Paulo Coelho cai em armadilha ao criticar famosos em novo livro

Em seu novo livro, "O Vencedor EstáSó", Paulo Coelho pretende fazer uma crítica ao mundo dascelebridades, traçando várias histórias paralelas em Cannes,durante o festival de cinema francês. O livro foi lançado nesta sexta-feira pela editora Agir,com tiragem de 200 mil exemplares, 100 vezes mais do que amédia do mercado editorial brasileiro. O lançamento aconteceapenas no Brasil. Enquanto um assassino em série intriga o balneário francês,aspirantes a modelos e atrizes cortejam produtores e diretoresque circulam pelo festival, a fim de um dia também fazer partedo que Paulo Coelho chama de SuperClasse -- o restrito grupoque toma as rédeas da indústria cultural. A crítica, no entanto, não se aprofunda muito,transformando-se em autocrítica involuntária. Afinal, o autorde best-sellers como "O Alquimista" e "Verônica Decide Morrer"é uma das supercelebridades erguidas pelo sistema que anarrativa de "O Vencedor" desaprova. Na biografia autorizada "O Mago", lançada em junho,Fernando Morais diz que o sonho de Coelho, desde aadolescência, era ser "famoso e reconhecido no mundo inteiro". Em entrevista coletiva dada em junho, Morais afirmou: "Elenunca disse que queria ser um escritor bom. Queria ser famosono mundo todo." Exatamente como as personagens de seu novolivro. A atriz Maureen, por exemplo, deseja fazer parte daSuperClasse para influenciar o mundo. Logo, não quer nada menosque o Oscar e Cannes. Já Gabriela, outra atriz aspirante,sente-se velha já aos 25 anos e, apesar da boa formação, aceitaser somente um joguete da indústria. Igor, embora seja o assassino, é uma das raras personagensque desprezam a ambição: "Os adolescentes, ao invés deconhecerem os verdadeiros valores da fé e da esperança, sonhamem virar artistas", diz. Além dessas, há várias outras personagens no livro --tantas, que Coelho acaba por não desenvolvê-las. Para quem leu a biografia, fica ainda mais difícil nãocomparar criador e criatura. No primeiro capítulo de "O Mago",Morais narra a visita do escritor a Budapeste, em 2005, quandoele teve um verdadeiro ataque de estrelismo. Ao desembarcar no aeroporto, Coelho ficou visivelmentedesapontado. Pegou o celular, fez uma ligação: "Não há ninguémà minha espera em Budapeste! Sim! Só isso mesmo que você ouviu.Isso mesmo: não-há-ninguém-à-minha-espera-em-Budapeste. Não,ninguém. Eu disse ninguém." Quinze minutos depois, uma multidão de jornalistas e fãsaparece no aeroporto e, então, Coelho se anima. Em "O Vencedor Está Só", no entanto, é bobagem deixar-selevar pelos jornalistas e fãs -- segundo a narrativamoralizante, o público modera seus gostos a partir da moda.Hoje, cultua; amanhã, apedreja. Em um dos capítulos do livro, um anônimo protesta em umbar contra a mercantilização da cultura, adotando a visão járepetida diversas vezes pelo narrador. "Se um desequilibradomata a facadas alguns inocentes, o mundo inteiro se horroriza.Mas quem dá atenção à violência intelectual que acontece emCannes?", diz a personagem. "Já não se trata de escolher o melhor filme, mas de ...obrigar as pessoas a comprarem produtos que não desejam,esquecerem a arte para pensar na moda", continua, sem conseguira atenção de ninguém. Inclusive do próprio Coelho, que costuma ser duramentecriticado pela imprensa especializada, mas é fenômeno de vendasmundo afora. Em seu novo livro, ele mantém o estiloextremamente simplificado, quase infantil. Difícil saber se a crítica ao culto às celebridades e aoconsumo conspícuo derrapou ou se Coelho está apenas descrevendoa si e à indústria de que faz parte. De todo modo, é quasecerto que "O Vencedor Está Só" será mais um sucesso de vendas.Paulo Coelho continuará a fazer parte da SuperClasse.

MARJORIE RODRIGUES, REUTERS

02 de agosto de 2008 | 12h18

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