LUCAS POSSIEDEE
LUCAS POSSIEDEE

PJ Maia lança ficção que faz viagem no tempo

Livro 'Espírito Perdido' retrata uma civilização da Idade da Pedra

Matheus Mans, ESPECIAL PARA O ESTADO

19 de junho de 2019 | 05h00

Após uma temporada de quatro anos estudando nos Estados Unidos, o sul-mato-grossense Paulo José Maia sentiu um “chamado” para voltar às origens. De mala e cuia, encerrou suas atividades como produtor audiovisual na terra do Tio Sam e partiu de volta ao Brasil com o objetivo de se reconectar e rever família e amigos. No entanto, o processo não foi tão fácil quanto ele esperava. O sentimento era de que tinha se tornado um estrangeiro em sua terra e não estava encontrando um caminho para seguir. Até que escutou um conselho da melhor amiga.

“Ela sugeriu que eu escrevesse algo, colocasse minhas angústias no papel. Com o tempo, fui além e comecei a criar uma história, personagens, narrativas. Acabei fazendo uma outra viagem e, desta vez, para 200 mil anos atrás”, diz o escritor em entrevista ao Estado. O livro que resultou desse exercício é Espírito Perdido, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Labrador. Nele, Paulo conta a história de uma civilização de deuses, em plena Idade da Pedra. Só que a jovem Keana, de 15 anos, não consegue encontrar seu lugar em meio aos imortais.

“Gosto muito de fantasia, mas eu não queria contar uma narrativa espada e dragão”, diz o autor. “Por isso, resolvi visitar o início da humanidade para contar a história dessa nação de deuses na Terra que tenta manter a sua força e entender uma profecia de que eles podem não existir no futuro. Keana, enquanto isso, fica dividida por conta de sua história pessoal”.

Obviamente, não é tão simples recriar os aspectos sociais, antropológicos e geográficos da Idade da Pedra. Como é um período conhecido apenas por meio da arqueologia e de estudos científicos, Paulo precisou de ajuda. Convocou a pesquisadora e geógrafa Luna Chino para descobrir detalhes dessa época e aumentar a precisão da jornada de Keana. Dentre outras coisas, eles descobriram que não podiam usar armas de metais e que França e Inglaterra estavam unidas por gelo. “Tive que consultar interpretações de leituras rupestres, ler artigos complexos sobre a época”, conta Chino. “Pode ser uma fantasia, mas precisa ter precisão científica.”

Dessa maneira, a época está realmente presente nas páginas dos livros de Maia, com boas referências geográficas, incluindo um mapa; interessantes observações sobre alimentação; e até mesmo formas de relacionamento. No entanto, apesar de ser original e revigorante, a história aproveita um filão que tem crescido para além dos Estados Unidos: fantasia juvenil histórica. Com aspectos precisos de ciência e mitologia, esse subgênero fez história com a saga Percy Jackson, de Rick Riordan, e agora amplia o escopo (ver mais no box ao lado). “É um jeito de levar história e ciência para os jovens”, afirma o autor. “Fico feliz de plantar a sementinha”.

Apesar de Paulo ser natural de Campo Grande, Espírito Perdido não ganhou sua primeira versão em português. O autor resolveu internacionalizar a obra, aproveitando esse período que ficou fora do Brasil e a boa experiência com o inglês, e a escreveu inteiramente em inglês. A tradução para sua língua materna só veio tempos depois, quando The Missing Spirit já tinha se tornado sucesso em inglês. Paulo, que assinou o livro como P. J. Maia, até recebeu comentários positivos de indianos e de países que nem pensava em passar com o livro.

Segundo ele, após essa boa trajetória, a angústia inicial de se sentir um estrangeiro em sua própria terra passou. A história, mesmo acontecendo há 200 mil anos, o ajudou na conexão com si mesmo. “Os personagens foram me ajudando a entender que essa vontade de me pertencer é algo muito humano, muito universal. Compartilhei minhas angústias com eles e me acalmei, houve um processo de normalização”, conclui o autor. “Hoje, o livro se chama Espírito Perdido. Mas eu tenho certeza de que o meu espírito está muito bem encontrado”.

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