Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Em artigo, Paulo Coelho relata tortura durante ditadura militar e critica Bolsonaro

Motivado pela declaração do presidente Jair Bolsonaro sobre comemorar o 31 de março, que marcou o golpe de 64, Paulo Coelho descreve, em artigo publicado pelo The Washington Post, a tortura a que foi submetido em 1974

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2019 | 12h52

Em artigo escrito para o The Washington Post e publicado nesta sexta, 29, o escritor brasileiro Paulo Coelho descreveu a tortura que sofreu durante a ditadura militar. Autor de O Alquimista, entre outras obras que se tornaram best-sellers internacionais, Paulo Coelho era, à época, compositor. Ele aproveitou o espaço para criticar o presidente Jair Bolsonaro, que sugeriu que os quartéis celebrassem a data de 31 de março, que marca 55 anos do início do regime militar no Brasil.

Paulo Coelho escreve que sua casa foi invadida no dia 28 de maio de 1974 e ele foi levado ao  DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), fichado e fotografado. Liberado pouco depois, pega um táxi, que é fechado por outros dois carros, e ele é tirado de lá por homens armados. Apanha no caminho, depois na sala de tortura. Quando permitem que ele tire o capuz, se dá conta de que está numa sala a prova de som com marcas de tiro nas paredes. A tortura segue, ele conta. 

“Depois de não sei quanto tempo e quantas sessões (o tempo no inferno não se conta em horas), batem na porta e pedem para que coloque o capuz. (...) Sou levado para uma sala pequena, toda pintada de negro, com um ar-condicionado fortíssimo. Apagam a luz. Só escuridão, frio, e uma sirene que toca sem parar. Começo a enlouquecer, a ter visões de cavalos. Bato na porta da 'geladeira' (descobri mais tarde que esse era o nome), mas ninguém abre. Desmaio. Acordo e desmaio várias vezes, e em uma delas penso: melhor apanhar do que ficar aqui dentro."

Paulo Coelho dá todos os detalhes sobre o que sofreu e conta ainda que anos mais tarde, quando os arquivos da ditadura foram abertos, ele teve a chance de saber quem o denunciou, mas não quis. “Não vai mudar o passado”, escreve.

O escritor teve a iniciativa de publicar essa história quando o presidente Jair Bolsonaro sugeriu que os quartéis celebrassem o dia 31 de março, data que marca o golpe militar de 1964. Ele ainda condena a homenagem do presidente a Carlos Alberto Brilhante Ustra no Congresso Nacional, à época que ainda era deputado, na votação pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.

Ele encerra o relato com uma crítica direta a Bolsonaro: "E são essas décadas de chumbo que o Presidente Jair Bolsonaro – depois de mencionar no Congresso um dos piores torturadores como seu ídolo – quer festejar nesse dia 31 de março", finaliza.

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