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Pedro Bial fala de novo livro e da pandemia: 'Nada se compara ao que os seres humanos estão vivendo'

Prestes a completar 40 anos de TV, o jornalista e apresentador Pedro Bial lança 'Conversa com Bial em Casal', que traz seleção de entrevistados em seu programa

Entrevista com

Pedro Bial

Eliana Silva de Souza, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2020 | 05h05

Prestes a completar 40 anos de televisão, nos bastidores ou na frente das câmeras, o jornalista, escritor, cineasta e poeta Pedro Bial tem se realizado como apresentador. No comando de seu talk-show Conversa com Bial desde 2017, muitas foram as entrevistas que marcaram o programa e sua trajetória profissional. Mesmo com a pandemia, que impôs o isolamento social, a atração das noites da Globo se manteve, de forma remota, trazendo convidados mais que especiais, como foi o caso do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Amante das letras, o jornalista decidiu colocar no papel alguns desses muitos bate-papos, selecionando 20 nomes que integram o livro Conversa com Bial em Casa – Os 70 Anos da TV Brasileira em Tempos de Internet e Isolamento Social (Ed. Cobogó, R$ 56, 288 págs.). Entre os escolhidos, nomes como Antonio Prata, Gloria Maria, Laura Carvalho, Arminio Fraga, Paulo Gustavo, Xuxa Meneghel, Gilberto Gil, Daniel Filho, Ary Fontoura, Lima Duarte, Betty Faria, Gloria Pires, Alceu Valença, Ricardo Darín, Caetano Veloso. Em entrevista virtual ao Estadão, Bial, aos 62 anos, falou sobre esse novo projeto, entre outros assuntos. E afirma: “Eu sou um pouquinho de cada um que conversa comigo”.

Como foi feita a seleção das entrevistas para o livro?

Confesso que, depois de dar uma olhada e perceber que elas ficavam em pé sozinhas, que justificavam a impressão, achei melhor terceirizar a seleção. Eu terceirizo, por exemplo, no dia a dia do programa. Faço as entrevistas e terceirizo a edição, quase não dou pitaco na edição, porque acho que é melhor alguém que está vendo de fora. É enriquecedor ter mais uma camada de olhar e interpretação em cima do que foi feito. De certa maneira, isso se repetiu no livro. As entrevistas que estavam feitas tiveram o olhar da edição, dos editores. A Isabel Diegues (sócia-diretora da Cobogó) e a equipe dela é que fizeram isso. E aí começou um diálogo, uma conversa para ajustes, um pouco de dó assim: ‘puxa, podia ter ido um pouquinho mais para ter um Obama’, por exemplo. Mas aí também não dá, porque o livro tem certa urgência.

Terá outros livros previstos?

Olha, você acaba de dar uma boa ideia. Acho que, sem dúvida, é uma semente, não sei se outro idêntico a esse, mas um desdobramento desse, com certeza, é uma ótima ideia.

Quem falta entrevistar?

No Brasil, meu grande lamento, um cara que sempre foi muito carinhoso comigo, sempre deu entrevistas maravilhosas, mas anda meio recolhido, o Pelé. Este ano, 50 anos da Copa de 70 e com 80 anos de vida, ele não falou com ninguém, parece que está meio entristecido lá em Santos. No plano internacional, é até meio lugar-comum, teria várias pessoas para falar, mas o papa Francisco. O argentino mais amado, juntamente com o vinho Malbec de Mendoza, a carne argentina, o alfajor. 

E o Ricardo Darín?

Darín foi uma das coisas mais legais do ano. A gente se entendeu, ele tem muito senso de humor. Ele é um ator excepcional, extraordinário. Outro ator que admiro demais é o William Dafoe e a entrevista com ele foi exibida esta semana, justo agora que o filme da Bárbara Paz sobre o Babenco foi indicado para concorrer a uma vaga no Oscar. O filme é muito bom. A Bárbara fez o filme, mas tem uma mão do Babenco ali. Ele meio que quis filmar a própria morte, e delegou a ela isso. É um negócio muito lindo. E o William é o Babenco no último filme dele, eram muito amigos. Mas, enfim, lembrei isso, porque falei do Darín.

Algum entrevistado deixou você sem graça ou te emocionou?

Sem graça, eu não sei. Se aconteceu, acho que, saudavelmente, esqueci. Mas lembro de ter me emocionado várias vezes. Esse tipo de comunicação, mediada eletronicamente, potencializa muito as emoções. Incrivelmente, esse distanciamento humanizou muito as relações, uma coisa meio paradoxal. 

Como avalia seu trabalho?

