Milton Michida/Estadão
Milton Michida/Estadão

Poemas de João Cabral de Melo Neto arrastam um mar de sentimentos

Ele defendia que as palavras fossem manipuladas como tijolos e esculpidas como um diamante

José Castello, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

09 de janeiro de 2020 | 06h00

Uma história do início dos anos 1990, relatada depois pelo escritor Otto Lara Resende, ilustra a relação tensa, mas também intensa, que João Cabral de Melo Neto tinha com a matéria - e com seu inevitável desaparecimento, isto é, a morte. O corpo de um “imortal” da Academia Brasileira de Letras era velado na sala dos Poetas Românticos. Membro da ABL desde 1969, Cabral era esperado no velório, mas faltava-lhe coragem para sair de casa. Embora fosse ateu convicto, a morte sempre o assustou. 

Por fim, chamou um táxi e foi, mas não conseguiu avançar além de uma sala anexa. Foi em seu refúgio que Otto, ele também acadêmico desde 1979, o encontrou. Logo sentiu, pela expressão devastada de Cabral, que ele vivia uma situação insuportável. Sentiu, mas silenciou. “Eu achei que, se comentasse o que via, ele desmaiaria de pavor”, relatou muito depois. Homem de grande coração, Otto inverteu as coisas. Aproximou-se de Cabral e disse: “Não estou me sentindo nada bem, preciso sair daqui. Mas tenho até medo de pegar um táxi sozinho. Você me acompanharia?”.

“Pode deixar, eu o levo até em casa”, Cabral se apressou em dizer. Chamaram o táxi e foram juntos rumo à zona sul. Otto desceu primeiro, no Jardim Botânico. Só depois Cabral fez todo o percurso de volta, até seu apartamento na praia do Flamengo. Assim que chegou em casa, apressou-se em telefonar para o amigo. “Você está melhor? Está mais calmo?” Só então Otto abriu o jogo. “Eu estou ótimo. A morte não me assusta. Você sim estava péssimo, mas se eu lhe dissesse isso, ficaria ainda pior.”

Ateu convicto, materialista por formação, João Cabral costumava dizer: “Não acredito em Deus, mas acredito no inferno”. O paradoxo ilustra sua sensibilidade complexa, suas dificuldades com os sentimentos, seu coração frágil, sempre escondido sob a imagem do “poeta de pedra”. Cabral - que se declarava marxista - cultivava, como poeta, a pose de um engenheiro das palavras. Odiava música, menosprezava o lirismo e defendia uma estética objetiva e luminosa, na qual as palavras fossem manipuladas como tijolos, e esculpidas como um diamante. “Camarada diamante”! - Vinicius de Moraes, grande amigo, mas em tudo seu contrário, o saldou em um poema célebre.

Os críticos ortodoxos e os leitores apressados sempre acreditaram nessa definição. “Magro entre pedras”, como o viu Vinicius, o poeta do concreto e das superfícies já em 1950, aos 30 anos de idade, em um de seus poemas mais belos, O Cão Sem Plumas, desmentiu - para quem teve a coragem de ver - essa máscara de ferro. São versos, de fato, atravessados pela mais vibrante claridade. Mas trata-se de uma claridade que treme. Assim começa seu célebre poema: “A cidade é passada pelo rio/ como uma rua/ é passada por um cachorro;/ uma fruta/ por uma espada”. Pode-se “ver” o poema - seguindo uma fórmula de Paul Valéry, Cabral dizia escrever para “dar a ver”. Mas uma vibração de fundo, sutil, porém intensa, denuncia o mar de sentimentos que o poema arrasta.

Alguns versos à frente, Cabral expõe, de modo direto, sua sensibilidade social: “Mas ele conhecia melhor/ os homens sem pluma./ Estes/ secam/ ainda mais além/ de sua caliça extrema”. Sob imagens duras, João Cabral - sem ceder ao panfleto, ou à “poesia engajada” - desenha a figura dos homens miseráveis que bordejam o Capiberibe. Este engajamento político tornou-se indiscutível em Morte e Vida Severina, poema de Duas Águas, livro de 1956. Cabral, porém, nunca apreciou, ele mesmo, as coisas indiscutíveis e as ênfases. E por isso chegou a dizer, mais tarde, que Morte e Vida Severina - transformado por Chico Buarque em um inesquecível musical - foi “o pior poema” que escreveu.

Na primeira vez em que ele e Chico se encontraram, o músico não poupou palavras para expressar seu entusiasmo com o poema que acabara de ler. Sempre direto na expressão dos sentimentos, Cabral se revoltou: “Não fiz esse poema para você gostar. Para você eu fiz Uma Faca Só Lâmina - poema de aparência quase matemática que surgiu no mesmo Duas Águas. Para nossa sorte, Chico ignorou a repreensão, e só por isso, algum tempo depois, musicou Morte e Vida para o grupo Tuca, da PUC de São Paulo. O musical, que chegou a ser exibido com sucesso no festival universitário de Nancy, na França, tornou-se - para aflição do próprio Cabral - sua obra mais conhecida.

Os sentimentos que transbordam em Morte e Vida Severina, porém, ainda que escoados em discretos subterrâneos, alimentam e sustentam toda a poética cabralina. Eles se manifestam igualmente em Sevilha Andando, livro que publicou em 1990, logo depois de se aposentar da carreira diplomática. Como diplomata, Cabral serviu por duas vezes em Sevilha, Espanha. Repetiu muitas vezes que o Recife - onde nasceu - e Sevilha eram as duas cidades que mais amava. Depois do lançamento de Sevilha Andando, porém, no intervalo de uma entrevista, confidenciou: “Ninguém consegue descobrir o maior segredo de meu livro. Que Sevilha, na verdade, é Marly”. Referia-se à poeta Marly de Oliveira, sua segunda esposa. O lirismo, mesmo desprezado, se infiltrava em seus versos.

No início dos anos 1950, ainda sob o governo Vargas, João Cabral chegou a ser suspenso, por um ano, de seus serviços no Itamaraty, sob a acusação de “comunista”. Só voltou a seu posto em 1954, graças a uma decisão contrária do Supremo Tribunal Federal. Também nesse caso transparecem os clichês que, ainda hoje, cercam a obra e a figura de Cabral. Seu materialismo nunca foi um dogma de almanaque. Ele nunca excluiu uma visão profunda da realidade - uma noção complexa e dinâmica do real. Também em seus versos, sob as imagens duras e precisas, latejam sentimentos delicados, percepções sutis, devaneios que vão muito além da dureza da matéria.

No centenário de seu nascimento, e com a exceção de leitores sensíveis como o crítico e poeta Antonio Carlos Secchin, provavelmente o maior especialista na obra cabralina, ainda não aprendemos a ler João Cabral. Ler através das palavras, ler para além das imagens brutas, ler equipados da “faca só lâmina” que ele, com tanto ardor, nos ensinou a manejar. Parece chegado o momento de rever nossos preconceitos. Cabral foi o poeta das emoções que estavam sempre à beira de explodir. 

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