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Poemas inéditos de Pablo Neruda são reunidos em livro

Ao catalogar seus originais, fundação encontrou 21 poemas inéditos do chileno, publicados agora em 'Teus Pés Toco na Sombra'

Mariana Ianelli, Especial para O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2015 | 22h25

Uma âncora, exumada do corpo morto de um navio, repousa no jardim da casa de Neruda em Isla Negra. Essa imagem, do poema Ode à Âncora, cabe como metáfora incidental dos 21 poemas inéditos que a Fundação Pablo Neruda encontrou ao catalogar os originais manuscritos e datilografados da obra do poeta em 2011, localizando-os e comparando-os aos livros já publicados, inclusive os póstumos. 

Como aquela âncora inesperadamente entre plantas e flores, porém sempre alusiva ao mar, ainda que fora dele, essa recolha de inéditos tem forte relação com os livros de odes e navegações de Neruda da década de 1950 e, ao mesmo tempo, em seu conjunto, compõe um livro completamente novo. Com tradução e texto de orelha de Alexei Bueno, introdução e notas de Darío Oses, diretor da Biblioteca e Arquivos da Fundação Pablo Neruda, Teus Pés Toco na Sombra traz ainda, na edição brasileira bilíngue, prólogo de Pere Gimferrer e uma edição fac-similar dos manuscritos.

Pela riqueza de informações fornecida por Oses, sobre a genealogia dos poemas e os prováveis livros aos quais estariam destinados, é possível presumir a época e o lugar de cada texto dentro da incomensurável geografia dos cantos de Neruda, isso quando os próprios inéditos não aparecem datados, alguns deles com registro de local e horário. Entre esses, há a curiosidade de um poema que o autor escreveu no verso de um programa musical, a bordo de um transatlântico, em 1967, e outro manuscrito num menu, contendo uma anotação com a letra de Matilde: “Día 29 - Diciembre 1952 - 11 de la mañana - volando a 3500 metros - de altura entre - Recife y Río Janeiro”. 

O conjunto vai de 1952, quando Neruda regressa ao Chile após anos de exílio, a 1973, pouco antes de sua morte. Na maioria, são (14) poemas encontrados em meio a manuscritos de odes de 1954 a 1959. Os demais (exceto o poema de 1973) pertencem à década de 1960 e estão ligados à casa e às recordações do poeta em Isla Negra. Poemas de Amor, seção que abre o livro, reúne seis elogios a Matilde Urrutia, a amada que Neruda mitificou em sua poesia. Na seção Outros Poemas, diversificam-se os motivos, são genealogias do poeta e sua pátria, elementos do homem e do cosmo confundidos, recorrências à força da terra, dos povos, das raças, e aos emblemas vários de sua exploração, como o que está simbolizado em “um siclo de sombra”. 

Num inventário de temas representativos do caráter elementar e planetário desse, como dizia Vinicius de Moraes, “cantor geral” que foi Neruda, têm destaque no livro os poemas mais longos, de cunho biográfico, em que o autor trata da própria poética num tom crítico ou sarcástico. Ultrapassando a oposição entre “o literário” e “a vida”, Neruda coloca outro dilema mais difícil: o da vida sem tempo para o tempo da poesia. Exemplo disso é o poema que lembra o terremoto na cidade chilena de Valdivia em 1960: “Agora o homem está ocupado / e não mira o bosque profundo / já não investiga a folhagem / nem lhe caem do céu as folhas / está ocupado o homem agora / ocupado em cavar sua cova”. Ou ainda os antológicos versos que falam da relação do poeta com o telefone: “Eu, poeta torpe como um pato na terra, / fui me corrompendo até conceder / minha orelha superior (que consagrei / com inocência a pássaros e música) / a uma prostituição de cada dia, conectando ao ouvido o inimigo / que foi se apoderando do meu ser”. 

Embora diversos poemas tenham sido encontrados entre manuscritos destinados à publicação, caso do poema ao telefone, que seria incluído no livro Defeitos Escolhidos, todos os inéditos formam agora uma geografia especial, que não é apenas do espaço senão também do tempo, quando, depois de aprender a ser tão necessário para um povo como um “bom foguista”, o poeta se torna também “capaz de céu”. É aí que uma estrela, para Neruda, além de encarnar a estrela de Maiakóvski, faz-se matéria de uma poesia futura. 

Um poema sobre os primeiros astronautas confirma esse interesse (com exemplos em outros livros) por novos descobrimentos, ao que se acrescentam as observações de Darío Oses sobre a interlocução de Neruda com o cosmonauta Alexei Leonov e quanto o atraía essa nova perspectiva da Terra a ponto de escrever em 1962: “A poesia tem que buscar novas palavras para falar dessas coisas”. Sob esse ponto de vista, o leitor poderá ressignificar o verso: “Digo bom-dia ao céu”. Também enriquecedora a nota ao último poema, que remete à “massa existencial” dos mares de Neruda. Desses mares, como aquela âncora num jardim em Isla Negra, carregada de memórias transmigrantes, Teus Pés Toco na Sombra, como um todo, é o poema vivo e necessariamente póstumo de um regresso. Neruda para velhos e novos leitores.

TEUS PÉS TOCO NA SOMBRA E OUTROS POEMAS INÉDITOS

Autor: Pablo Neruda

Trad.: Alexei Bueno

Editora: José Olympio (144 págs.; R$ 28,90; bilíngue)

 

MARIANA IANELLI É POETA E AUTORA DE O AMOR E DEPOIS, ENTRE OUTRAS OBRAS

Veja também: Trailer do filme 'Neruda', de Manoel Bosoalto

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