Reprodução
Reprodução

Poema de  Brecht sobre peregrinação de órfãos durante a guerra ganha livro ilustrado

Em 'A Cruzada das Crianças', desconhecidos se unem durante a Segunda Guerra na busca por um lugar seguro, comida e paz

Mariana Ianelli, Especial para O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2015 | 03h00

Onde quer que haja guerra, há uma cruzada de crianças. Essa é a máxima que Bertolt Brecht (1898-1956) formula, em outros termos, ao transpor para a realidade da Segunda Guerra o drama da lendária narrativa medieval. A Cruzada das Crianças aparece pela primeira vez em Histórias de Almanaque, coletânea de parábolas, poemas e contos, incluindo as famosas Histórias do Sr. Keuner, que o autor publica no final dos anos 1940 na Alemanha. 

O poema pertence a um extenso conjunto de textos que Brecht escreveu durante seus anos de exílio. Hannah Arendt chegou a considerar que este seria “o único poema alemão da última guerra” que perduraria. Sua contundência permanece, por isso a oportunidade da recente edição brasileira, na tradução de Tercio Redondo, com ilustrações da artista catalã Carme Solé Vendrell. Seguindo o formato da versão espanhola de 2011, com o traço de Solé Vendrell sangrado nas páginas, é uma edição que valoriza a dimensão épica dessa história de pequenos peregrinos, filhos da guerra, que se unem para buscar a paz sem saber onde.

No inverno de 1939, numa Polônia recém-tomada pelos alemães, tropas de crianças famintas se juntam, conduzidas por um “pequeno chefe / que animá-los bem queria, / porém algo o preocupava: o caminho não sabia”. O filho de um nazista, um judeu, um pequeno músico, um menino socialista que discursa, todos têm uma fome comum, de pão. Ao todo são 55. Abstêm-se de lutar entre eles, “pois com fome não há luta”. O nome da terra prometida que procuram, que um soldado moribundo lhes indica, é Bilgoray, nome de uma paz tão inacessível quanto o pão. Ao final do poema, o poeta narrador fala em primeira pessoa: “Quando fecho os meus olhos, / vejo-os perambular, vagando de sítio em sítio, / (...) / Buscando a terra da paz, / (...) / vai crescendo assim o bando. / Ao mirá-lo no crepúsculo, / não lhe vejo a mesma tez: / outras caras eu contemplo, / de espanhol, francês, chinês!”. 

É interessante pensar na figura do cão que serve de mensageiro às crianças, levando uma placa de socorro no pescoço. O animal, no poema, é encontrado por camponeses, mas em vão, ao contrário daquele que salva o mendigo na peça O Mendigo ou o Cachorro Morto, escrita por Brecht logo após a Primeira Guerra, em 1919. Curiosamente, esse socorro que não vem para os órfãos da Segunda Guerra; de certo modo, é traído pela própria realidade, pela influência que Brecht exerceu, indiretamente, na ópera infantil Brundibár para as crianças do campo de Theresienstadt. 

Criada como um “estudo brechtiano”, em 1938, em Praga, por Hans Krása e Adolf Hoffmeister, Brundibár estreou no orfanato de um abrigo em 1942 e a partir do ano seguinte passou a ser apresentada semanalmente em Theresienstadt. Eram 55 meninos e meninas no palco. Eva Landová, que sobreviveu à guerra, fala sobre a importância da ópera como fonte de esperança e resistência dentro do campo: “Nós, as crianças, derrotamos todos aqueles que nos subestimaram: os adultos e Brundibár (personagem associado a Hitler). E, nos momentos em que assistíamos à ópera, acreditávamos firmemente em nossa vitória”. Nessa aderência da vida à ópera, o poema de Brecht, lacônico sobre o destino das crianças, ganha uma nova leitura.

Outro aspecto interessante de mencionar é a tese de Georges Duby e Philippe Ariès de que, historicamente, a cruzada das crianças teria sido uma cruzada de camponeses afetados pelas transformações econômicas do século 13, já que o termo latino “pueri”, além de designar “crianças”, remete a pessoas em situação miserável. 

O escritor francês Marcel Schwob, que criou sua versão da história em várias vozes, num livro de mesmo título, de 1896, também merece ser citado. Um acrescento à linguagem seca e direta de Brecht, o poema tem em comum com o livro de Schwob uma triste ternura, uma pungência, que é realçada na nesta edição pelas ilustrações de Carme Solé Vendrell.

Trecho inicial do poema:

"No ano de trinta e nove

a Polônia verteu sangue;

suas vilas pereceram

sob o fogo de falanges.

A criança ficou órfã,

faleceu o irmão querido,

a cidade era só chamas,

a mulher perdeu o marido.

Do país nada chegava,

só rumores sem valia,

mas em terras lá no leste

estranha história se ouvia. (...)"

A CRUZADA DAS CRIANÇAS

Autor: Bertolt Brecht

Trad.: Tercio Redondo

Editora: Pulo do Gato (36 págs.; R$ 38)

Mariana Ianelli é poeta e autora de O Amor e Depois, entre outras obras

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.