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Piranesi e a montanha

Se minha mulher pedir explicações, direi que estou indo escalar a Montanha Mágica do Thomas Mann e que não espere cartas

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 03h00

Finalmente, vou poder ler A Montanha Mágica, do Thomas Mann, sem me sentir culpado. Não vou prejudicar ninguém, não vou atrasar a vida da República, só vou fazer o que a quarentena, finalmente, me autoriza a fazer, com tempo para fazê-lo – desde que use máscara. Se minha mulher pedir explicações para a mochila nas costas, o gorro e as luvas de lã e a picareta, direi que estou indo escalar a montanha do Thomas Mann, e que não espere cartas. Mas antes...

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Antes, já que tenho tempo, me dedicarei a organizar meus livros e os do meu pai. Nesta prateleira, autores nacionais e internacionais de ficção, por ordem alfabética. Nesta prateleira, só não ficção e... Mas, olha aí! Um livro que eu achei que tinha emprestado e estava aqui o tempo todo! Esse é o problema com a organização dos nossos livros: vamos descobrindo livros que não nos lembrávamos que tínhamos, e interrompendo a organização. Como é que esse livro veio parar aqui? Será que eu roubei? Não me lembro de ter comprado ou ganhado esse livro da Marguerite Yourcenar, por exemplo.

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Acho que ninguém mais lê a Marguerite Yourcenar, hoje em dia. O que deve ter me atraído no seu livro é o título, A Mente Obscura de Piranesi, porque sou fascinado pelo Piranesi, um gravurista veneziano do século 18 que se dedicava a reproduzir grandes interiores e cuja obra principal foi uma coleção de gravuras que chamou de Prisões Imaginárias e são exatamente isso, espaços sombrios entrecortados por escadas e passarela de ferro, só comparáveis em lugubridade às pinturas negras do Goya. Os grandes espaços vazios poderiam ser os interiores de qualquer outra coisa, como usinas abandonadas, mas as correntes não deixam dúvidas: diante delas, você está diante da crueldade humana na sua forma mais pura, a imaginada. Você pode imaginar que aqueles vultos se movimentando no fundo da mente obscura do Piranesi sejam o Marquês de Sade arrastando mais uma virgem para a sua cela. E vai notar que as escadas e as passarelas levam a nada. Piranesi foi o precursor do surrealismo.

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Se continuar assim, vou ter que adiar meu plano de arrumar os livros e ler A Montanha Mágica. Desculpe, Thomas. Talvez no ano que vem. 

 

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