizados”, diz o poeta, concluindo: “Há muitas histórias / Sobre os meus avós / Que a História não faz / Questão de contar”.

Um dos versos do poema Protesto diz: “Meu coração já perdoou”. Sobre ele, o poeta faz, hoje, uma distinção básica: “O coração, no caso, perdoa tanta crueldade, mas não consegue esquecer, razão por que continua nas acusações até o fim do poema.”

Alheio aos vanguardismos, tomado por uma vontade de comunicar, Carlos de Assumpção continua atento às injustiças: um de seus poemas inéditos reforça a pergunta Quem Mandou Matar Marielle?: “Há no ar silêncio enorme / Não há nenhuma resposta / Será que a justiça dorme / Ou a justiça está morta”. Sobre a redescoberta de sua poesia, ele diz que estava consciente dos riscos. “Esse negócio de reconhecimento tardio, e às vezes reconhecimento nenhum, todo artista corre esse risco. Faço poesia mais como meio de desabafo; isso não quer dizer que eu abra mão de usar a poesia como arma contra o racismo.”

POEMAS DE CARLOS DE ASSUMPÇÃO:

“Nós somos Dons Quixotes

Em cavalos de sonhos vamos

Por toda parte da cidade

Semeando palavras como sementes

Dividindo o pão do bem mostrando caminhos

Levando esperanças a quem não tem 

Nós somos Dons Quixotes não importa

De sonhadores o mundo tem precisão

A vida será céu quando todos os homens

Trouxerem as estrelas aqui para o chão”

(Arco-Íris

***

“(...)Cadê Iemanjá que eu trouxe da África

Cadê Iemanjá que era negra como eu sou

Tá dependurada na parede

Onde o branco a dependurou

Pintada de branco como o branco a pintou 

Cadê as terras que eu desbravei 

Cadê as riquezas que construí

O branco de tudo se apossou

Cadê o branco

Tá por aí

Na sua velha altivez

Colhendo frutos que não plantou.”

(Trecho de Destituição)

NÃO PARAREI DE GRITAR: POEMAS REUNIDOS

  • Autor: Carlos de Assumpção
  • Editora: Companhia das Letras (176 p., R$49,90, R$ 34,90 o digital)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.