Passo horas gravando, é muito trabalhoso, mas entendi que, quando estou com o entrevistado, estamos conversando, e eu estou absorvendo tudo que está acontecendo. E o inconsciente está captando tudo que está rolando atrás dela, do lado. O mundo continua a te informar e você está aqui com sua atenção voltada para o seu interlocutor. É um exercício de concentração muito exaustivo. Termino os dias de gravação assim, cansado mesmo. Cada vez eu me concentro mais, fico mais afiado, super foco, mas o cansaço físico e mental, depois, é muito grande. Mas acho que tudo isso contribuiu para que essas entrevistas tivessem um nível mais alto de entrega de parte e parte. Em uma das conversas, por exemplo, percebi que tinha a oportunidade de fazer um trabalho cada vez mais melhor. Foi com o Lima Duarte. Ele estava em um sítio, isolado, as condições de internet muito difíceis, tanto que, no primeiro dia, a ligação caiu, e foi uma das melhores coisas que aconteceu. No dia seguinte, restabelecemos o contato e foi a coisa mais bonitas que aconteceu no ano. 

Como será o programa depois da pandemia?

Evidente que, quando for possível eu fazer o programa presencial, vou voltar, mas não vou mais voltar ao que era, em termos de cenário e composição do estúdio. A gente já está projetando para uma coisa diferente. Me caiu essa ficha: pô, televisão no século 21, por que reproduzir o palco italiano? A TV tem quantas dimensões você quiser, e você vai fazer papai e mamãe? Já estamos pensando em uma outra distribuição da plateia, mas, além disso, preservar essa intimidade que as conversas ganharam este ano, mas em um espaço com público. Além disso, o recurso digital, a gente pode usar a qualquer hora. Pô, antes disso, qualquer entrevista internacional, primeiro era uma grana, tinha que pegar avião, pagar hotel. Imagina para fazer o Obama? Por que a gente vai abrir mão desse recurso se temos toda essa qualidade de imagem, de conexão? E agora estão pintando novos recursos eletrônicos, em que você pode ter uma pessoa aqui, outra distante e, acertando luz, enquadramento, os dois aparecem dentro de um ambiente virtual, como se estivéssemos na mesma sala, frente a frente. Não é abandonar nada do que a gente fez até agora, mas acrescentar esses novos recursos. 

O que é essa pandemia diante de tudo que já presenciou?

Eu vivi e tinha consciência de que estava vivendo grandes eventos que, de uma maneira ou de outra, entrariam para a história. Guerras, crises internacionais. Mas acho que nenhuma se compara ao que todos os seres humanos estão vivendo, sob a mesma ameaça e vivendo a mesma situação limite. Mesmo as comparações com a Gripe Espanhola, de 1918. Era diferente, o vírus viajava de navio, era um outro mundo. Nunca vivi nada parecido. Eu tenho uma mãe de 96 anos, fugiu da Alemanha, passou por guerra, e ainda pega essa pandemia pela proa, e está achando ótimo. 

Como vê a internet neste momento: ajuda ou atrapalha?

Acho que, na pandemia, a TV, esse velho eletrodoméstico do século 20, se afirmou como um lugar de informação confiável. Mesmo as pessoas que fazem oposição, na hora de ir para a informação confiável, recorreram ao Jornal Nacional, ao Estadão, Globo, Folha. 

Você já plantou uma árvore? Porque o resto já fez.

Já plantei várias árvores, já derrubei árvore, já salvei árvore. Um dos meus maiores orgulhos é um pau-brasil que estava morrendo num terreno que eu comprei no Rio de Janeiro. Peguei uma força-tarefa de jardineiro, biólogo, botânico, e a gente salvou um pau-brasil altíssimo. Pelos cálculos, ele deve ter mais de cem anos, porque é uma árvore que cresce devagar. Esse terreno é onde construí minha casa. De tudo que eu tenho de patrimônio, o pau-brasil é meu maior orgulho. É lindo, é lindo. Entre julho e agosto, ele floresce e aí é uma coisa incrível, porque as flores são amarelas, e fica aquele verde e amarelo escandaloso (risos). E a madeira tem aquele vermelho que enlouqueceu aqueles franceses. 

***

Isabel Diegues explica a escolha dos entrevistados para entrar no livro de Pedro Bial:

"Pedro é bom de conversa e sabe chegar. Escolher, portanto, não foi simples. Tínhamos o foco nos 70 anos da TV brasileira, que acabou sendo celebrado, de certa forma, na internet, em quarentena por conta da pandemia. Selecionamos então os entrevistados que contavam essa história, mas atentos ao presente, sem saudosismos, e interessados no que vivemos hoje e no por vir."

 

Isabel Diegues, sócia-diretora da editora Cobogó

 

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